Como viajar o mundo deixa a gente com padrões altos demais (e como isso não precisa ser uma coisa ruim).

Estou na Colômbia. Vim para passar um mês entre as ilhas de San Andrés e Providência, ao norte do país (ao lado da Nicarágua, pra falar a verdade), bem no mar do caribe. Minha ideia era relaxar, pegar uma praia, ler muitos livros deitada na rede, fazer uns mergulhos legais e trabalhar um pouquinho só pra não perder o ritmo.

Meu plano deu completamente errado quando cheguei a San Andrés e percebi que a ilha caótica e lotada não é lugar para relaxar, nem para fazer mergulhos legais, sequer para trabalhar (quem consegue fazer alguma coisa com esse wi-fi inexistente?). Aguentei enquanto pude – o que não foi muito, três dias – mas não resisti e acabei pulando no catamarã que me trouxe a Providência bem mais cedo do que esperava. E agora aqui estou.

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Uma foto bem fidedigna de San Andrés. Não é exatamente o que eu esperava… (flickr.com/photos/ratha/)

Providência por sua vez é uma ilhazinha minúscula que, apesar de pertencer à Colômbia, de Colômbia mesmo tem muito pouco. Ela sim, ao contrário de San Andrés, é caribenha – seja na língua (o inglês creole, impossível de entender), na cultura, na história (com a colonização inglesa e holandesa) ou no clichê das praias paradisíacas.

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Calmaria na praia South West, em Providência.

Enfim, um lugar muito menor e mais tranquilo que San Andrés, como eu queria. Dá sim pra relaxar, pegar uma praia, ler muitos livros deitada na rede, fazer uns mergulhos legais e trabalhar um pouquinho – apesar da pouca infraestrutura e do difícil deslocamento.

E se o deslocamento é difícil, que melhor maneira então de conhecer a ilha do que fazendo um passeio de barco? Ainda mais para mim, que adoro barcos! Lá fui eu pegar um desses passeios bem de turista que te levam a várias praias, com direito a um guia falando no seu ouvido o tempo inteiro e um almoço pré-arranjado (“tem outras opções aí se você quiser olhar, mas já vou adiantando que este aqui é o melhor”). Eu, um casal de americanos e uma família enorme de colombianos – uma daquelas famílias barulhentas e que atrasa o passeio inteiro. Programa bem de turista mesmo.

Seguindo o roteiro clássico desses programas, fizemos uma parada pra snorkelling em uma ilha minúscula que fica a nordeste de Providência, chamada Cayo Cangrejo. É uma ilhazinha filha da puta de bonita, com uma vista espetacular dos recifes (de acordo com o guia, a 3a maior barreira de corais do mundo) e do mar colorido em volta. Não só isso, mas a visibilidade dentro d´água é perfeita e tartarugas verdes vêm aos montes se alimentar aqui.

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Vista do mirante em Cayo Cangrejo.
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E as águas claras cheias de tartarugas.

Então depois de fazer a pequena subida até o mirante (até tirei fotos, vejam só!) e nadar com as tartarugas, eu me estiquei no deck de madeira e, com o vento no rosto e aquele mar maravilhoso na minha frente, eu pensei:

“Já vi lugares melhores”.

Sim, foi isso que eu pensei: “tá, é bonito – muito bonito! – mas não é uma Tailândia, ou uma Filipinas“.

E apesar de isso ser verdade, a minha falta de apreciação espontânea pela ilhazinha me incomodou muito. Na hora me lembrei de um amigo holandês que, em plena Antígua, um dos meus lugares preferidos no mundo, falou que não ia ficar muito porque estava cansado de ver cidadezinhas coloniais – “são todas iguais”. Esse amigo viaja muito mais que eu e ele descreveu essa sensação com a palavra jaded.

Jaded. Adj. Do inglês: cansado, entediado, sem entusiasmo, tipicamente depois de ter experimentado alguma coisa em excesso.

Ele queria dizer que, de tanto ver e experimentar coisas muitas vezes parecidas – dezenas de templos budistas, dezenas de praias bonitas, dezenas de cidadezinhas coloniais – nós vamos nos acostumando com elas. E aí, quando chegamos em um novo templo budista, em uma nova praia bonita, em uma nova cidadezinha colonial, eles já não impressionam. É só mais um lugar de uma lista enorme, na qual o número 1 dificilmente vai ser superado.

Entendo o ponto de vista dele, mas não concordo completamente. Eu não sou indiferente ou insensível a algo só porque já vi outros melhores. Eu reconheço que Cayo Cangrejo é lindíssima, e qualquer um que tiver a oportunidade (e a vontade) deve sim visitá-la.

Então me vieram a cabeça as palavras de um outro amigo, também holandês (esses holandeses estão em todas). Na ocasião estávamos nas Galápagos, e depois de ter visto tudo que eu tinha direito e mais um pouco – tubarões, arraias, pelicanos, iguanas, tartarugas gigantes, leões marinhos – eu comentei que queria ver golfinhos de novo.

“De novo?” ele respondeu. “Já viu uma vez e agora quer ver de novo? Você é mimada demais!”

Pronto, essa palavra é melhor. Mimada. Tem que ser uma pessoa muito mimada mesmo pra chegar num lugar como o das fotos ali em cima e pensar “já vi melhores”. Ainda bem que, ao contrário do holandês entediado, eu ainda não cheguei ao ponto de desistir de uma cidade inteira só porque ela se parece com outras que já vi antes. (Em defesa do Jasper, acho que ele ficou uns bons 4 dias em Antígua. Mas normalmente ele viaja às pressas sim, um estabanado).

Afinal, esse não é justamente um dos principais motivos para se viajar: ver coisas novas? Ou, mais importante ainda, ver as coisas por si mesmo? Não importa que essa não seja a praia mais bonita – ou a cidade mais interessante, ou o templo mais inspirador. Não importa que você já tenha visto mil praias, ou mil cidades, ou mil templos. Todo lugar tem algo único a oferecer, nem que seja só uma quebrada de cara pra te ensinar uma lição – e te dar material pro blog.

E se alguns de nós têm a oportunidade de viajar tanto e ver tanta coisa maravilhosa ao ponto de ficar entediado, bem… Só posso dizer uma coisa: nós temos muita sorte. Temos muita sorte mesmo.