Nem sempre nossas viagens terminam como a gente espera. Mesmo.

Aonde estávamos mesmo?

Ah é! Eu tinha decidido voltar pra casa antes da hora porque torci meu pé em Utila e não conseguia mais mochilar direito. Ou melhor, não conseguia mochilar de forma alguma. Cheguei ao aeroporto em San Pedro Sula mas, na hora de comprar a passagem, meu cartão foi recusado e eu não consegui resolver o problema a tempo: perdi o voo. Agora eu estava sozinha numa das cidades mais perigosas da América Central, sem ter pra onde ir e sem saber o que fazer.

Quem já acompanha o blog a um tempinho – ou me conhece – sabe que eu não tenho o menor problema em virar a noite em aeroportos ou mesmo em rodoviárias lotadas de baratas, mas dessa vez não dava. O aeroporto de San Pedro Sula, apesar de ser o maior e mais importante de Honduras, é minúsculo. Eu não tinha aonde ficar, nem que tivesse coragem. Eu tinha que arrumar um lugar para passar a noite.

(Pausa para uma dica importante: se você vai passar mais de uma semana em um país – ou se você gosta de improvisar, que nem eu – tenha um chip local de telefone com um pacote de dados. Que seja o mais simples e o mais barato disponível, não importa; o que importa é ter internet quando você precisa. A gente não pode presumir que todos os nossos planos vão dar certo, ou que vamos conseguir WiFi de graça no caso de uma emergência. Então um chip ajuda muito!)

Eu, por sorte, ainda tinha meu chip, ainda tinha meus dados, e num minuto achei um hostel ridiculamente bem avaliado – La Hamaca. Então lá fui: mochila na costas, mancando, pegar o táxi de volta para a estrada principal, depois uma van que me deixou no centro, e depois outro táxi (que se perdeu!) até o hostel. Vou dizer uma coisa: San Pedro Sula não é, nem de perto, tão assustadora quanto fazem parecer. Podia muito bem ser uma cidade brasileira qualquer. Mas acredito que os gringos morrem de medo das cidades brasileiras também, né… Enfim.

Passei o resto do dia derretendo em um dos sofás do hostel e conversando com os outros hóspedes que, como eu, estavam todos só de passagem por um dia ou dois no máximo.

Como o hostel fica no meio de um bairro residencial pouco movimentado, eu pedi para um dos funcionários marcar um táxi até o aeroporto pra mim no dia seguinte pra não correr o risco de ficar sem transporte. Então, às 10 da manhã, lá estava eu, de banho tomado, as malas prontas, sentadinha esperando meu táxi – que devia chegar às 10:30.

10:35

10:40

10:45

Caceta, não posso ficar aqui esperando, vou acabar perdendo o voo de novo. Cadê o moço da recepção pra ligar pro táxi? Sumiu. Não tinha ninguém no hostel, só eu e a faxineira. Expliquei pra ela o problema, ela ligou pra um dos donos e me garantiu que ele ia chamar outro táxi, rapidinho chega.

10:50

10:55

Deus do céu. Minha passagem está comprada, não posso perder mais esse voo.

Peguei minha mochila e saí por conta própria, andando pelo bairro vazio, procurando um táxi. Demorei uns 10 minutos para achar um, e o motorista ainda tinha que passar na casa do cunhado pra deixar uma encomenda. É claro que o caminho pro aeroporto estava completamente engarrafado, e eu fui chegar no balcão da Copa Airlines 5 minutos antes de fechar o check in.

Ainda bem que era só despachar a bagagem rapidinho, passar pela imigração, e ir correndo pro embarque, certo? Que nada. Por algum motivo bizarro, a aduana do aeroporto de San Pedro Sula fica no meio do saguão do aeroporto, antes da verificação da bagagem de mão. O caos! Um monte de gente se amontoando, a fila não anda (se é que se pode chamar aquilo de fila), um barulho infernal. Pra piorar, a moça resolveu implicar com meu passaporte porque meu carimbo de entrada não estava assinado.

Ora, minha senhora, e eu lá sabia que tinha que estar assinado? A culpa não é minha se o funcionário lá da fronteira pisou na bola; assina você e vamos logo com isso que eu estou atrasadíssima.

A moça chamou um superior, tirou fotos minhas, pegou minhas digitais, me pediu uma declaração escrita de que eu tinha entrado em Honduras (hein? é claro que eu entrei em Honduras, de que outra maneira eu estaria aqui?) e, depois de falsificar um novo carimbo de entrada com assinatura, me deixou passar.

Gastei mais uns bons minutos na fila do scanner – onde me fizeram tirar tudo de dentro da mochila e o tênis, por mais que eu tenha pedido pra deixarem meu pé em paz e explicado que eu estava machucada e que não ia conseguir colocar o tênis de volta – e corri pro portão de embarque. Descalça. Tudo bem, eu gosto de ficar descalça no avião mesmo.

Por sorte, os voos para casa foram ótimos. Uma parada rápida na Cidade do Panamá, filminho, lanchinho… e no dia seguinte, logo cedo de manhã, minha mãe estava me pegando no aeroporto de Confins.

Vou ser muito sincera com vocês: assim que eu pisei em casa, me arrependi da minha escolha. Meu deus, por que eu desisti tão rápido? Um probleminha, e eu voltei correndo pra casa. Eu tinha seguro saúde, San Pedro Sula não era assim tão terrível. Eu não precisava chegar ao México no mesmo dia, eu tinha quase cinco semanas.

Eu podia ter dado um jeito. Eu devia ter dado um jeito.

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Tá dááááááá!

Três meses se passaram desde o dia em que eu torci o pé.

O primeiro médico que eu consultei, um dia depois da minha chegada no Brasil, achava que meu tornozelo estava quebrado. Ainda assim, ele não pediu uma ressonância pra descobrir; apenas me enfaixou por uma semana e depois me mandou pra fisioterapia. A fisioterapia, por sua vez, parecia uma tortura e só me fez piorar. Eu larguei.

O segundo médico que eu consultei afirmou que eu tinha rompido um ligamento, xingou o primeiro médico porque o tratamento tinha sido todo errado, e me mandou ficar mais um mês de repouso. Quando esse mês terminou e eu ainda não via melhora nenhuma, procurei uma fisioterapeuta particular e ela foi a primeira pessoa que me examinou direito e me deu indicações precisas de como cuidar do meu tornozelo.

Eu faço exercícios leves, massagem, coloco gelo, fico com o pé pra cima a maior parte do dia. Mas eu ainda manco. Ainda estou inchada, ainda não consigo subir ou descer escadas direito. Meu pé não dobra nem faz círculos. Três meses já se passaram, e sabe-se lá quando é que eu vou voltar ao normal.

Imagina ter passado por tudo isso em Honduras, ou mesmo no México? Sozinha e falando um espanhol macarrônico? Tendo que ligar pro seguro de viagem e conseguir autorização pra qualquer coisinha?

É, eu posso me sentir frustrada por ter cortado minha viagem assim, sem mais nem menos, mas tenho que admitir que foi a coisa certa a se fazer. Aventuras são ótimas, mas não são a coisa mais importante do mundo. A América Central vai estar lá, o México vai estar lá, e eu vou voltar. Vou voltar e fazer mais um monte de bobagens.

Se essa desgraça desse pé um dia me permitir.