Como podemos causar um impacto social e ambiental positivo – ou menos negativo – em nossas aventuras.

O cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade social estão na moda – finalmente!

Finalmente as pessoas estão se preocupando um pouco mais com o lixo que produzem, os recursos que consomem, os objetos que compram e, mais importante, as pessoas (e demais seres vivos) afetadas por nossas escolhas. E isso inclui a maneira como viajamos.

Viajar vem se tornando algo cada vez mais acessível, tanto no Brasil quanto no exterior – e isso é maravilhoso! O aumento do turismo movimenta a economia, promove a troca cultural, abre a nossa cabeça… todas aquelas coisas boas que já conhecemos.

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Ser turista é bom e a gente gosta (fonte: https://www.flickr.com/photos/woernle/)

Mas nem tudo são flores: ao receber mais pessoas, muitos destinos turísticos sofrem impactos negativos como superlotação, depredação de patrimônio histórico e natural, e às vezes até exploração dos habitantes locais (algo que um monte de gringos adora vir fazer em países em desenvolvimento e que me deixa morrendo de raiva).

Para que o turismo seja algo mais sustentável e positivo, cada um de nós tem que fazer a sua parte – e isso inclui eu e você. Na sua próxima viagem, que tal então…

Levar seu próprio saco de lixo?

Já estamos cansados de ver os danos que até objetos pequenos – como um canudo – podem fazer ao meio ambiente: sufocam tartarugas, entopem bueiros, acabam até parando na nossa água potável na forma de microplástico (sem contar que deixam qualquer lugar mais feio, vamos combinar).

Traga consigo o lixo que você produzir em seus passeios e dê a ele o destino correto, seja reciclável ou não. Você pode até ir mais longe e usar seu saquinho para catar o lixo que outras pessoas, menos conscientes, deixaram para trás.

Trocar o avião por outro transporte?

Quando o assunto é aquecimento global, o avião é o grande vilão do momento. Isso porque a queima de querosene gera uma quantidade absurda de gases estufa – justamente aqueles que contribuem para o aumento da temperatura do planeta.

Então, quando possível, porque não trocar o avião por carro, ônibus, trem ou até barco? Você diminui a pegada ecológica da sua viagem, curte o trajeto (quem não gosta de ficar vendo a paisagem passar pela janelinha?) e conhece seu destino muito mais de perto. Isso sem contar nos preços, que costumam ser mais baratos. Olha que tanto de vantagem!

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Pezinhos sujos no barco que me levou de Manilla a Corón, nas Filipinas. Uma experiência e tanto.

Agora, às vezes não tem mesmo como evitar o avião e isso é totalmente compreensível. Nesses casos, tenho algumas sugestões:

  1. Procure o voo mais direto possível: durante um voo, a decolagem e o pouso são os momentos que mais consomem combustível. Isso significa que quanto menos escalas você fizer, menor será a emissão total do seu trajeto.
  2. Compense suas emissões de gases do efeito estufa: algumas companhias aéreas já permitem que, no momento de compra das passagens, você pague um valor a mais para cobrir as emissões de carbono geradas pelo seu voo. Se este não for o caso, dá pra fazer isso por conta própria! É só usar uma calculadora para descobrir quantas toneladas de gases estufa seu voo vai emitir e depois compensar essas emissões doando para programas de reflorestamento, preservação ambiental ou eficiência energética.
  3. Leve menos bagagem: a lógica aqui é bem óbvia – quanto mais peso o avião carrega, mais querosene ele queima. Então seja econômico e eficiente com suas malas; sua viagem fica mais fácil e o meio ambiente agradece.

Não carregar “lembrancinhas” que encontrar pelo caminho?

Lembre-se do famoso ditado: tire apenas fotos, deixe apenas pegadas. Já falamos sobre não deixar qualquer tipo de lixo ou resíduo pelo caminho, mas e quanto a retirar coisas?

Uma semente, uma rocha vulcânica, um dente de animal. Pode parecer pouco, mas são itens que fazem parte do meio ambiente e que, inclusive, podem ter seu transporte proibido (especialmente no caso de fósseis ou em áreas de preservação).

Não estou falando que você não deva pegar uma folhinha bonita do chão de uma praça cheia de árvores. Mas se existe qualquer orientação para não retirar nada do lugar ou se aquilo que você está levando pode ser valioso, fazer falta ou ainda estar vivo (como conchas com molusquinhos dentro), deixe pra obter seus souvenirs em outro lugar.

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Na primeira vez que fui à Europa, vi essas bolotinhas no chão e fiquei encantada – me senti num desenho do Tico e Teco. Peguei uma pra mim e tenho até hoje, 12 anos depois.

Dar preferência aos produtos locais?

Por bem ou por mal, o mundo é majoritariamente capitalista e comprar faz parte da nossa vida. Sendo assim, comprar faz parte das nossas viagens também.

Aliás, tem muita gente que viaja só pra comprar, especialmente aqui no Brasil – já viu aquela galera que vai pra Miami com um monte de malas vazias e volta com elas estourando? Pois então.

Mas você já pensou pra pensar de onde vêm essa tralha toda?

Muitas vezes, as comprinhas baratinhas que fazemos em outras cidades/países são baratinhas por um mau motivo – geralmente porque são de má qualidade ou feitas sem responsabilidade social/ambiental nenhuma.

E outro problema: são importadas, o que significa que não têm nada a ver com o local que você está visitando e que, provavelmente, geraram emissões de carbono no processo de transporte.

Que tal então favorecer os produtos locais? Assim você adquire algo genuíno (e que tem chances maiores de ter sido feito de forma ética), valoriza a cultura e o trabalho da região, gera menos impacto no meio ambiente e movimenta a economia local – tudo isso sem ter que sacrificar suas comprinhas.

O mesmo vale para a comida.

Ao consumir alimentos típicos (e de época!) você paga menos, evita os agrotóxicos e, novamente, estimula a economia local ao mesmo tempo em que diminui as emissões advindas da exportação.

Sem contar que encher a cara de comida diferente é um dos melhores aspectos de viajar, né gente? Imagina baixar lá na Tailândia pra ficar comendo hambúrguer todos os dias (digo porque conheci essa pessoa). Dificilmente vai ser barato, pois a carne tem que ser importada; dificilmente vai ser gostoso, pois a carne vermelha não faz parte da alimentação tradicional do país; e você ainda perde a oportunidade de experimentar uma culinária exótica e deliciosa em primeira mão.

A não ser que você tenha restrições alimentares de verdade, tente não ser essa pessoa.

Parar de participar de atividades que maltratam animais selvagens?

Animais selvagens são fascinantes e nós adoramos a oportunidade de interagir com eles cara a cara.

Eu então, que sou uma Felícia encarnada e AMO bicho, já fiz essa burrada várias vezes: já fui em show de golfinho, já andei de elefante, já segurei arara.

Está na hora de rever isso.

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Eu e Ona, em um “santuário” no Laos. A princípio, achei que fosse um lugar legal, mas ela era a matriarca e tinha que ficar acorrentada – todos os dias, o dia inteiro – para que os outros elefantes da manada não fugissem.

Existem sim programas de reabilitação, de educação ambiental e muitas vezes o turismo ecológico é uma excelente fonte de renda para a preservação dos próprios animais.

Mas a gente sabe que esse nem sempre é o caso, e que às vezes os animais são aprisionados e maltratados só para nos entreter – e, claro, gerar dinheiro. Nós não queremos fazer parte disso, não é mesmo?

Então, antes de participar de qualquer atividade que envolva interação com animais selvagens em cativeiro, pesquise o seguinte:

  • Os animais ficam presos ou soltos? (e caso fiquem soltos, como os cuidadores fazem para que não fujam, como a manada da Ona ali em cima);
  • Eles recebem os alimentos adequados?
  • Suas necessidades de espaço e socialização são atendidas?
  • Que tipo de interação com os visitantes é permitida? (se as pessoas podem montar neles, tocá-los, dar alimentos, etc.).

Se alguma coisa parecer abusiva ou pouco natural – como no zoológico de Buenos Aires, onde as pessoas entram em jaulas com tigres e leões adultos – evite o local. Simples assim.

Em vez disso, dedique seu tempo e dinheiro para parques e santuários que de fato contribuem positivamente para a preservação dos animais, ou busque maneiras de observar os bichos livres, em seu habitat natural – como um safári na África ou um passeio de barco para observar baleias.

Termino este item com duas dicas:

  1. Se você é Felícia como eu e não se conforma em ter que deixar os bichos em paz, considere fazer um programa de voluntariado – assim você conhece eles bem de perto enquanto cuida, sem abusos;
  2. O maravilhoso documentário Blackfish mostra o que realmente acontece nos bastidores de lugares como o SeaWorld, que fazem apresentações com animais marinhos. Vale à pena assistir.

Carregar um kit de talheres, lenço e copo?

Uma coisa que eu uso aos montes quando viajo é lenço de papel – sempre tenho um pacotinho comigo (e vou continuar tendo, pois nós mulheres sabemos que falta de papel higiênico em banheiro público é um problema grave). Mas e se, para todo o resto, eu usasse um lenço de tecido? Quanto lixo eu deixaria de produzir?

Bastante, essa é a resposta que eu descobri na prática. Meu lenço não só me acompanha nas refeições e para enxugar as mãos, mas eu também já o utilizei pra fazer curativos improvisados e até pra limpar cocô de morcego que caiu na minha cabeça!

Também dá pra levar um bom copo reutilizável (escolha um colapsável, pois ocupa menos espaço) e talheres de metal ou mesmo de madeira. Estes últimos são super úteis, podem ir com você até na cabine do avião.

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Meus talheres de bambu, com direito a canudo e lencinho multiuso.

Esses pequenos objetos não só diminuem bastante sua produção de lixo durante as viagens, quando de fato usamos uma quantidade enorme de utensílios de plástico/papel, mas também podem ser levados no seu dia-a-dia normal. Sua cidade agradece.

Evitar destinos que já estão superlotados?

Já tem diversos locais do mundo sofrendo com o excesso de turismo. Às vezes o problema é o turismo mau educado – barulho, lixo, falta de respeito. Mas às vezes a quantidade de pessoas é simplesmente grande demais.

Veneza, Barcelona, Reykjavik, Machu Picchu e muitas outras estão sofrendo com o excesso de turismo. Dentre os problemas, estão a depredação do patrimônio local, o aumento absurdo dos preços de aluguel (AirBNB, estou falado com você) e até falta de alimentos.

Tem tanto lugar legal desconhecido pelo mundo, então porque não visitar um deles? Provavelmente vai ser mais barato, mais autêntico, mais prazeroso (todo mundo odeia lugar cheio turista – e sim, eu entendo a ironia) e mais sustentável.

Agora, se você está doida para conhecer um determinado local e, por azar, é um desses famosos e lotados, tente evitar a alta temporada para causar menos impacto (e, novamente, pagar mais barato).

Outras coisas que todos podemos fazer para facilitar a vida dos habitantes locais e demonstrar respeito pela cultura deles, independentemente do destino ser popular ou não, são:

  1. Aprender algumas palavras no idioma local. Bom dia, obrigada, por favor, com licença… tente memorizar pelo menos essas expressões básicas e educadas. É uma demonstração de respeito e o mínimo que a gente faz ao visitar o país dos outros.
  2. Peça permissão para tirar fotos, seja de pessoas ou de propriedade privada – e se a permissão for negada, não force a barra. Não é direito nosso tirar foto de quem quiser e do que quiser.
  3. Não toque/suba em obras de arte, ruínas, monumentos, etc. a não ser que seja explicitamente permitido. Esse tipo de comportamento destrói os objetos e edifícios, mesmo que muito lentamente. Novamente, não é direito nosso depredar o patrimônio alheio.
  4. Busque conhecer os costumes locais e respeite-os, mesmo que você não concorde com eles. O modo de vestir, de se dirigir às pessoas, de comer… Cada cultura tem o seu, e quando a gente entra na cultura dos outros, devemos fazer o máximo para segui-la.

Eu sei que a maioria das pessoas viaja para relaxar, descansar e esquecer as preocupações – e isso geralmente implica que, enquanto turistas, não estamos muito dispostos a gastar mais dinheiro ou abrir mão de certos confortos “só” para diminuir o nosso impacto negativo.

Mas se continuarmos viajando da maneira como viajamos hoje – e consumindo da maneira como consumimos hoje -, logo logo o turismo para certos lugares se tornará impraticável e nós corremos o risco de sermos completamente barrados deles (como Maya Bay, a lindíssima locação do filme “A Praia”, que está interditada até sabe-se lá quando graças à sujeira e barulho que os turistas faziam).

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Eu tive o privilégio de conhecer Maya Bay antes que ela fosse fechada. Mas e se ela nunca abrir de novo? ( fonte: flickr.com/photos/phalinn/)

Nossas viagens têm que ser feitas com consciência e cuidado – se não por respeito às pessoas e lugares, pelo menos para que o turismo não se torne insustentável e, consequentemente, inacessível – como costumava ser a não tantos anos atrás.

Eu sei que as sugestões que eu dei aqui podem parecer pequenas demais para resolver os problemas na indústria do turismo atual, mas na maioria dos casos isso é tudo que a gente pode fazer: a nossa parte. E se você fizer a sua, já está bom demais.