O que fazer no estado menos explorado da Austrália.

A primeira coisa que eu ouvi quando falei para minha família que estava de mudança para a Tasmânia foi: “Uai, Tasmânia? Onde fica isso?” A reação dos amigos não foi muito diferente. Queriam saber por que eu tinha desistido da Austrália e como eu ia conseguir visto prum lugar desses.

Vamos então começar o post esclarecendo um pequeno mal entendido: Tasmânia é Austrália. Sim! A Tasmânia não é um país perdido no meio do Pacífico, é um estado australiano. É uma ilha, é pequena, é pouco habitada. Mas é Austrália.

Se você é da minha geração, eu imagino que a primeira (e talvez única) referência que você tenha da Tasmânia seja o Tas, aquele monstrinho bagunceiro do desenho animado. Estou certa? Bem, vou te dizer que a Tasmânia tem um pouco mais a oferecer do que animais estranhos, e o resto do mundo já percebeu isso.

Nos últimos tempos, a Tasmânia vem recebendo não só mais imigrantes, mas também uma grande quantidade de turistas. E não é por menos: florestas intocadas, praias paradisíacas, vida selvagem acessível, festivais de música e comida, museus, vinícolas… A Tasmânia tem tudo para agradar até os viajantes mais exigentes.

Com tanta opção, fica até difícil escolher, não é mesmo? Neste post, você vai encontrar uma sugestão de roteirinho de duas semanas para conhecer melhor esse pedacinho de terra tão diferente da Austrália continental. Mas, antes de começar, algumas dicas para facilitar sua vida:

  • Eu montei um itinerário em circuito de propósito – assim você pode começar de onde quiser e voltar pro mesmo ponto. Isso não significa que não haja caminhos alternativos mais interessantes ou talvez até mais rápidos entre os destinos que eu estou sugerindo. Qualquer coisa, Google Maps tá aí pra isso.

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    Este é o trajeto do qual vamos falar neste post.
  • As pessoas têm mania de achar que a Austrália é quente o tempo todo. Talvez isso até seja verdade para as cidades no norte do país, como Darwin e Cairns, mas isso definitivamente não se aplica à Tasmânia. Sim, nós tivemos uns dias bem quentes este verão, mas eles foram a exceção da regra: na maior parta do ano, a Tasmânia é fria e/ou chuvosa. Portanto, planeje bem o momento da sua viagem e faça sua mala de acordo.
  • Infelizmente, as opções de transporte na Tasmânia são uma desgraça. Mesmo dentro das cidades maiores, não há trem/metro e os ônibus são limitadíssimos. A não ser que você pretenda ficar em um lugar só, a melhor (e talvez única!) opção é alugar um carro ou trailer.
  • A Tasmânia está entrando em uma onda de turismo para a qual ainda não está preparada. Ao mesmo tempo, grande parte do estado é composta de parques nacionais que têm acesso restrito dependendo a época do ano. Não deixe de pesquisar os horários de abertura e a capacidade de cada parque (e de fazer as reservas com antecedência, caso necessário). Se possível, evite viajar nos feriados e férias escolares – fica tudo lotado!
  • Para informações mais atualizadas ou mais detalhadas, visite www.parks.tas.gov.au (em inglês).

Agora sim, vamos à viagem!

Hobart – 3 dias

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MONA, o museu de arte moderna mais importante da Austrália! (fonte: flickr.com/photos/britsinvade)

Começamos pela capital, Hobart. Com pouco mais de 200.000 habitantes, ela é a maior cidade da Tasmânia – e é muito lindinha! A água azul, as montanhas verdes, as casinhas coloridas… em um dia de sol, Hobart é dos lugares mais agradáveis que eu conheço.

Além das suas próprias atrações, Hobart também funciona como base para visitar alguns lugares interessantes nos arredores. Algumas sugestões do que fazer enquanto estiver na cidade: visitar o MONA, Museum of Old and New Art; fazer umas comprinhas no mercado de Salamanca (só aos sábados, fique de olho); se deliciar com os muitos (e ótimos!) restaurantes e bares; subir no Monte Wellington; ver os prédios históricos no centro da cidade e em Battery Point; passar um dia em Brunny Island (ou em Richmond); alimentar os cangurus no santuário Bonarong.

Isso sem contar as praias lindas – e frequentemente vazias – e as muitas vinícolas espalhadas a poucos minutos de Hobart. É, se dependesse de mim eu te falava pra passar as duas semanas do roteiro aqui mesmo (e depois tirar duas semanas sei lá de onde pra fazer o resto), mas estamos com pressa. Vamos continuar!

Port Artur – 1 dia

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As ruínas da antiga penitenciária de Port Arthur. (fonte: flickr.com/photos/floydwilde)

De Hobart, é hora de pegar o carro e cair na estrada. Mas nossa primeira parada, Port Arthur, fica bem pertinho: apenas 100 km da capital, o que dá mais ou menos 1:30h. Fica aqui a opção de fazer Port Arthur como uma excursão de 1 dia a partir de Hobart.

Antiga penitenciária e patrimônio mundial da Unesco, a pequena Port Arthur é um dos maiores testemunhos do passado colonial australiano. A entrada no centro histórico custa AUD 39,00 e inclui um tour guiado pelos prédios antigos, um pequeno cruzeiro pela baía e acesso a muitos jardins e trilhas.

Até onde eu saiba, não existe acomodação dentro do centro histórico, mas há muitas opções nos arredores.

Costa Leste – 3 dias

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Wineglass Bay, uma das praias mais famosas da Tasmânia. E, pasmem, essa foto é minha Sim, eu tirei uma foto! =D

De Port Arthur, vamos subir pela costa leste da Tasmânia, que abriga suas praias mais bonitas (e mais famosas). Nossa primeira parada é Wineglass Bay, que ganhou este nome não só por seu formato de taça bojuda, mas também pela cor vermelha que tingia suas águas na época de caça às baleias. Dependendo do mês, as baleias podem ser vistas até hoje – bem vivas, muito obrigada.

Wineglass Bay faz parte do Parque Nacional Freycinet (entrada AUD 12,00 por pessoa) e só pode ser acessada a pé. Deixe o carro no estacionamento e, se possível, faça primeiro a trilha para o mirante para ter uma vista completa da baía.  De lá, são mais 30 minutos até a praia em si. Para quem estiver com tempo (e dinheiro), o parque também oferece opções de passeio de caiaque, barco e até avião.

É importante lembrar que a região de Wineglass Bay não é nada barata. Traga sua própria comida, água e equipamento para trilha/acampamento, ou se prepare para os preços inflacionados.

Depois de uma noite em Freycinet, continuamos pela lindíssima costa leste até nossa segunda parada: Bay of Fires, 115 km ao norte, na região de Binalong Bay.  Se não fosse pelo ventinho gelado (e pela água mais gelada ainda), Bay of Fires poderia se passar por uma praia do Caribe.  A água muito azul, a areia muito fina e branca, as pedras alaranjadas… e o melhor: ótimas áreas de camping, de graça! É só ir chegando e ficar à vontade.

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Acha que chegou no Caribe? Não, é só Austrália mesmo.

Como o próprio nome diz, Bay of Fires é uma baía, não uma praia única. Dá pra passar um bom tempo aqui explorando! E para quem estiver com mais tempo, a costa leste da Tasmânia tem muitas outras paradas interessantes. Algumas sugestões:

  • Maria Island (AUD 12,00 de entrada no parque + AUD 50,00 de balsa, ida e volta) – Ótimo destino para quem gosta de trekking, ciclismo e vida selvagem. Partidas de Triabunna.
  • Swansea – Uma cidadezinha fofa a menos de uma hora de Wineglass Bay. Como tem boa estrutura turística, Swansea é um bom lugar para passar a noite, ou fazer uma parada para almoço.
  • Bicheno – Praias lindas e um clima menos turístico do que os outros lugares que eu mencionei. Os preços são mais acessíveis também!

Launceston – 1 dia

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Os campos de lavanda de Bridestowe, a 50 km de Launceston. (fonte: flickr.com/photos/vijay_chennupati)

Tá bom, eu vou ser sincera. Eu sugeri só um dia em Launceston porque eu mesma só passei um dia lá e pra mim foi o suficiente. Mas ela vale sim sua visita!

Com pouco menos de 100.000 habitantes, Launceston é a segunda maior cidade da Tasmânia. Assim como Hobart, ela tem uma arquitetura linda, ótimos parques e bons restaurantes. E as famílias com crianças não devem deixar de visitar Cataract Gorge, uma reserva com piscina, restaurante, teleférico e vistas lindas do rio Esk.

Ah, e só mais um detalhe: para ver os lindíssimos campos de lavanda aí da foto tem que ir no verão (dezembro e janeiro), antes da colheita. Mais informações aqui.

Cradle Mountain – 2 dias

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A famosa montanha que dá nome ao parque. (fonte: flickr.com/photos/steph_koo)

Depois de um dia na cidade, é hora de ir para o mato. Nosso próximo destino fica 150 km a leste de Launceston e é o parque nacional mais visitado da Tasmânia: o Cradle Mountain-Lake St. Clair National Park.

Além das montanhas rochosas, florestas, campos, lagos, rios e ravinas, o parque é um dos melhores lugares para se observar a vida selvagem na Tasmânia – vombates e wallabies (aqueles cangurus pequenos) são praticamente garantidos, e com um pouco de sorte você consegue um demônio da tasmânia ou talvez até um ornitorrinco!

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Você já viu alguma coisa mais fofinha que um vombate? Claro que não, porque não existe! (fonte: flickr.com/photos/thegirlsny)

O parque tem duas grandes entradas: uma ao norte, perto de Sheffield, e outra mais ao sul, perto de Derwent Bridge. No nosso roteiro, nós acabamos de chegar na entrada norte; mas vamos passar na porta da entrada sul também, daqui a alguns dias – então você escolhe qual delas quer fazer (ou se quer fazer as duas).

De qualquer forma, ambas possuem bons centros de visitantes, com pequenos cafés, loja de souvenires e banheiros. Ambas cobram a mesma taxa de entrada de AUD 16,50 por pessoa. E ambas também oferecem paisagens e trilhas incríveis, estas últimas com vários níveis de duração e dificuldade. Mas fica a dica: é na entrada norte que se tem o acesso para Cradle Mountain, essa pedrona maravilhosa da foto ali em cima.

É também da entrada norte que sai a overland track, uma trilha de mais de 60 km até a entrada sul do parque. Para fazê-la é necessário marcar com antecedência e obter licenças especiais. Mais informações aqui (em inglês).

O parque oferece diferentes tipos de acomodação, desde acampamento até hotéis mais chiques (que tal pagar $800 a diária?) e os restaurantes são poucos – venha preparado para gastar ou traga suas próprias provisões.

E só pra terminar: a entrada norte do parque é muito mais popular, e por isso mesmo possui um limite diário de veículos. Isso não significa que você não possa entrar. Largue o carro no centro de visitantes e pegue um dos ônibus do próprio parque! O preço está incluído na entrada e ele pode te deixar (e buscar) em vários pontos, inclusive no início de algumas trilhas.

Stanley – 1 dia

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“The nut”, a montanha onipresente de Stanley. (fonte: flickr.com/photos/136315829@N03)

Nossa viagem agora nos tira um pouco do roteiro turístico tradicional rumo ao extremo norte da Tasmânia e à pequena cidade de Stanley. Ao contrário da costa leste, com suas praias de cartão postal, o norte e oeste da Tasmânia têm um litoral mais rústico – mar escuro, areia marrom, clima instável… Mas o “drama” da paisagem é parte da graça. E Stanley é um bom exemplo disso.

Com apenas 500 habitantes, ela surpreende na quantidade de atrativos. Não deixe de fazer a “Heritage Walk”, uma caminhada turística pelos principais pontos históricos da cidade (se guie pelo seu telefone ou pegue um mapa no centro de informações); nem de subir no “the nut” – uma formação rochosa vulcânica que assoma sobre a cidadezinha.

A escalada íngreme até o topo leva mais ou menos 30 min, mas a vista de 360° do mar ao redor compensa o esforço. Alternativamente, você pode subir de teleférico (AUD 10 por pessoa, só ida), mas atenção: o funcionamento do teleférico está sujeito às condições climáticas e ele fica fechado durante o inverno.

Por fim, para quem estiver com mais tempo, entre setembro e junho Stanley também oferece um excelente cruzeiro para ver os lobos-marinhos-australianos.

Costa Leste – 2 dias

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A estrada para Corinna. (fonte: flickr.com/photos/136315829@N03)

De Stanley, é hora de descer para Strahan, 250 km ao sul. Mas vamos D E V A G A R. Tire um dia inteiro, se possível, porque as estradas nessa região da Tasmânia são absolutamente maravilhosas. Duas paradas que valem à pena são Marrawah, com suas praias e colinas verdes, e Corinna, cercada de algumas das florestas mais antigas do mundo. Sério, você quase espera ver dinossauros saindo lá do meio! É muito legal.

Strahan, nosso destino final nesse trecho da viagem, é uma cidadezinha extremamente turística – então acomodação e restaurante não serão problema aqui. Problema vai ser encaixar tudo que tem pra fazer em um dia só: a enorme Ocean Beach, onde os locais apostam corrida de carro; passeios de buggy pelas dunas; cruzeiros pelo rio Gordon. Sem contar o centro da cidade, com suas lojinhas apinhadas e lindas vistas de baía de Macquarie.

Não é à toa que Strahan atrai tanta gente – portanto, não deixe de marcar seu hotel com antecedência!

Lyell Highway – 1 dia

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As Cataratas Nelson, uma das muitas paradas interessantes na A10 – a estrada que liga Queenstown a Hobart (fonte: flickr.com/photos/nadvibe)

Estamos chegando ao final do nosso tour, só nos resta voltar para Hobart – mas não sem aproveitar a estrada. Mesmo porque essa estrada, a chamada Lyell Highway, é minha parte preferida deste roteiro inteiro. Das antigas minas em Queenstown às florestas verdes da Crotty Conservation Area, do plateau montanhoso em Derwent Bridge às fazendinhas adoráveis ao redor de Ouse… Tem pra todos os gostos.

É dessa estrada também que se chega à entrada sul do Cradle Mountain-Lake St. Claire National Park. Vai ter uma saidinha bem sinalizada a mais ou menos 2 horas de Strahan, não tem como errar! Mesmo se você não tem interesse em entrar no parque ou fazer as trilhas desse lado, vale à pena dar um pulo nem que seja só para espiar o Lago St. Claire.

As outras atrações da estrada, como cachoeiras, lagos e monumentos históricos, são todos muito bem sinalizados. Então vá com calma, pare com frequência, e curta a jornada.

Ah, só mais um detalhe! No inverno, com a neve, é possível que partes da Lyell Highway fiquem fechadas. Nesse caso, o jeito é refazer o mesmo caminho da vinda para voltar a Hobart (se é que você está querendo voltar para Hobart).

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Pronto, fechamos o círculo. Muita coisa legal para se fazer na Tasmânia, né?

Eu sei, eu sei. Quem nesse mundo tem tempo pra passar 2 semanas em único estado da Austrália? Só a gente que já morou lá mesmo. Mas, como sempre, o roteiro é só uma sugestão! Corte o que quiser, estenda as partes que te interessam, faça uma viagem que seja sua.

E, se você tiver sugestões de mais lugares pra visitar, pode colocar nos comentários! Tenho certeza que deixei muito lugar bom de fora. Além do mais, considerando o quanto a Tasmânia ainda é despovoada e inexplorada, tem destino novo surgindo a cada dia. O jeito é a gente esperar pra ver – e voltar quando tiver a oportunidade.