Em uma viagem de carro de 18.000 quilômetros, alguma coisa tem que dar muito certo!

(Se você perdeu a parte 1 e não faz ideia do que está acontecendo, comece por aqui!)

Ótimo, então não estávamos sozinhos. Tinha pelo menos mais uma pessoa no camping. Uma pessoa que parecia completamente deslocada, verdade, mas ainda assim, uma pessoa. Fui imediatamente conversar com a senhorinha de pantufas e roupão – uma irlandesa que tinha ido à Adelaide visitar a filha e agora fazia o caminho de volta à Perth.

Ela estava com o marido. Os dois viajavam muito de trailer e tinham todo tipo de equipamentos e acessórios para carro. Obrigatório, né? Viajando distâncias tão grandes e em lugares tão ermos, nunca se sabe quando a gente vai precisar!

Amém, era a nossa salvação!

Fui então até o tal marido ver se ele tinha os cabos para fazer a ligação da bateria, mas vejam só que coincidência: os cabos eram justamente a única coisa que ele não tinha! Tinha se esquecido! Puxa vida, que azar.

Mas sem problemas porque mais à frente, escondido no meio das árvores, havia outro trailer que antes tinha passado despercebido. Agora, com o dia clareando, eu podia ver que compartilhávamos o camping não só com os dois trailers, mas com outros dois carros também.

Então lá fui eu, na maior cara de pau, acordar o coitado do dono do trailer número 2 – outro casal de velhinhos (menos velhinhos que os do trailer número 1, mas ainda velhinhos), que também estava voltando de uma viagem para visitar os filhos. É uma tradição australiana: você se aposenta, compra um trailer e vai passar seus dias na estrada. Nada mal.

Mas esses dois velhinhos menos velhinhos estavam mais preparados: eles tinham os cabos para a bateria! Aliás, tinham uma bateria inteira, em uma malinha portátil. Acompanhada dos dois velhinhos homens, voltei correndo para o carro onde o Tom estava quase roendo os próprios dedos de nervoso. Conectamos os cabos à bateria falecida do Brody, giramos à chave (todas as luzinhas do painel se acenderam!) e… nada.

O carro não ligou.

A bateria era fraca demais.

Calma, calma. Não criemos pânico. “O carro claramente melhorou com essa mini recarga”, disse o senhor do trailer número 2. “Talvez ele agora consiga pegar no tranco! Um de vocês dois senta aí no banco do motorista que vamos empurrar.”

O Tom ficou e nós três fomos para trás do carro. Detalhe: o velhinho do trailer número 1 tinha um defeito na perna e usava uma bengala para andar. Ainda assim, lá estava ele, de mangas arregaçadas, pronto para ajudar. Que o universo abençoe essas pessoas maravilhosas que a gente encontra por aí!

Começamos a empurrar e, assim que o Brody ganhou um pouquinho de velocidade, o Tom deu a partida. O carro deu uns pulos, fez que foi… e ploft! Estrebuchou na poeira. Vamos tentar de novo! Empurramos o carro de volta para trás (lembre-se que estávamos em um “estacionamento” de camping – curto, de terra batida e cheio de pedras e buracos) e tentamos de novo, com forças redobradas.

Não adiantou. O Brody não queria pegar por nada nesse mundo.

“Ele precisa de velocidade”, diz o velhinho do trailer número 2. “Só nós três aqui empurrando não adianta. Eu tenho um cabo de guincho, podemos levar o carro até a estrada e eu puxo ele com meu trailer.”

Enquanto o Tom preparava o Brody e os velhinhos iam até o trailer, eu fui assaltada por uma certeza muito certa: nossa viagem ia acabar aqui. Se o carro não tinha pegado até agora, não ia pegar mais – simples assim. Essa era só mais uma tentativa desesperada, simplesmente pra poder dizer que tentamos de tudo.

E não tínhamos dinheiro o suficiente para acionar o seguro. Como os aborígenes, só nos restava largar o carro lá mesmo e arrumar um outro jeito de ir para… para onde? Continuar até Adelaide, pro AirBnb que já estava reservado? Ou voltar para Perth? Perth estava mais perto e tínhamos um amigo na cidade que poderia nos receber até a gente conseguir se organizar. Mas as passagens de avião de Adelaide de volta para casa, na Tasmânia, seriam muito mais baratas.

De qualquer forma, vamos precisar de uma alma muito (MUITO!) boa que nos dê carona, para um lado ou para o outro. Carona para nós dois e para as 1 milhão de coisas que estavam no carro: malas, eletrônicos, equipamento de camping, presentes comprados no caminho… Em outras palavras, tudo que a gente tinha acumulado em um ano de Austrália! Será que vamos ter que deixar as coisas para trás também?

O Tom ia ficar arrasado, ele era apaixonado por aquela lata velha que era o Brody.

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Que tipo de pessoa compra um Saab conversível pra fazer uma viagem de 18.000 km no outback australiano? Não sei, não fui eu que escolhi esse carro.

Eu também estava arrasada, mas o que mais me doía era ter que desistir da nossa  viagem. Sim, já tínhamos feito muito coisa, mas ainda faltavam 2 semanas! Eu queria ver as vinícolas da Austrália Meridional, descer pela Great Ocean Road, voltar à Melbourne e visitar nossos amigos.

A perspectiva de chegar em Hobart antes da hora e passar 15 dias no frio lamentando os lugares que eu não visitei e o dinheiro que perdemos (íamos vender o carro no fim da viagem) era devastadora. Eu me sentia derrotada.

Enquanto o Tom e o senhor do trailer número 2 se posicionavam na estrada para fazer nossa última tentativa, eu e as senhorinhas ficamos esperando no meio do camping. Não conseguíamos ver os carros por causa das árvores e as duas fofocavam como se aquela situação fosse super normal.

Talvez para elas fosse mesmo. Talvez, para elas, nós fôssemos só mais um caso de turistas despreparados que elas encontravam em muitos anos de estrada.

Ouvimos o trailer acelerando e o carro afogado tentando pegar. De repente, um jato de fumaça subiu acima das árvores, se misturando com a neblina da manhã. Era o escapamento que tinha funcionado ou o carro tinha explodido de vez?

O velhinho do 1o trailer, que estava na estrada olhando o drama todo, veio descendo de volta para o camping. “Acho que funcionou, mas não consegui ver direito…” Meu coração estava saindo pela boca. Minhas pernas pareciam gelatina e eu tinha medo de desmoronar ali mesmo se tentasse andar. Não brinque comigo, senhor velhinho, “se funcionou, cadê eles então?Porque não escuto nada?”

“Devem ter ido dar a volta. Vão entrar pelo outro lado do camping.”

E entraram mesmo. Lá longe, um carrinho verde seguindo o trailer branco, o cabo ainda ligando os dois. Estacionaram, desceram e começaram a soltar os veículos um do outro. Tinha funcionado e o Brody podia andar sozinho, ou não tinha funcionado e iam nos deixar aqui?

Forcei minhas pernas de geleia a ter um pouco mais de coragem e fui na direção deles.

Tive a impressão de ouvir o rádio funcionando no carro – sintonizado na Triple J, como sempre. Havia fumaça saindo do escapamento do carro e os dois estavam sorrindo. Sim, tinha funcionado! Não íamos ter que tacar fogo no nosso carro e largar ele no meio da estrada. Não íamos ter que desistir do resto da viagem e voltar pra Hobart mais cedo. Os velhinhos tinham salvado nossa vida!

Agradecemos mil vezes, nos despedimos dos nossos anjos e nos preparamos para partir – tínhamos outro dia longuíssimo pela frente e já estávamos atrasados. Uma recomendação final do velhinho número 1: “a bateria precisa carregar ao longo do dia, então não desliguem o carro por pelo menos 2 horas, senão ele não vai conseguir dar a partida de novo”.

E foi o que fizemos. Não desligamos o carro uma única vez até ele precisar de abastecer, horas mais tarde.

Tivemos mais um dia só de estrada: nenhuma parada turística, nenhuma cidade, nada pra ver. 8 horas direto entre um camping e outro; no caminho, muitos emus e grandes planícies vazias. Aliás, esses dois dias que passamos cruzando o sul da Austrália foram os mais despovoados de toda a nossa viagem. O Tom, acostumado com os aglomerados de cidades da Europa, já estava começando a entrar em pânico.

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De Perth a Yalata: os dois dias mais vazios da nossa viagem inteira. E onde o Brody foi estragar? Bem naquela estrelinha do meio! Freud explica.

Chegando a Yalata – que não é uma cidade, nem sequer uma vila: é só um posto no meio da estrada – tivemos nossa última noite de camping. E a pior de todas. Fez tanto frio que de manhã a barraca estava coberta de neve. Eu acordei com uma dor absurda no pulso (de dormir de mal jeito? De dirigir 5 horas por dia? De trabalhar à noite depois de dirigir 5 horas por dia? Da queimadura de água viva que eu ganhei 1 semana antes? Nunca saberemos…) que levou meses e muito anti-inflamatório e academia para passar.

Mas tudo bem. O importante é que o Brody estava bem. Que podíamos continuar nossa viagem.

E que agora eu não preciso acampar nunca mais!