Chegamos relativamente cedo, por volta de nove da manhã. Descemos pela praia examinando as barracas na areia; algumas com mesinhas básicas de plástico à beira mar, outras com enormes espreguiçadeiras acolchoadas com almofadas brancas. Não importa, só queremos um lugar onde não tenhamos que pagar consumação mínima. Em uma se paga 50 reais por pessoa, na outra 200, e naquela de lá eles cobram pelo número de cadeiras.

Gente, no meu tempo não era assim, não! Era só ir chegando e se acomodando. Como as coisas mudaram…

Enfim arrumamos um lugar que só cobra o que quisermos consumir. O dono, argentino, vem se apresentar e trazer os cardápios. Eu me sento e puxo um livro e uma garrafa de água que trouxe comigo; minha mãe pega o chapéu e sai para uma caminhada. Enquanto leio, mais pessoas vão se instalando: um casal gaúcho já pede uma cervejinha gelada; logo depois, uma família de goianos pega uma mesa grande e encomenda o almoço para mais tarde. Aos poucos, os lugares para se sentar vão se acabando – em todas as barracas -, mas os turistas continuam chegando; subindo e descendo pela areia, procurando onde ficar. A praia está completamente lotada.

O argentino fica ali espreitando.

“Quer alguma coisa?”

“Uma água de coco, por favor”.

“Ah, não temos… tem que pedir pra um dos ambulantes, quando passar”.

“Tá certo, obrigada então”.

Minha mãe volta e é minha vez de sair. Caminho até as falésias do outro lado da praia, mas na volta meu pé começa a doer. Resolvo ir pelo mar, nadando. Quando finalmente consigo chegar (desgraça de correnteza me empurrando pro lado contrário!), quase uma hora depois, encontro minha mãe sentada na mesa, com um livro na mão e o coco aberto no colo. Ela deu mais sorte que eu.

“O que você está a fim de comer hoje?”

“Que tal camarão?”

“Ótimo! Vamos pedir uma porção e a gente divide.”

O camarão vem – uma porção daquelas feitas para quatro homens grandes, gordos e famintos. Eu peço uma água pra acompanhar. Minha mãe, que tem o hábito de comer como um passarinho, come três camarões e já fala que está satisfeita. Eu encho a cara até passar mal, mas no final das contas dá pra rearranjar a porção e parece que ninguém sequer encostou no prato.

Pedimos uma embalagem pra guardar o “resto” e o primeiro ambulante que passa (um vendedor de picolé) leva o almoço do dia. O argentino assiste de olhos arregalados enquanto seus preciosos camarõezinhos são levados embora.

A tarde continua. Eu volto para o mar, mamãe vai fazer outra caminhada, as pessoas passam vendendo tudo o que se possa imaginar. Colares? Não, obrigada. Biquínis? Não, obrigada. Milho? Não, obrigada. Cestinha para pães? Não, obrigada. Açaí? Não, obrigada. Vai querer mais alguma coisa, moça? Outra porçãozinha, outra água talvez… Não, moço, obrigada.

A última van de volta sai as cinco. São quatro e cinquenta quando juntamos nossas coisinhas, pagamos a conta e nos preparamos para sair. Minha mãe, a simpatia em pessoa, vai procurar o argentino para agradecer: adorou a barraca, vai voltar outro dia.

Ele, também muito simpático, fala os tradicionais “foi um prazer” e “voltem mesmo”. Mas tenho a impressão de que aquele sorriso estava meio amarelo. Também, não é por menos; que clientes são essas que ficam na praia o dia inteiro e não pedem uma cerveja? Uma caipirinha? Ainda tem a cara de pau de trazer a bebida dentro da bolsa e dar a comida toda pro moço do picolé.

Pobre argentino. Eu e mamãe somos o terror das barracas de praia.