Como eu concilio trabalho e viagem. Mais ou menos.

Quando eu percebi que não ia mais parar de viajar, tive que arrumar um jeito de ganhar dinheiro na estrada. Para uma professora de inglês que já tinha trabalhado com tradução, a resposta era óbvia. E foi assim que eu virei uma nômade digital.

De acordo com a Wikipedia,

Nômade digital (…) é um indivíduo que aproveita a tecnologia para realizar as tarefas de sua profissão de maneira remota e, ao não depender de uma base fixa para trabalhar, conduz seu estilo de vida de uma maneira nômade.

Ou seja: eu viajo com meu computador nas costas e vou traduzindo ao longo do caminho. Consegui meu primeiro trabalho quando estava em Mendoza, na Argentina, há mais ou menos um ano. Desde então, tenho fases muitos boas e fases muito ruins; estou longe de me estabelecer, mas também estou longe de desistir. Acho que a montanha russa faz parte da vida de quem trabalha pra si mesmo.

Pois bem. Uma fase muito boa que tive foi meu primeiro mês na América Central. Eu peguei um trabalho enorme de revisão com um cliente particular, e fechei um contrato com uma editora que previa a tradução de um livro pequeno a cada três semanas.

Maravilha! Não vou ficar rica, mas dá pra segurar. A estória de hoje começa no meu primeiro dia de freelancer ocupada tentando conciliar dois projetos ao mesmo tempo. Nunca tinha me acontecido antes.

Eu tinha acabado de chegar em Antígua, na Guatemala, onde eu pretendia passar pelo menos uma semana. Uma semana, na vida de um mochileiro, é tempo demais para ficar num lugar só. Mas eu não só tinha que trabalhar como também já tinha me apaixonado por Antígua. Pra melhorar, meu hostel (Three Monkeys, anota aí!) era maravilhoso. Mesinhas na varanda, com tomadas bem ao alcance e um café à vontade. Ah, e um gatinho peludo enroscado no colo. O home office perfeito.

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Meu assistente particular.

Chegando em Antígua depois de uma noite infernal passada em claro, eu só queria tomar um banho e dormir. E foi o que fiz. Devia ser umas 9 quando me enrolei na cama e observei as outras meninas saírem pra aproveitar o dia. Antígua tem um clima meio maluco: faz calor, faz frio, tem névoa, tem chuva, tem erupções vulcânicas, canivetes caem do céu – tudo num espaço de três horas. Quando acordei ao meio dia estava caindo um dilúvio torrencial.

Mas nem dilúvios torrenciais me impedem de comer.

Saí assim mesmo e me instalei em restaurantezinho simpático que uma amiga tinha indicado, acompanhada de um livro. Depois do almoço, o tempo abriu e consegui ver a cidade melhor: o centro histórico, os mercados, as ruazinhas de paralelepípedo com as casinhas coloniais.

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Uma igrejinha no centro histórico…
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… o enorme e caótico mercado da cidade…
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… e as casinhas coloridas com o famoso arco de Santa Catalina.

Antigua é um chuchu e eu podia ter passado o dia inteiro simplesmente caminhando à toa. Mas eu tinha que trabalhar. Passei numa mercearia pra comprar o jantar, voltei para o hostel e me instalei em uma mesinha estratégica. Agora eu não estava mochilando pela Guatemala, eu estava no escritório.

Fones nos ouvidos – com um Chopin bem calmo, pra não distrair – e olhos na tela, a tarde se desenrolou enquanto outros viajantes iam e vinham; mas eu mal percebi. Quando estou concentrada, fico horas e horas sentada trabalhando. Obsessiva como sou, eu tinha anotado certinho quantas páginas de cada projeto eu tinha que fazer por dia pra entregar as duas traduções no prazo. Cumpri minhas tarefas mas, aproveitando a empolgação do momento, eu resolvi fazer a mais.

Afinal, e se acontece algum imprevisto e eu não consigo entregar os projetos à tempo? E se eu pego ainda outro trabalho? E se o cliente adiantar o prazo? Sim, é sempre bom estar um pouquinho à frente.

O problema desses dias em que a gente se deixa se levar pelo trabalho é que perdemos um pouco o propósito. Ou pelo menos eu. De que adianta ter um negócio que me permite trabalhar de onde eu quiser, se não vou sequer olhar em volta? A ideia é VIAJAR e TRABALHAR, não só um, nem só o outro.

Quando percebi, já era noite. A aula de ioga que eu tinha planejado fazer já devia ter acabado há muito tempo. Eu também tinha perdido o horário de usar a cozinha. Um grupo enorme de pessoas passou por mim, bebidas na mão, rindo e conversando animadamente, e desapareceu pelo portão da frente.

É mesmo! Hoje é sábado ainda por cima!

Bom, acho que já deu. Com a tarde inteira – e provavelmente a noite – perdida, os pulsos e costas doendo, só me restava um banho quente e cama – três horas de cochilo de manhã não tinham compensado por uma noite inteira em claro e eu estava exausta. Mas antes, que tal uma cervejinha pra relaxar? Eu já tinha perdido o jantar mesmo, pelo menos isso eu merecia.

Por sorte, o próprio hostel tinha um barzinho nos fundos, então nem precisei sair. E para minha surpresa, alguns gatos pingados tinham ficado pra trás. Fiz amizade com o australiano do bar e com a namorada dele, uma moça guatemalteca. Mais tarde, fui descobrir que os dois são os donos do hostel.

Também conheci dois ingleses, o Neal e o Paul. O que era pra ser uma cervejinha virou duas, que depois viraram três. Um americano enorme (me desculpem o clichê, mas ele era enorme mesmo!) pagou uma rodada de tequila pra todo mundo, e o australiano me ofereceu Quetzalteca, uma aguardente  típica da Guatemala – horrorosa de ruim, por sinal.

Não sei que horas eram quando os ingleses finalmente me convenceram a ir pra balada com eles. Peguei um suéter (Antígua faz frio à noite, estou avisando) e lá fomos. A pé mesmo, porque a cidade é pequena e andando em bando não tem perigo. Fomos parar num lugar chamado Lucky Rabbit, uma boate enorme que estava cuspindo gente. Pelo menos a entrada era de graça.

Mais cervejas, muita dança… Uma dica para as meninas: no Lucky Rabbit, você ganha sete shots de tequila em troca do seu sutiã! Eu não podia me dar ao luxo de ficar sem sutiã – nem de beber mais – então não entrei na brincadeira, mas jurei que se voltasse lá ia usar uma roupa mais apropriada e levar um sutiã baratinho do mercado.

Fomos embora já de madrugada e os meninos ainda queriam emendar em uma famosa festa na piscina que ninguém sabia onde ficava – eles iam pular num tuk tuk, pedir pro motorista achar o lugar e rezar pra que não fosse longe demais.

Sinto muito, meninos, mas essa eu vou passar. Vocês salvaram minha noite e me trouxeram de volta para minha aventura. Mas eu preciso mesmo é de banho e cama, porque amanhã é mais um dia no escritório.