O eterno conflito entre a vontade de ir e a vontade de ficar.

Já tem uns bons 10 dias que meus gatos me seguem pela casa o dia inteiro. Eles miam na porta do banheiro quando vou tomar banho, se empilham no meu colo quando me sento no sofá, me cutucam com as patinhas cheias de unhas quando estou trabalhando.

Tenho duas teorias de porquê eles estão mais carentes que o normal. A primeira é o frio – as últimas semanas têm sido bem geladas e eu sempre ando enrolada num cobertor, coisa que as duas bolas de pelo adoram. A segunda teoria (e eu acho que essa é a verdadeira) é que eles sentem que tem algo diferente. Eles já me conhecem, sabem que eu estou me preparando para mais uma viagem, e sabem que desta vez é diferente.

Jo
A gente vai também?

O máximo de tempo que eu já passei viajando foram oito meses. Mas sem querer. Eu me planejo para dois ou três meses, empolgo, vou cancelando passagem, vou mudando de país, e quando vou ver… opa, lá se foram oito meses. Esse é meu estilo: improvisação. É fácil ir ficando quando a gente está distraída, se divertindo.

Mas não dessa vez.

Explico: em fevereiro deste ano deu a louca no meu namorado. Ele decidiu que estava cansado da Inglaterra e que queria passar uns tempos em outro país. Sugeriu a Austrália. Eu que sou eu, aceitei na hora. Aliás, acho que ele escolheu a Austrália por minha causa – a terra dos cangurus está no topo da minha lista, não da dele.

Mas não importa, o que importa é que concordamos e agora estamos indo.

A minha pergunta é: COMO?

Para vocês, pessoas queridas e corajosas que foram embora largando tudo que tinham e escolheram se mudar para outro país por uns tempos ou, mais difícil ainda, para sempre, eu pergunto: COMO?

Uma coisa é fazer uma mochilinha, marcar três dias de hostel e cair no mundo. Outra completamente diferente é empacotar uma mudança, alugar um apartamento e ir fazer a vida em outro país. Eu viajo sozinha a dez anos, mas nada  me preparou pra isso.

E é isso que meus gatinhos estão sentindo. Eles sentem meu medo. Não o medo tradicional que antecede qualquer aventura, mas o medo de quem acha que deu um passo maior do que as pernas e agora não sabe o que fazer – mas também não quer dar pra trás. Nem é medo mais, é pânico. Estou em pânico.

Quando o pânico fica demais, eu me concentro nos prós. Um ano morando na Austrália com o namorado. Passar mais de três meses seguidos com o Tom já seria mais que o suficiente como motivação – mas na Austrália ainda por cima! Estou sonhando com as praias, os mergulhos, as paisagens, a vida selvagem… Fico imaginando quem serão nossos amigos, como será nosso apartamento, onde irei trabalhar.

Se parasse por aí, estaria tudo ótimo.

Mas e os contras? Os pobres dos gatos, que eu amo mais que tudo, já tão aqui sofrendo comigo e eu vou largar eles pra trás – nem posso me explicar ou ligar no skype de vez em quando. Também não posso me explicar ou ligar pro mais novo membro da minha família, minha sobrinha de quatro meses. Vou perder um ano da vida dela, justo quando ela é bebê fofinho! Quando eu voltar ela vai estar andando, falando e sequer vai saber quem eu sou.

Os amigos e a família já estão ficando acostumados com as idas e vindas, mas isso não significa que seja mais fácil pra ninguém. Ainda mais quando se perde eventos importantes – casamentos, formaturas, encontros de família. E a verdade é que a gente nunca mantém contato tanto quanto promete. As ligações vão ficando espaçadas, as mensagens vão ficando mais raras, até as fotos vão parando com o tempo… e de repente você não tem ideia do que está acontecendo na vida das pessoas.

Como se isso tudo não fosse o suficiente, agora você está num país estranho. Pode ser um país ótimo, mas não é o seu e nunca vai ser. Não é sua língua, seu clima, sua comida, sua cultura. É tudo diferente e você tem que se adaptar. Às vezes damos sorte e caímos no lugar certo – tem países em que a gente se sente quase tão em casa quanto no nosso – , mas e se não for o caso? E se você quebrar a cara e odiar tudo?

É sempre um risco, como em qualquer outra coisa na vida.

E também como em qualquer outra coisa na vida, não dá pra ter tudo. Temos que fazer escolhas. Temos que escolher o que vamos estudar (e se vamos estudar!), com o que trabalhar, com quem nos relacionar. Escolhemos onde morar, para onde viajar, o que assistir, ler, comer. Se der errado, ou se for ruim, podemos mudar de ideia e voltar atrás, mas não indefinidamente.

Temos que fazer escolhas, todos os dias, o tempo todo. E para mim, que tenho dificuldade até de fazer pedido em restaurante, não é muito fácil aceitar isso. Eu queria sim ter tudo: o namorado gringo e a família brasileira, a Austrália e Minas Gerais, os amigos antigos e os novos, os gatinhos grudentos e os cangurus.

Acho que é o conflito de todo mundo que vai embora, mas não tem jeito mesmo. E entre ficar aqui e ir viver mais uma grande aventura, vocês sabem muito bem o que eu escolho.

E você, escolheria o que?