Uma daquelas coisas que a gente aprende na estrada e usa na vida.

E eis que eu voltei de mais uma viagem. Três meses pela América Central que acabaram virando dois por conta de um pequeno imprevisto: eu rompi um ligamento no tornozelo. Ótima estória, juro que conto outro dia, mas não hoje. Hoje eu estou a fim de desabafar.

Vamos começar com um exercício de visualização.

Imagina que você está em Honduras. Na praia. Mergulhando. Todo dia você deita na rede pra ler um livro, sai pra dançar, conhece gente do mundo inteiro. Em teoria, você ainda tem pelo menos um mês para curtir essa vida maravilhosa – e se acostumar com a ideia de voltar pra casa –, mas não é o que acontece.

O que acontece é que você é uma estabanada, se machucou e teve que ir embora às pressas. De repente você se vê trancada em casa todos os dias, o dia inteiro, quase sempre sozinha e sem nada pra fazer que não seja assistir TV ou sentar na frente do computador. Não se esqueça do pé enfaixado, que atrapalha seu sono e te impede até de tomar banho direito.

Não, não é nada divertido.

Mas vamos agora dar uma de Poliana, fazer o jogo do contente e tentar ver o lado bom das coisas. Com sete semanas de molho em casa eu tive a oportunidade de fazer uma daquelas coisas que a gente adia até ser inevitável: arrumar o quarto. Não digo arrumar o armário e doar umas roupas, coisa que eu faço todo ano. Não digo tirar a pilha de livros da estante e substituir por uma pilha de livros diferentes. Digo arrumar tudo, olhar tudo, limpar tudo: dos canhotinhos de cinema aos bibelôs inúteis.

Parece programa de índio, mas é necessário e eu me animei com a perspectiva de finalmente fazer algo útil.

Eu mal tinha começado quando fui assaltada por um pergunta filosófica; uma dessas questões existenciais que atormentam o ser humano moderno: pra quê tanta coisa, meu Deus? Pilhas e mais pilhas de CDs e revistas; cartões, cartas, bilhetinhos que a gente trocava com as amigas no colégio; uma quantidade absurda de roupas, sapatos e acessórios. Dois rádios quebrados. Um par de patins que não uso desde os doze anos de idade.

Pra quê? Pra quem?

Fui esvaziando tudo: armários, gavetas, prateleiras… Eu não sabia o que fazer com metade daquelas coisas e, a certa altura, a bagunça era tal que mal dava para andar pelo quarto. Precisando de uma pausa, eu achei um cantinho de chão vazio, desenterrei um CD velho do Coldplay e consegui ressuscitar um dos rádios com algumas tapas bem colocados. Fiquei sentada ali, curtindo a depressão do Chris Martin, espirrando na poeira e observando enquanto minha gatinha gorda saltava de caixa em caixa como se estivesse num parque de diversões – que bom que alguém estava se divertindo.

Depois de um tempo, como acontece com todo mundo que escuta Coldplay, a depressão do Chris Martin deixou de ser divertida e passou a ser contagiante. Ou talvez tenha sido culpa das lembranças: o envelope que eu achei com meus desenhos toscos de criança, o mapa de Viena da minha primeira visita à Europa, minhas anotações da faculdade.

Mais provavelmente, foi tudo isso junto. Eu só sei que, de repente, desandei a chorar, sentada no chão do quarto, no meio da bagunça. Cansada e triste.  A pobre da gata saiu correndo porque ela já aprendeu que, quando eu fico emotiva, sobra pra ela (quem não quer agarrar um bichinho fofinho e macio no meio duma crise?) e eu fui deixada sozinha com meus pensamentos.

Parte de mim queria simplesmente guardar tudo e esquecer aquela ideia boba de arrumar quarto. Trinta anos é muito tempo, e a gente acumula muita coisa, não é mesmo? Tudo que estava ali, estava ali porque era importante. Porque era meu. Então vamos deixar as coisas como elas estão.

Mas a pergunta não me saía da cabeça. Pra quê?

Pela maior parte dos últimos dois anos, eu vivi de uma mochila. E uma mochila pequena por sinal, só cinquenta litros. Eu me virava com um punhadinho de roupas, dois pares de sapatos e o básico pra higiene pessoal. Minha maquiagem consistia em um batom e um rímel transparente, e meu maior luxo era ter dois livros ao mesmo tempo – um guia de viagem e um livro de leitura que eu deixava pra trás assim que terminava.

Pouquíssima coisa. E eu nunca fui tão feliz.

É um clichê enorme, e todo mundo já ouviu isso milhões de vezes, mas é muito diferente constatar, por experiência própria, que a felicidade não está em bens materiais. Ou pelo menos, não no excesso. E já faz algum tempo que eu percebi isso.

Quando voltei da Ásia, depois de oito meses, eu não conseguia lidar com meu armário. Eu não sabia o que fazer com tanta opção e continuei usando as mesmas roupas da viagem por pelo menos um mês. Com o tempo, eu perdi a vontade de acumular montes de livros que não vou mais ler – e que podiam estar sendo lidos por outras pessoas – e já não vejo propósito algum nas duas prateleiras de sapatos que são usados uma vez por mês.

A minha resposta era essa: não tem pra quê nem pra quem. Não me faz mais feliz. Eu já tinha me desapegado há muito tempo, agora eu só precisava colocar aquilo em prática.

Com o Chris Martin cantando um encorajador “Everything’s Not Lost”, eu me levantei desajeitadamente, me apoiei no pé vacilante, e comecei a juntar aquela tralha toda. É hora de jogar fora, doar, vender, reciclar. Eu não preciso de tanta coisa.

Você não precisa de tanta coisa.

A aí, vamos arrumar o quarto?