Em uma viagem de carro de 18.000 quilômetros, alguma coisa tem que dar errado.

Depois de quatro semanas subindo pela costa leste australiana, de Melbourne a Cairns, nós demos adeus às praias infindáveis e nos dirigimos pro interior – o famoso outback. Mas além da terra vermelha, dos arbustos espinhentos e dos cangurus que cruzavam a estrada, o outback apresentava alguns “personagens” inusitados: viajantes sozinhos de bicicleta, cupinzeiros vestidos com roupas esfarrapadas (sim, é isso mesmo que você leu) e, o preferido do Tom, carros abandonados.

IMG20180619115555
É… esse aqui já viu dias melhores.

Montes deles. Quebrados, queimados, pichados. As janelas estilhaçadas, as rodas furadas. Às vezes só víamos a carcaça de uma lataria. Às vezes víamos um carrinho inteiro, que parecia em perfeito estado. Mas quem está largando esses carros assim, sem mais nem menos, no meio do mato? Pra quê isso?

Foi só quando chegamos à Darwin, no norte do país, que fomos encontrar uma explicação. Em uma visita ao Museum and Art Gallery of the Northern Territory, fomos recebidos na entrada uma exposição bem diferente: portas de carros velhos lindamente pintadas. Eram a obra de um artista aborígene chamado Michael Nelson Tjakamarra.

IMG20180623130655
As portas coloridas de Michael Nelson.

Em sua exposição inusitada, Michael explicava: os aborígenes têm o hábito de viajar grandes distâncias pelo deserto e para isso compram os carros mais baratos que conseguem encontrar. Quando os carros param de funcionar, são largados no meio da estrada porque vale mais à pena comprar um novo do que mandar o antigo para o conserto.

Ah, então era isso.

Mas não seria melhor fazer um bom seguro para, em caso de imprevistos, conseguir salvar seu carrinho querido?

Não, não seria.


Saímos de Perth cedo de manhã. Tínhamos um longo dia pela frente, um dos mais longos de toda a nossa viagem: umas 8 horas até Norseman e depois seguindo leste até… até quando a luz durasse. É de regra que, na Austrália, não se dirige à noite por causa dos bichos que, atraídos pelas luzes dos faróis, pulam na frente do carro. Mas nós já tínhamos quebrado essa regra algumas vezes, com muito cuidado, e hoje não seria exceção.

O dia em si foi muito agradável. Como de praxe, paramos algumas vezes para abastecer o carro e encher a cara de café – mas não para comer, isso fazíamos no carro mesmo para economizar tempo. Eu estava curtindo a paisagem, o clima finalmente estava fresco (é foda cruzar o norte da Austrália dirigindo, mesmo no inverno) e nós vimos camelos selvagens pela primeira vez. De modo geral, um dia muito bom.

Acho que comecei a ficar estressada quando começou a escurecer e não tínhamos nem ideia de onde passar a noite. O Tom, como sempre, queria continuar até onde déssemos conta e achar uma parada de beira de estrada qualquer, um camping aberto, simples e sem estrutura, só para dormir. E eu, também como sempre, queria uma roadhouse: um hotel na estrada com restaurante e posto de gasolina, onde podíamos acampar com um pouco mais de segurança e pelo menos tomar um banho.

Não era a primeira vez que nos encontrávamos nesse dilema. A única solução era continuar dirigindo, ver o que aparecia primeiro e então decidir. O Tom era quem costumava dirigir quando acontecia de estarmos na estrada de noite, mas, dessa vez, sobrou pra mim. Tínhamos o hábito de revesar no volante, 2 horas cada, e o turno dele acabou bem quando as primeiras estrelas apareciam no céu.

Íamos muito devagar, conversando para nos mantermos alertas, os dois de olho na estrada. Já passavam de sete da noite quando vimos uma placa indicando uma roadhouse próxima e resolvemos parar. Era “cedo”, mas já estávamos exaustos e, nessa parte tão vazia do país, não sabíamos quando encontraríamos outra.

Foi então que um canguru pulou na frente do carro. O primeiro e único em quase dois meses de estrada – e na única vez em que eu dirigi à noite.

Não sei se o bicho era pequeno ou grande, se era só um ou mais, se era cinza ou vermelho. Só sei que vi um canguru e pisei no freio o mais rápido que pude. Assustado com o barulho, ele imediatamente saltou para longe e sumiu no meio da noite. O carro estrebuchou e morreu com um solavanco violento.

Eu tremia tanto que não conseguia me mexer, mas pelo menos estávamos todos bem – eu, Tom, o Brody (é claro que o carro tem nome) e o canguru. A vantagem (ou desvantagem) dessas estradas ermas e vazias é que quase nunca passam outros carros, então você pode meter o pé no freio sem medo de ser feliz. Não tem ninguém atrás. Aliás, você pode até ficar uns bons 10 minutos estacionada no meio da pista, enquanto se acalma, que não faz a menor diferença.

Depois de muitos “Você está bem?”, Você viu aquilo?” e “Meu Deus, que susto!”, eu consegui me recompôr o suficiente pra fazer os 300 metros restantes até a roadhouse. Usamos os banheiros, demos uma volta na lojinha e resolvemos não passar a noite. 18 dólares por pessoa pra usar 3 metros quadrados de terra e tomar um banho? Não, obrigada.

Por sorte, a roadhouse tinha internet e conseguimos achar uma parada para descanso com espaço para camping a uns 2 quilômetros de distância. Sem banheiro, claro, mas de graça.  Você dirige agora, Tom. Eu nunca mais pego esse carro à noite!

Chegando lá, cansados, com frio e sem luz ou água, decidimos dispensar a barraca e dormir dentro do carro mesmo. Também foi a primeira vez que fizemos isso na viagem toda. Mas antes, o jantar. Encontramos um lugar seguro pro fogareiro e cozinhamos à luz do farol do carro, com a ajuda de lanternas. Grande erro.

Nós tivemos muitas noites ruins ao longo da viagem, então a princípio essa só me pareceu mais uma. Fazia muito frio, o banco do carro era extremamente desconfortável, eu estava sem banho. Acordamos no dia seguinte logo que o sol nasceu, doidos pra ir embora. Jogamos os sacos de dormir no porta malas, limpamos os vidros cobertos de gelo e… o carro não ligou.

Tentamos de novo.

O carro não ligou de novo.

Estava sem bateria.

Culpa nossa, de ter usado os faróis para cozinhar na noite anterior. Ficamos os dois irritadíssimos, inclusive um com o outro, mas fazer o que? Essas coisas acontecem. É pra isso que tínhamos contratado o seguro mais caro disponível – para emergências. Só tínhamos que ligar e pedir alguém para vir olhar. Ia demorar, atrasar nosso dia todo, mas enfim. Agora era ter paciência.

Só que não.

Nós de fato contratamos o seguro mais caro disponível e ele era ótimo – na Tasmânia, onde a gente morava. Na Austrália Ocidental, onde estávamos, o maravilhoso seguro só cobria 200 km de deslocamento a partir da cidade mais próxima. A nossa era Norseman, que estava a exatos 200 km de distância. Maravilha então! Deu certinho.

Não, diz a atendente. São 200 km para ir e 200 km para voltar. Então 400 km de deslocamento.

E quanto temos que pagar pelos quilômetros a mais?

São 3 dólares por quilômetro. Então uns 600 dólares ao todo.

600 dólares??? 600 dólares para um agente vir aqui e trocar a bateria?

Ah, não, 600 dólares é só o deslocamento. O serviço de diagnóstico e o conserto são cobrados a parte. Isso se for a bateria mesmo né? Talvez o problema seja outro. Aí pode ser que o agente tenha que voltar a Norseman para conseguir peças, ou talvez até a Perth. Não tem como saber mesmo.

E nós pagamos por esse deslocamento todo?

Sim.

Sem saber o custo final nem o que vai precisar ser feito?

Sim.

Com sorte uns 800 dólares?

Com MUITA sorte.

Era metade do preço do Brody. Nesse momento, eu e Tom entendemos porque os aborígenes largavam seus carros na estrada. É de fato muito mais barato comprar um carro novo do que consertar o antigo, mesmo com um bom seguro. Isso porque nosso problema era simples, imagina se algo acontece com o motor.

De qualquer forma, não tínhamos 800 dólares sobrando – não depois de tanta viagem e quando faltavam só 2 semanas para irmos embora do país. O Tom já tinha mandado tudo o que tinha pra Inglaterra; eu estava raspando minha conta pra pagar gasolina e comida. Nossa única opção era pedir ajuda.

E se um de nós andar até a roadhouse da noite anterior? Talvez os funcionários possam fazer alguma coisa. Ou então vamos parar na beira da estrada e acenar para os carros – alguém tem que passar eventualmente.

Com a perspectiva de passar o dia no meio do nada, esperando uma ajuda que talvez não viesse, eu comecei a ficar realmente com medo. Foi aí que eu vi uma pessoa andando pelo camping.

E não uma pessoa qualquer: uma senhora, gordinha, de roupão e pantufas, tomando chá.

Hein? Devo estar alucinando.

O que essa senhorinha, que mais parece minha avó, está fazendo aqui sozinha no meio da terra e do mato?

Mas não, eu não estava alucinando. E não, ela não estava sozinha. Mais à frente, escondido entre as árvores, estava um trailer. Esses trailers enormes que os australianos usam pra sair acampando pelo país. Esses trailers super equipados, com cozinha, máquina de levar, cama, mesa e banho. Esses trailers que, com certeza, têm equipamentos de emergência – como os cabos pra dar um tranco na nossa bateria.

Viva o trailer!

Estamos salvos.