Quando você fica muito tempo na estrada, sempre chega o momento do “já deu, agora quero ir pra casa”.

Era início de abril e eu estava em Bohol, nas Filipinas. Minha viagem pela Ásia, que tinha começado em novembro e era pra ter terminado em janeiro, já tinha passado muito do prazo: quatro meses e meio, oito países, incontáveis quilômetros, nove quilos de mochila nas costas. E eu ainda tinha um mês e meio pela frente.

A notícia que corria nas Filipinas era de que um furacão de escala 4 estava se aproximando – o furacão Maia. Enquanto os locais não davam a mínima (“não vai ser nada, você vai ver”), alguns viajantes se apavoravam com a perspectiva de passar dias presos em em seus hotéis, possivelmente sem água, luz e abastecimento. Eu mesma, devo admitir, estava um pouco assustada. Mas eu tinha meus planos, e não era um pé d’água qualquer que ia entrar no meu caminho.

Depois de passar nosso último  dia em Bohol mergulhando, eu e um amigo português (oi Kiko!) voltamos para o hostel com a perspectiva de empacotar as mochilas e partir no dia seguinte pela manhã. Ele ia para a ilha de Siquijor, ao sul, e eu ia subir para a ilha de Malapáscua, para mergulhar mais. No espírito de não planejar muito as coisas – que vinha funcionando muito bem até então – eu tinha deixado pra comparar a passagem de barco até Cebu na hora. A ideia era chegar em Cebu City, pegar um ônibus para o norte, e depois outro barco até Malapáscua. Seria um longo dia, mas eu (achava que) estava preparada

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As duas estrelinhas de baixo são onde eu estava: Bohol. Cebu City é a estrelinha do meio, e Malapáscua, meu destino final, é a estrelinha lá em cima!

No hostel, perguntei para a moça da recepção se ela por acaso sabia quais eram os horários dos barcos no dia seguinte.

“Não tem barcos amanhã”.

“Como assim? Eu pesquisei! Tem montes de barcos todos os dias!”

“Não amanhã. Amanhã é sexta feira da paixão; é o feriado mais importante que temos aqui nas Filipinas – mais importante até que o Natal, que o Ano Novo, ou até que a própria Páscoa. Nada funciona amanhã. Meu marido trabalha em uma das empresas que faz o transporte de barco, eu sei do que estou falando”.

Era só o que me faltava; não era o furacão Maia que ia avacalhar minha vida, era Jesus Cristo! Um dia de espera não parece muito, mas eu estava com o tempo contado pra fazer o que me faltava nas Filipinas e, convenhamos, não é um dos países mais fáceis de se viajar. Por ser um arquipélago – e com um sistema precário de transporte por terra -, um trajeto que demoraria apenas algumas horas em algum outro lugar, nas Filipinas demora dias.

Oras, se não tinha barco, não havia nada que eu pudesse fazer. O hostel era bom (TR3ATS Guest House), tinha uma salinha de TV legal, uma piscina, restaurante… eu podia passar um dia lá tranquila, descansando; talvez ligar pra minha mãe, ler um pouco. Sim, ia ser legal. Fui pra cama achando que, afinal de contas, essa coisa de passar um dia à toa não seria tão ruim.

Mas eu nunca fiquei sabendo se seria ou não.

Às seis e meia da manhã, o Kiko me acordou. A moça da recepção tinha se engando, havia barcos saindo naquele dia sim. O problema era que o primeiro já tinha partido, e eu tinha menos de 1 hora pra pegar o segundo – e último.

Por um momento eu pensei em ligar o foda-se e ficar por lá mesmo. É só um dia, não é mesmo? O que é que custa? Mas o plano falou mais alto e eu me levantei às pressas. Fiz a mala o mais rápido que pude (nesses momentos, é bom viajar com pouca coisa!), fiz check-out do hostel, e lá fomos nós dois para a rua à procura de um triciclo ou táxi que nos levasse às docas.

Considerando que era o maior feriado do ano, não foi fácil. Fomos para a rua principal e ficamos zanzando um tempo até achar alguém; o motorista nos deixou bem no porto, onde as pessoas já estavam embarcando para Cebu City – teoricamente, esse era pra ser meu barco. Saía em 10 minutos.

“Moça, pelamordedeus, ainda tem passagem?”

“Ah, não é aqui que compra. Você tem que subir a rua, é lá na entrada das docas.”

Como o moço do triciclo já tinha ido embora, fui a pé. Que tarefa ingrata, essa de ficar subindo e descendo pra todo lado com duas mochilas e naquele calor abafado do Sudeste Asiático. Felizmente, ainda havia passagens disponíveis. Pelo menos isso! Comprei a minha, voltei correndo e me despedi do Kiko às pressas.

Foi a conta de me espremer no único assento disponível, ao lado de um enorme grupo de meninas coreanas, e o barco saiu. Meu estômago roncou e me lembrei que não comia nada desde a noite anterior; ainda bem que eu sempre carregava um saquinho de chips de banana na mochila.

Fiquei ali mastigando e esperando meu coração desacelerar; enquanto isso, a enorme TV à minha frente começou a passar um filme do Liam Neeson tentando salvar uma galera no avião – ou será que ele queria explodir a galera do avião? Não faço ideia, as coreanas faziam muito barulho e as legendas estavam em tagalog, não dava pra entender nada.

Terminei as bananinhas secas e salgadas e… cadê minha água? Ah é, eu não tinha mais água. Nós até tínhamos tentado comprar na noite anterior, mas tudo já estava fechado por causa do feriado, então eu acabei dividindo a água que me restava com Kiko e agora não tinha mais. Na correria, nem me lembrei de comprar outra.

E foi então que eu comecei a achar aquela situação toda muito absurda. Não eram nem oito da manhã e eu já estava suada e exausta. E como assim, eu não tenho água? Água era pra ser a coisa mais básica do mundo: a gente entra na cozinha, pega um copo e bebe. Pronto. Mas não; fazia mais de quatro meses que eu tinha que me programar e comprar água com antecedência. Tinha dado certo, até agora.

E naquele momento eu percebi que tinha cansado de viajar.

Tinha cansado de comprar água, de pesquisar hostel, de correr atrás de barco/ônibus/tuk tuk, de dividir quarto com mais 10 pessoas, de sentir calor o tempo inteiro, de usar as mesmas roupas todo dia…

Eu queria um copo d´água; e uma xícara (boa!) de café. E queijo. Eu queria assistir televisão – alguma coisa à toa, uma série ou um documentário, e depois cochilar no sofá. Me cresceu um desejo enorme de coisas bobas, essas que a gente faz no dia a dia e nem liga. Dirigir, arrumar o cabelo, dormir até tarde como se fosse domingo.

Se naquela hora alguém tivesse me dado uma passagem e falado “toma, vai pra casa”, eu tinha aceitado; mesmo ainda tendo uma semana nas Filipinas, uma semana em Bangkok e um mês na Indonésia pela frente. Não me importava. Eu tinha me atulhado de coisas pra fazer e não estava dando conta. Estava sem ânimo, sem paciência, sem vontade.

Mas isso só durou alguns minutos. Alguns minutos infernais em que eu só queria colocar as mãos no rosto e chorar até os olhos arderem; ou rezar para acordar em casa ao invés de naquele barco quente, fedido e barulhento; mas ainda assim, apenas alguns minutos. A verdade é que nem a falta de ânimo, de paciência e de vontade – e nem a sede momentânea ou o desejo de assistir a alguma coisa na TV que não fosse o Liam Neeson – eram maiores que a vontade de continuar e ver o que me ainda esperava.

Vou ter muito tempo pra beber quanta água eu quiser, ou assistir a todos os programas idiotas do mundo, mas quando vou estar nas Filipinas de novo? Coloquei a mochila embaixo da poltrona, deitei a cabeça a cabeça no encosto, fechei os olhos e descansei enquanto podia. Eu ainda tinha uma longa jornada pela frente.