Janeiro de 2014. Galápagos.

Eu estava mergulhando (é claro!).

O dia estava absurdamente ensolarado e quente. Nosso barco tinha parado próximo a uma ilhazinha deserta para fazermos o intervalo de superfície – aquele tempinho que a gente precisa esperar entre mergulhos pra que o nitrogênio saia do sangue – e, enquanto uns tomavam sol e outros lanchavam, eu peguei meu snorkel e voltei pra água.

(Como diz um conhecido equatoriano, todo o tempo que você tiver nas Galápagos deve ser passado embaixo d’água. Concordo plenamente.)

Pulei no mar gelado e fui em direção à ilha, onde dois caras do meu grupo já estavam fazendo snorkeling e onde eu esperava encontrar pelo menos uns peixinhos bonitos pra importunar.

Mas eu estava com dificuldade para avançar.

Eu nado bem, vocês sabem, mas o mar estava agitado. As ondas me jogavam cada vez mais perto das rochas que cercavam a ilha e, não importa o quanto eu batesse perna, os outros mergulhadores sempre me pareciam tão longe quanto antes. Comecei a ficar cansada – e com medo.

Levantei a cabeça e procurei os meninos uma última vez antes de desistir e voltar para o barco. Ainda estavam longe, mas dessa vez eu percebi que os dois abanavam os braços e gritavam. Pra mim.

Fiquei com muito medo.

Arranquei a máscara e procurei uma barbatana de tubarão, tipo cena de filme mesmo. Nada. Olhei para o barco, tudo parecia normal. Não havia mais ninguém por perto. O que estava acontecendo?

Os meninos continuavam gritando e gesticulando. Eu tinha certeza que era pra mim, apesar de não entender as palavras. E agora eles também estavam… apontando? Sim, eles estavam apontando. Para baixo. Eles queriam que eu olhasse para baixo.

Coloquei a máscara, enfiei a cabeça na água e lá estavam eles.

Leões marinhos!

Três, dançando em volta de mim e me examinando – aquele pacote estabanado de neoprene que eu era.

Fiquei encantada.

Galápagos é cheia de leões marinhos, com o tempo você até se acostuma com eles (e com o cheiro). Mas existem regras rígidas sobre chegar muito perto dos animas selvagens, e no geral eles ficam só preguiçando na praia. Eu nunca tinha NADADO com um leão marinho antes!

Os três eram muito rápidos, então eu nem tentava acompanhar – só observava enquanto eles iam e vinham em uma maravilhosa apresentação particular de balé. Sorte a minha, eu adoro balé!

Não sei quanto tempo isso durou (alguns minutos? segundos, talvez?), mas eventualmente os leões marinhos se cansaram de mim, dispararam para o mar aberto e me deixaram lá, ainda meio hipnotizada.

Minha seção de snorkeling já tinha valido à pena. Procurar peixinhos? De jeito nenhum: fiquei ali mesmo, boiando de costas, deixando o coração se acalmar. O céu estava claro. As ondas pareciam menores. Eu ouvia o motor do barco ronronando e os meninos ainda gritando sabe-se lá de onde.

Mas eu não prestava atenção em nada. Eu só queria ficar ali, sentindo a água gelada no corpo e o sol quente no rosto.

Eu me sentia viva. Absurdamente viva. Absurdamente viva, e feliz, e em paz. Nada mais existia. Nada mais importava.

Não importava minha família, meus amigos, meus gatos. Não importava meu emprego, meu apartamento, meus alunos tão queridos. Não me importava o cara que tinha me dado um pé na bunda e me deixado em pedacinhos.

Não me importava nem o fato de eu ter perdido meu pai, que é um peso que raramente me deixa.

Se alguém me dissesse que eu ia morrer ali mesmo – sozinha, longe de tudo e de todos que eu jamais tinha conhecido e amado, com meros 28 anos de idade – eu teria morrido tranquila.

Não tinha como ficar melhor do que aquilo.

Se eu não fosse ateia, eu diria que tinha encontrado Deus.


Vestígios daquela sensação maravilhosa às vezes me aparecem, nos momentos mais aleatórios e mundanos: dirigindo na estrada, no meio de uma aula de ioga, sentada num buteco… E no mar. Sempre no mar.

Meu “Deus” está aqui o tempo todo, rondando na superfície como os leões marinhos, prestes a aparecer de novo.

E eu espero.

Se essa coisa de “espírito animal” existe, vocês já sabem qual é o meu.