Essa coisa linda aí em cima, tomando banho de rio, é a Ona.

Eu conheci ela no Laos, em 2015, mas bem antes disso, antes mesmo de eu entrar no avião que me levou pro Sudeste Asiático, eu já tinha me programado para o dia em que ia ver os elefantes.

Como vocês todos já devem estar cansados de saber, eu amo bicho. E eu sempre me esforcei pra ser uma turista consciente, que não explora o meio ambiente de maneira errada e não participa de atividades que maltratam os animais. Muito menos animais selvagens.

Então ao planejar minha viagem, ainda aqui no Brasil, eu pesquisei bastante e fiz questão de encontrar um santuário que tratava os elefantes super bem e onde era possível interagir com eles de perto.

O que eu não esperava era chegar em Luang Prabang bem no feriado entre o Natal e o ano novo, muito menos que a cidade estaria absolutamente lotada de turistas, muito menos que esses turistas iam acabar com as poucas vagas disponíveis no meu santuário escolhido a dedo.

Me ferrei.

Calma calma, não criemos pânico, disse o Scott – meu guia querido. Nós aqui na agência fazemos esse mesmo passeio para ver os elefantes em um outro santuário e é muito legal também! Eu já fui, vários outros viajantes aqui do grupo já foram, todo mundo ama. Vamos marcar pra você?

Vamos!

De cara o lugar não me agradou.

Era totalmente aberto, sem cercas nem grades, em uma área de floresta na margem do rio Mekong. Parecia lindo, mas os elefantes tinham banquinhos de madeira nas costas para as pessoas montarem e os mahout carregavam bastões com um gancho de metal na ponta – de acordo com eles, para controlar os animais no caso de algum imprevisto.

É, não me agradou nem um pouco.

Mas, como diria o meu pai: contra a má sorte, coração leve. Eu já tinha pago, eu já tinha ido. O jeito era tentar aproveitar da melhor maneira possível (e depois fazer uma avaliação no TripAdvisor, pedir ao Scott pra não recomendar mais aquele lugar, mandar um e-mail pra administração. O que estivesse ao meu alcance).

Eu dei a sorte de ser a única pessoa do grupo com um elefante só pra mim (das vantagens de se viajar sozinha) e logo fui tentar me familiarizar com ele – ou melhor, ela. A Ona.

De acordo com o mahout da Ona, se eu quisesse fazer amizade com ela era só dar um pedaço de cana de açúcar. De todos os elefantes, a Ona era a que mais gostava de doce!

Ora ora, que coincidência. Eu também fico amiga das pessoas quando elas me dão um doce, Ona. Começamos bem.

Aqui eu tenho que fazer uma confissão: apesar da primeira impressão ruim, a tarde que eu passei com a Ona foi espetacular.

Eu pedi pra tirarem o banquinho de cima dela e para manterem aqueles bastões horríveis bem longe de nós – se o universo queria que eu morresse esmagada por um elefante, então que fosse.

Nós passeamos de trombas dadas, entramos no rio pra tomar banho (de roupa mesmo, eu não tinha levado biquíni) e depois eu e Ona ganhamos uma penca de bananas para dividir: oito para ela, uma para mim. O mahout me contou como os elefantes viviam (ali mesmo, soltos na floresta!), o que comiam, como eram suas relações sociais… O pacote completo.

Então lá estava eu, bastante satisfeita com meu dia, me despedindo da Ona e tentando salvar minha única bananinha (ela ficava fuçando minha bolsa com a tromba), quando um outro mahout veio chegando de fininho, como quem não quer nada, e passou uma corrente de ferro enorme pela pata traseira da minha nova amiga. Uma corrente dessas de prisioneiro que a gente vê em desenhos animados, só faltava a bola na ponta.

Oi???????

“O que é isso moço? Os elefantes não são livres? Eles não ficam soltos na mata?”

“Os outros sim, mas não a Ona. Ela é a matriarca, então onde ela vai, o resto segue. Se soltarmos a Ona, o bando todo vai embora, mas mantendo ela presa aqui durante a noite, os outros são obrigados a ficar por perto e voltar de manhã.”

“Então a Ona fica aqui sozinha e acorrentada todas as noites?”

“Sim. Mas só ela, viu? Os outros todos podem ir e vir à vontade.”

Ah, tá. Grande consolo.

Pedi desculpas à Ona, dei um último abraço nela e entreguei minha banana. Ela merecia mais do que eu.