Eu já estava viajando pela Tailândia a mais de duas semanas quando chegou o momento de me encontrar com o tour que ia me levar por Camboja, Vietnã e Laos (e, depois, de volta para a Tailândia – o loop clássico).

Devo admitir que fiquei super ressentida com essa mudança: eu já tinha me acostumado a fazer o que eu queria, do jeito que eu queria e na hora que eu queria, sem plano nenhum e ninguém a quem responder, mas agora tinha que ficar presa a um grupo e seguir um roteirinho que eu nem sempre gostava. Foi um choque pelo qual eu não esperava. Se esperasse, não tinha me proposto a viajar com um tour, não é mesmo?

No nosso primeiro destino já percebi o erro. Eu me encontrei com o grupo em Bangkok (praticamente só mulheres que já se conheciam a quase um mês; eu era a “menina nova na turma”, totalmente deslocada) e, depois de alguns dias para conhecer a cidade, cruzamos a fronteira para o Camboja e fomos para Siem Riep, famosa pelo espetacular templo de Angkor Wat.

Nós tínhamos horário certinho pra tudo: acordar, tomar café, fazer os passeios – todos juntos, é claro… Aproveitem essa meia hora pra tomar banho e descansar, as 19h em ponto a gente sai para jantar no lugar X. “Ouvi falar que o lugar Y é ótimo, podemos ir lá?” Não, o combinado é o lugar X.

Não quero ser injusta, ir com um grupo facilita sim a vida, tira grande parte do estresse e te fornece bons amigos. Mas que às vezes enche o saco, ah isso enche sim.

E foi por isso que, cansada de passar o dia inteiro turistando com um grupo enorme de mulheres ligeiramente escandalosas, eu resolvi abandonar o grupo à noite. Elas queriam ir ao teatro e eu, vinda das baladeiras ilhas ao sul da Tailândia, queria mais era beber e dançar até cair.

Por sorte tinha um pub crawl rolando naquele dia, então lá fui eu.

Pra quem não sabe, um pub crawl é quando uma galera mais ou menos desconhecida se junta para ir bebendo de bar em bar. A ideia é que você paga uma quantia qualquer aos organizadores (que na Ásia, naquela época, eram baratíssimas – eu me lembro de ter pago exatos R$ 20,00 reais nesse dia) e tem direito a entrada nos bares e boates, além de bebidas e brindes em cada um deles. A peregrinação costuma terminar em um lugar mais arrumadinho e com música boa pra dançar.

O bom dos pub crawls é que todo mundo está nessa vibe de se divertir e conhecer gente – sem contar que os organizadores se esforçam pra fazer a galera interagir – então ninguém fica sozinho por muito tempo.

Mas, nesse dia, eu estava com dificuldade de me enturmar. Conversava com um pessoal aqui, outro ali, o mesmo papo de sempre, o mesmo povo de sempre (nós mochileiros somos todos iguais, impressionante)… E de repente já tínhamos mudado de bar, estávamos prestes a pular para o 3o da noite, e eu me vi sentada sozinha em um sofá só observando – e tomando uma bebida extremamente suspeita, como sempre acontece nessas saídas muito baratas.

Me lembro como se fosses ontem: na minha frente havia outro sofá e, mais além, uma pista de dança com uma galera já animadinha. Atrás ficava uma área aberta, com mais sofás e pufes. À direita, um bando de americanos jogava beer pong numa mesa enorme e, à esquerda, o bar, com um monte de gente em pé conversando.

E aí alguém me chamou a atenção.

Um moço gringo, desses que você vê de longe que é um gringo bem gringo mesmo.

Alto, vermelho de sol (devia ser branco que nem papel em circunstâncias normais) e com olhos azuis muito claros – olhos de husky siberiano. Imaginei que o cabelo, agora raspado, era loiro, porque a barba era de um castanho muito claro, quase ruivo. E um sorriso enorme, largo, desses cheios de dentes. “Mischievous”, como ele mesmo me disse uma vez.

(Mischievous significa o que? Malicioso? Malandro? Em quatro anos inteiros de tradutora, nunca consegui descrever bem essa palavra… nem o sorriso do moço.)

Ele era claramente bem mais novo do que eu – como a maioria das pessoas ali – mas isso nunca tinha me impedido antes. Eu tinha gostado do moço e isso era o suficiente, agora só precisava arrumar uma maneira de ir conversar com ele. E logo a oportunidade veio: uma das meninas que estava no grupo dele foi até o bar pegar uma bebida – e eu  fui também.

Ela estava escolhendo algo no cardápio e, como se eu não pudesse simplesmente pedir outro cardápio para o barman, fui chegando perto e perguntei se podia dividir o dela. Já falei, mas não custa repetir: em pub crawls as pessoas são super extrovertidas e abertas, e antes que nossas bebidas chegassem eu e Tatiana – esse era o nome dela, uma inglesa – já estávamos numa conversa super animada.

“Você está aqui sozinha?”

“Pois é, estou.”

“Ah, vem conhecer meu pessoal então.”

Pronto. Fácil assim.

O pessoal da Tatiana tinha agora se mudado para os sofás do lado de fora e eu me sentei com eles. Além do moço com olhos de husky siberiano – que me disse se chamar James e ser britânico (“inglês não! A família do meu pai é de Gales”) -, conheci uma mocinha muito simpática de Cingapura, a Ari, e um canadense, Trey. Vou admitir que não me lembro do resto do povo.

Não duramos muito tempo nos sofazinhos confortáveis e já estava na hora de continuar a peregrinação pelos pubs de Siem Riep. Fui conversando com o “James”, mas com o álcool que já estava subindo e o sotaque complicado do menino, eu entendia muito pouco do que ele falava. Passei a entender menos ainda depois dos shots de não-sei-o-que que a gente tomou no terceiro bar (era o terceiro bar? Ou já tínhamos ido pra outro lugar? Perdi a conta…) e menos ainda no destino seguinte, que era uma super boate barulhenta.

Desta última eu tenho só duas lembranças: ao chegarmos, encontrei o guia da minha excursão – sim, aquele que tinha levado o resto do povo no teatro – dançando Taylor Swift em cima de uma mesa (beijo pra você Scott!), e também me lembro de estar em uma pista de dança lotada, luzes azuis piscando, e o James com sua blusa azul, que combinava com os olhos, meio deslocado.

Em algum momento, eu puxei o James lá pra fora pra gente “tomar um ar” – o que, é claro, era um belo de um eufemismo, mas também extremamente necessário nesses lugares fechados em que as pessoas ainda fumam de tudo. Nós mal saímos da bagunça quando uma moça apareceu com tickets pra gente tomar shots de graça em um outro bar alguns quarteirões à frente.

Sim, nesses destinos asiáticos muito turísticos e baladeiros, pessoas estranhas te oferecem bebidas de graça. E o pior é que você aceita.

Peguei os tickets e saí correndo (eu tenho mania de correr quando bebo demais, é uma coisa estranha). O James veio atrás.

Tomamos nossos shots estranhos e estávamos no caminho de volta para a boate quando ele me beijou – assim, no meio da rua mesmo. Não me lembro se chegamos a encontrar o resto do povo novamente, mas lembro que, no caminho de volta pro meu hotel, passamos em um supermercado pra comprar biscoitos (um supermercado gigantesco e colorido, bem aberto às 2h da manhã) e que, em algum momento da noite, ele me confessou que não se chamava James, e sim Thomas.

Oi? Você mentiu assim de cara lavada?

Sim.

Pra quê?

Pra ver se eu conseguia me safar – to see if I could get away with it.

Eventualmente eu descobri que ele adorava fazer esse tipo de coisa, inventar historinhas pra ver a reação dos outros. Às vezes era hilário, às vezes só irritante. Enfim…

James Thomas foi comigo até meu hotel. Admito que, nessa hora, foi uma bela vantagem estar com a excursão, pois se eu estivesse viajando sozinha, teria só uma cama de dormitório. Aí eu teria me despedido do moço com olhos husky siberiano ali mesmo – tchau, bênção, foi um prazer. E minha história terminaria aqui.

Mas não: eu tinha meu próprio quarto. E ele passou a noite. Vamos ficar só por isso mesmo porque minha mãe pode estar lendo.

No dia seguinte eu tentei me livrar do moço antes que o pessoal da minha excursão visse a gente junto, mas não consegui – ele não queria ir embora. Era meu último dia em Siem Riep, então arrumei minha mochila e fiz o checkout. Passamos em um Seven Eleven pra tomar café – ele pegou um suco de laranja, eu peguei um iogurte com granola – e fomos para o ônibus onde ele esperou comigo até a hora de ir embora.

“Tchau, moço bonito, até nunca mais. Tenha uma boa vida!”

Mal dormida, de ressaca e em um péssimo assento de corredor cheio de furos (porque uma das meninas da excursão simplesmente não podia sentar longe do namorado e me encheram o saco até eu trocar de lugar com ela), a viagem de quase 8 horas até Phnom Penh foi das piores que fiz nos meus meses de Ásia.

Chegando no hotel e tendo acesso um Wi-Fi razoável, eu até dei uma (boa!) fuçada no Facebook atrás de James Thomas – encontrei a Tatiana e o Trey, mas nada do moço com olhos de husky. Dele, eu teria que me contentar em ter apenas boas lembranças e uma história divertida pra contar.

Uma pena… ele parecia legal.