Se por um lado eu me motivo com a gentileza de alguns estranhos, por outro…

No último post eu contei pra vocês como acho lindo o encorajamento que recebo de estranhos aleatórios toda vez que saio para caminhar. E eu não mencionei antes, mas isso não acontece apenas aqui na Inglaterra, acontece no mundo todo! Caminhar (ou correr, para aqueles que estão com os tornozelos em dia) é a atividade física mais fácil e conveniente pra quem está viajando, e é um exercício que eu pratico sempre. E não importa onde eu esteja, eu sempre encontro uma certa cumplicidade nos outros corredores.

Mas outra coisa que eu sempre encontro, não importa onde eu esteja – e que fica ainda pior quando estou com uma legging coladinha e suando em bicas – são os machistas. Pensei que estaria sã e salva aqui, num país de “primeiro mundo”, com valores um pouco mais modernos e liberais, com direitos mais garantidos, com homens mais bem educados e respeitosos…

Que nada!

É diferente, eu admito. Geralmente sou abordada por meninos mais novos, em grupo, e que só mexem comigo de longe. Mas a ofensa está lá; os assovios, os gritos, os gestos. Me pergunto o que eles fariam se eu respondesse, se eu cruzasse a rua e fosse enfrentá-los. Aposto que morreriam de vergonha! Mas a aposta morre comigo: finjo que não ouço, olho para baixo e continuo meu caminho. Quem sabe na próxima.

Se não tenho paz sequer em um país europeu “desenvolvido”, que chance tenho eu no resto do mundo? Nenhuma. Na Indonésia eles eram mais atrevidos, chegavam perto e faziam comentários sexuais. No Chile cheguei a ser perseguida por dois meninos de bicicleta. Nem preciso falar como as coisas funcionam no Brasil, vocês todos sabem.

E só de escrever esse desabafo pessoal, já consigo ouvir comentários do tipo “aprende a aceitar elogio, o cara está insinuando que você é bonita; o mundo tá muito chato, não pode nem mais olhar pra mulher na rua; mais uma feminista chata que só sabe reclamar”…

Quer saber? Se querer me sentir segura na rua enquanto estou caminhando significa ser feminista chata, então eu sou feminista chata mesmo. E enquanto feminista chata, vou mandar uma mensagem pra todo mundo que ainda não entendeu, espero que seja bem clara e direta:

MEXER COM MULHER NA RUA NÃO É ELOGIO, É ASSÉDIO. Eu não me sinto bonita quando um homem geme ao cruzar comigo na rua, eu me sinto ameaçada. Eu não acho lisonjeiro ouvir um grupo de homens gritando e assoviando quando eu passo, eu acho nojento. Você acha que é só uma brincadeira e que eu estou exagerando? Experimente passar por isso todos os dias por 20 anos. Que tal um bando de marmanjos chamando uma menina de 12 anos de “delícia”? Te parece razoável?

Sem contar que ainda estou pra conhecer uma mulher que jamais tenha pensado: nossa, aquele estranho ali no meio da rua me chamou de gostosa. Agora estou super a fim! Vou ali passar meu whatsapp pra ele, aposto que vamos nos dar super bem.

Pelamordedeus!

Ah, e isso serve para as mulheres também, viu? Não me venham com essa de que “homem só pensa em sexo o tempo todo mesmo, eles adoram quando a gente mexe com eles na rua”. Você está objetificando o moço do mesmo jeito que eles objetificam você, não pode não.

Ufa! Agora tá falado. Que venham os machistas de plantão reclamar. Que venham os feministas de plantão apoiar. Que alguém, pelo menos uma pessoinha que seja, aprenda algo com esse post.

E que eu consiga juntar coragem para erguer a cabeça, cruzar a rua e enfrentar os babacas que mexerem comigo na próxima caminhada. Eles vão estar lá mesmo, não tenho a menor dúvida. Só me resta fazer alguma coisa a respeito.