Como ir de Chichicastenango a Antígua de uma maneira bem típica.

Aqui na América Central eles são chamados de chicken bus ou colectivos, os ônibus ou vans que vagueiam de uma cidade a outra por preços ridículos, parando pra qualquer alma viva e em qualquer ponto do trajeto. Sim, mochilar pela América Central significa se aventurar num desses pelo menos uma vez por semana: apertada no banco, bichos e compras pra todos os lados, crianças chorando, adultos em pé…

Na Guatemala especificamente (e também em Belize, mas não no México, nem em Honduras) os chicken bus são iguais àqueles ônibus escolares que a gente vê em séries de TV americanas. Aliás, são exatamente os mesmos: eles importam os ônibus dos EUA e depois os pintam e customizam, uma alegria só. Eu, pessoalmente, adoro andar de chicken bus! Adoro a paisagem pela janela, adoro estar no meio dos moradores locais, adoro o caos. Sempre que posso – e tenho ânimo! – eu vou de chicken bus.

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Chicken buses em Xela, Guatemala. Aquele ali sequer se deu o trabalho de pintar por cima do “School Bus”. (flickr.com/adach)

Mas, convenhamos, nem toda viagem é feliz e contente: depois de cinco semanas de muita sorte, domingo passado eu finalmente peguei um chicken bus que testou minha paciência.

Eu estava na pequena cidade de Chichicastenango, nas montanhas da Guatemala, para ver o mercado. O mercado de Chichi, que acontece toda quinta e domingo, é super famoso; mas chegando naquela vilazinha minúscula, com seus morros de paralelepípedo (pense em Ouro Preto!) eu imediatamente me perguntei aonde nesse lugar eles iam enfiar o maior mercado da América Central.

No dia seguinte minha pergunta foi respondida: na cidade inteira. As barracas são montadas nas ruas, cobrindo Chichi inteirinha. É artesanato até não poder mais, cores e cheiros fortíssimos que te deixam tonta, patos e porcos correndo por suas pernas, frutas, verduras, roupas, remédios… tudo que você quiser e mais um pouco. O mercado de Chichi é um experiência e tanto, mas depois de duas horas vagando eu já estava pronta pra ir embora.

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O mercado de Chichi. Eu queria uma foto aérea pra vocês verem o tamanho da bagunça, mas com essa aqui já dá pra ter uma ideia. (flickr.com/photos/frank_am_main)

Então lá fui eu, esgotada mesmo depois de uma curta manhã, pegar os dois chicken bus de volta à Antígua. No caos do mercado, eu custei um pouco para achar uma rua sem barracas e com trânsito livre, mas o ônibus não demorou nem cinco minutos. Só que eu não tinha planejado as coisas direito. Como eu disse, esse é o maior mercado da América Central. Pessoas vêm do país inteiro para vender e comprar aqui. Então, é claro, o ônibus estava lotado.

Isso não significa que você não deva embarcar. Claro que não, nessa vida de chicken bus sempre cabe mais um. O cobrador me empurrou pro fundo e lá fiquei eu, em pé, tentando equilibrar uma mochila de cada lado (poisé, não tinha lugar nem pras mochilas). Acredite em mim, não dá se manter de pé em um chicken bus ziguezagueando pelas montanhas da Guatemala! Mas em breve o cobrador veio me salvar, de certa forma.

Primeiro ele empurrou as compras da galera pro lado e xuxou minhas mochilas no compartimento de bagagens. Depois ele cutucou dois moços gordinhos e me sentou ao lado deles. É um procedimento padrão na Guatemala: os assentos são para duas pessoas, mas sempre se sentam três – às vezes mesmo quando ainda tem espaço mais pra trás no ônibus. Vai entender, eles são pequenos e gostam de se apertar…

Em breve todos os assentos estavam com três pessoas e o que sobrou de corredor também lotou. E quando você acha que não cabe mais uma mosca ali dentro, o motorista pára na beira da estrada para pegar os passageiros de outro chicken bus que quebrou no meio do caminho. Caceta!

Uma senhorinha gorducha, vestida com as coloridas roupas típicas do povo Maia, entra com a filha num braço e uma trouxa no outro, e pára ao meu lado. Eu imediatamente tentei oferecer meu lugar pra ela, mas não acho que seria fisicamente possível me levantar naquela zona. Ainda assim, ela resolveu aceitar parte da oferta e me entregou a menina.

O que?! Não, minha senhora, você senta com ela e eu fico em pé, não tem problema. Ela abriu um sorriso e abanou as mãos como quem diz “não, assim tá bom”. Então lá fomos nós, como um bando de sardinhas na lata – e eu com a sardinha filhote no colo – subindo e descendo morro, virando em curvas absurdas numa velocidade mais absurda ainda, e freando a cada cinco minutos para deixar alguém descer ou (pasmem!) subir.

Eu não tinha onde me segurar com as mãos então o jeito era fincar as pernas no chão com a maior força possível e torcer pra não sair rodando que nem uma bola de boliche ônibus afora. Logo minhas panturrilhas começaram a se contrair com cãibras. Algum cara de pau roubou minha garrafa d´água, que estava ao lado da mochila, e eu não pude fazer nada a respeito porque não dava pra mexer nem o mindinho. Pra fechar com chave de ouro, o motorista ligou o rádio naquela altura – aquela que transforma qualquer tentativa de escutar sua própria música em um mero desperdício de bateria do iPod.

Normal para um chicken bus. Às vezes você dá sorte – eu peguei um em Belize que só tocava salsa, reggaeton e Shakira, uma felicidade. Mas isso com certeza não era Shakira, era… espera… essa música é familiar.

Leandro e Leonardo. Pense em Mim. Em espanhol.

Bom, tá no inferno, abraça o capeta!

Lá fui eu, por mais duas horas, cantando em português mesmo enquanto os guatemaltecas me olhavam como se eu fosse louca. Depois de Leandro e Leonardo veio Chitãozinho e Xororó e, pra fechar, Fagner.

Como esse ônibus não ia diretamente para Antígua, eu tinha que descer em Chimaltenango e pegar outro chicken bus. Quando entramos na cidade, aproveitei a recém criada amizade com a senhorinha pra perguntar qual era o melhor lugar pra eu descer. Ela falou “você vem comigo, anda” e saiu empurrando a galera em direção ao fundo do ônibus (o ônibus também abre por trás, graças à deus).

Péra, moça! Sua filha! E minhas mochilas!

Ela voltou, sempre empurrando, colocou uma mochila em baixo de cada braço, e pulou do ônibus – eu correndo atrás, com a menina no colo. A doninha foi que foi, ladeira abaixo, “venha, venha”. Depois de uma curva estava o outro ônibus. Ela pulou pra dentro, colocou minhas coisas num assento, pegou a filha e saiu.

“Uai, a senhora também não vai para Antígua?”

“Não, não, estava só te mostrando. Mas esse é seu ônibus, pode ir!”

Gracinha de senhora.

Foram mais trinta minutos de viagem, mas esse chicken bus pelo menos estava vazio – e tocava músicas melhores.

Chegar em Antígua foi como chegar em casa; poucos lugares no mundo me fazem sentir tão à vontade como essa cidade… Mas parece que eu não sei vir pra cá sem passar aperto, lembra o custo que foi chegar aqui da última vez? É quase como um carma invertido: você pode vir, mas vai ter que pagar antes.

Bom, não importa, minha tarde maluca no chicken bus teria valido à pena mesmo que só pela experiência. Mas agora tá bom, né universo? Eu aceito jornadas mais tranquilas das próximas vezes, obrigada.