Na tentativa de me manter em forma, acabei encontrando um grupo de apoio.

Estou numa cidadezinha minúscula no leste da Inglaterra. É início de novembro e cada dia que passa fica mais frio – e mais escuro – que o anterior. O chuvisco constante me desanima; a vontade é de ficar em casa o dia inteiro, enrolada num cobertor, na frente da TV. Mas não posso.

A fisioterapeuta falou que tenho que me exercitar de leve para que meus músculos da panturrilha não atrofiem e para fortalecer os ligamentos do tornozelo. Na falta de uma piscina, que seria o ideal para amortecer o impacto, o jeito é caminhar na rua mesmo. Me empacoto da cabeça aos pés, alongo as pernas, pego fones de ouvido para o celular e saio.

Às cinco da tarde, o sol já se foi e a maioria dos ingleses está chegando em casa depois de mais um dia de trabalho. Aos poucos, outros gatos pingados começam a aparecer pela avenida e logo não estou mais sozinha. Primeiro sou ultrapassada por um adolescente magrelo, correndo desengonçadamente. Depois vejo um velhinho determinado trotando do outro lado da rua. Na volta, cruzo com duas moças power walking enquanto conversam animadas.

Todos os dias saio para caminhar, e todos os dias eles estão lá: homens, mulheres, jovens, adultos, idosos, magros, gordos, rápidos, lentos… Não são muitos, mas estão lá. Alguns com medidores cardíacos e fones sem fio, outros apenas com os tênis de corrida. Alguns com o cachorro, com um amigo, com o carrinho de bebê; outros sozinhos.

Enquanto eles passam suados, vermelhos e respirando com dificuldade, eu continuo no meu ritmo de tartaruga: devagar e sempre, às vezes mancando – mal dá pra dizer que estou me exercitando. Mas estou. E eles sabem disso. De alguma forma, eles sabem que eu não estou simplesmente indo ao mercado ou à farmácia. Como eles, eu estou aqui porque tenho um objetivo.

No meu caso, estou tentando me recuperar de uma lesão; mas podia também estar tentando perder uns quilinhos. Podia estar treinando para uma maratona ou só querendo relaxar depois de um dia difícil. Podia até ser uma dessas pessoas que odeia exercício físico, mas sabe que faz bem pra saúde então faz assim mesmo. Para eles não importa o motivo e para mim também não.

O que importa é que estamos ali e estamos nos esforçando. Nós todos abrimos mão de estar em casa, quentinhos e confortáveis – hoje a temperatura era de 1 grau negativo -, para vir aqui e correr atrás de algo (o trocadilho foi intencional). Nós todos sabemos que isso não é fácil e exige uma mega força de vontade, e nós reconhecemos isso – um aceno de cabeça, um sorriso cansado, o que quer que seja. Nós nos identificamos e nós nos entendemos.

E pode me chamar de boba, mas eu acho isso lindo.

Acho linda essa cumplicidade completamente aleatória entre estranhos.

Ali, na rua, correndo – ou andando, ou se arrastando, pode escolher – ninguém julga ninguém. Ninguém critica ninguém. Muito pelo contrário! É um “tamo junto, vamos que vamos, a gente consegue” que sequer precisa de palavras para ser transmitido. É o encorajamento que todos nós precisamos.

Então sempre que estou me preparando pra sair e meu namorado pergunta “mas você vai sair agora? Como esse tempo?” eu respondo:

“Sim, eu vou. E você devia ir também, pode ter mais benefícios do que você imagina”.