Virar a noite numa rodoviária pode até ser suportável. Desde que você esteja sozinha…

Quando eu conto pras pessoas que passei a maior parte dos dois últimos anos viajando, muitas me vem com “nossa que inveja!” ou “como eu gostaria de ter sua vida”. Esse post  é para essas pessoas. Depois dele eu garanto que vocês vão pensar duas vezes antes de querer estar no meu lugar…

Bom, vamos ao caso. Depois de uma curtíssima estadia em Belize, eu cruzei a fronteira para a Guatemala e fui parar em Flores. Flores em si não tem nada demais, é só uma ilhazinha de rio com uma dúzia de ruas; mas além de ser lindinha, Flores serve de base para a maioria das pessoas que querem visitar as ruínas Maias de Tikal. Estas sim, são maravilhosas – e, ao contrário das ruínas mexicanas, bem mais baratas e vazias.

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Flores e suas casinhas coloridas. (flickr.com/photos/einalem)
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E aí, reconheceu? Essa é a praça principal das ruínas de Tikal – e dá pra contar os outros turistas em uma mão.

De Flores, a maioria das pessoas vai para Semuc Champey, no interior do país. Eu, por algum motivo, resolvi pular direto pra Antígua, uma pequena cidade histórica perto da capital, Cidade da Guatemala. Não exite ônibus direto entre Flores e Antígua, apesar de serem provavelmente os dois destinos mais famosos da Guatemala, mas as agências de turismo te vendem um combo: Flores > Cidade da Guatemala > Antígua. Foi nessa que eu me fodi.

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O centro histórico de Antígua com o lindíssimo Acatenango ao fundo. (flickr.com/photos/jfitz2nyc)

Peguei meu primeiro ônibus às 10:00 da manhã em Santa Elena, a cidade “continental” que fica a meros 5 minutos de Flores. É só cruzar a ponte, a pé mesmo. Nossa previsão era chegar na Cidade da Guatemala às 19:00, e um transfer ia me buscar lá. A viagem estava indo bem até que, já no final da tarde, topamos com um acidente na estrada. Foram duas horas de atraso e eu cheguei na rodoviária super ansiosa, já certa de que teriam me deixado pra trás.

À primeira vista, tinham me deixado mesmo. Ninguém esperando. Perguntei à moça da recepção e ela falou que o pessoal do transfer costuma aparecer quase todo dia, mas que hoje não tinha vindo ninguém, nem mais cedo.

“Você pode ligar pra eles e perguntar?”

“Ah não, nós não temos nada com isso… eu sequer tenho o número! Esta ‘rodoviária’ aqui é só pra nossa linha, e o transfer é de outra empresa. Nós emprestamos o lugar pra vocês esperarem, só isso. Mas não se preocupe, daqui a pouco eles estão aí”.

Só que não. Eram dez da noite quando eu comecei de fato a entrar em pânico. Voltei à recepção:

“Pelo amor de deus, moça! Eu sei que você não tem o telefone, e que não é sua empresa, mas você não pode nem tentar me ajudar? Estou viajando sozinha, num país estranho, não tenho pra onde ir!”

Eu estava quase chorando e acho que a moça finalmente se comoveu. Ela pegou o número do transfer (Onvisa, anota aí) com um taxista, fez a ligação e me colocou pra falar com o responsável.

“Estou aqui esperando, desgraça, cadê vocês?”

“Sinto muito, mas a agência de turismo que você contratou em Flores (Green Jungle, anota aí) não nos informou que você chegava hoje. Agora só amanhã às 4 da manhã, quando o próximo ônibus chegar.”

“HEIN? Vocês trabalham juntos! Se a agência pisou na bola, não é problema meu! Eu não tenho pra onde ir, moço, e eu paguei pelo seu serviço. Vou perder minha reserva do hostel!”

“É, sinto muito, o problema também não é meu – reclame com a sua agência. Vamos te buscar às 4, espere aí na rodoviária.”

Se antes eu estava quase chorando, agora eu estava chorando muito. De raiva, mais que qualquer coisa. Quer dizer então que eu ia passar a noite na minúscula rodoviária. Sim, é uma merda, mas eu já passei muitas noites em rodoviárias, aeroportos e afins, posso aguentar mais essa.

Achei um cantinho mais vazio no fundo, próximo à cafeteria, e me preparei pra noite: estendi meu tapetinho de ioga no chão, peguei uma canga pra servir de cobertor (estava fazendo frio, ainda por cima!), achei uns episódios de Family Guy no computador… e lá fiquei.

O tempo foi passando e os outros passageiros foram pegando seus ônibus. Em breve sobrei só eu. Veio a faxineira, se foi a faxineira. Já passava de meia noite e eu estava me preparando pra dormir quando o segurança se aproximou:

“Me desculpe, mas quem te autorizou a passar a noite aqui?”

“A moça da recepção, por que?”

“Porque não pode, estamos fechando”.

“Como assim?”

“Vou trancar as portas e ficar de vigia lá fora… só abre de novo às 4, quando o próximo ônibus chegar – você tem que sair”.

“Mas, mas… a moça falou que eu podia ficar! Senão eu tinha pego um táxi pra Antígua! Ou arrumado um hostel a três horas atrás! Por favor, eu realmente não tenho pra onde ir…”

“Tá bom, tá bom, você pode ficar. Mas eu tenho que apagar as luzes e trancar tudo. Não se preocupe, tem a saída para o pátio dos ônibus então você não está totalmente fechada. E eu vou estar lá fora de vigia, qualquer coisa é só chamar.”

“Obrigada, moço, você salvou minha vida!”

Portas trancadas, luzes apagadas, e lá estava eu completamente sozinha com o segurança. E se esse homem resolve fazer alguma coisa comigo? Fucei minha mala e achei a única coisa que eventualmente me podia servir de arma: uma lixa de unha. Segurei ela firme na mão e voltei pro meu Family Guy; mas o segurança parecia ser mesmo um moço bonzinho – e não estava nem aí pra mim…

Eu já estava ficando confortável (até larguei a lixa no chão, vejam só!) quando apareceu o próximo problema: um bicho andando pelo teclado do meu computador. Uma barata. Pequena, mas era uma barata. Se fosse em casa, eu tinha chamado alguém pra matar a maldita – ou tinha largado ela lá e mudado de cômodo. Mas quando a gente não tem outra opção, o jeito é ser corajosa: peguei meu tênis, matei a bicha e voltei pra minha caminha improvisada.

Alguns minutos depois, vejo a sombra de outro bicho passando ao fundo. Não é possível, outra barata? Bem que meu primo sempre diz que baratas vêm aos pares… Lanterna numa mão, tênis na outra, e lá fui atrás dela (quem consegue dormir em paz sabendo que tem uma barata à solta?).

Só que não era apenas uma.

Agora que eu tinha luz, eu podia ver que eram muitas; dezenas talvez, rastejando pelo chão, pelas paredes, pelos bancos. A maioria bem pequena, do tamanho de uma joaninha, mas algumas médias, e uma ou outra bem grandes.

PUTAQUEOPARIU!

Imediatamente juntei minhas coisas e saí correndo de lá, em direção à entrada da rodoviária. Pelo que eu podia ver com a minha parca lanterninha, as baratas ainda não tinham chegado aqui, estavam mesmo lá no fundo, perto do restaurante. Eu já estava prestes a montar meu acampamento de novo quando o segurança entrou.

“Mil desculpas, mas você não pode ficar aqui. Eu te deixei passar à noite, mas é proibido, e se as câmeras de segurança te pegam eu estou encrencado. Você tem que voltar lá pra dentro”.

“Moço, lá dentro está infestado de baratas!”

“Sinto muito, aqui não pode ficar”.

Respirei fundo e voltei, lanterna na mão, matando todas as baratas que eu podia no caminho. Puxei uma fileira de bancos pra longe da parede e tirei uma baratinha que ainda tinha ficado em cima. Não deixei absolutamente nada no chão, nem os pés eu apoiava. Passei as três horas seguintes tentando ler meu livro ou assistir um filme, mas de tempos em tempos eu me levantava e varria as baratas pra longe. Sério, devo ter matado no mínimo umas vinte – as baratas dessa rodoviária vão contar lendas a meu respeito por gerações.

Pouco depois das quatro da manhã, um ônibus chegou. Finalmente! As luzes da frente foram acesas, os passageiros foram entrando, e eu agora podia voltar pra área livre de baratas. Meu transfer estava marcado para as 4, em breve eles chegariam. 4:30. Só devem estar um pouco atrasados. 5:00. A qualquer momento agora. 5:30. Caceta, cadê esse povo?

Um grupo de alemães também estava esperando. Eles mal falavam inglês, muito menos espanhol, então me pediram pra conversar com a moça da recepção e pedir informações; mas, como ontem, ela disse que a linha não tinha nada a ver com o transfer.

Um motorista de táxi vem nos salvar. Ele tem o telefone da Onvisa, e ele mesmo liga e avisa ao motorista que estamos lá esperando. Por coincidência, o motorista estava vindo buscar outra pessoa no aeroporto da Cidade da Guatemala, então em poucos minutos ele chega. Ele manda os quatro alemães entrarem na van, mas não eu – minha empresa não avisou que eu estava chegando, então ele não vai me levar.

Calma. Eu sei que a empresa não avisou, mas eu mesma liguei pra vocês ontem e me disseram que iam me buscar aqui às 4. Já são quase 7! Olha aqui o nome de vocês no meu voucher, o que mais você precisa?

Com quem você conversou ontem? Porque eu sou o dono da empresa, e não foi comigo que você falou. Eu preciso da confirmação da agência que te vendeu isso.

Então liga pra eles, aqui o telefone ó.

O motorista não quer telefonar, mas uma das meninas alemãs se recusa a sair e me deixar pra trás. Obrigada, mocinha querida! Nós mochileiros temos que nos manter unidos.

São várias tentativas até que ele finalmente consegue falar com alguém e confirmar que eu não só tenho um transfer marcado, mas que era pra ontem à noite. Pronto, agora vai! Passamos no aeroporto pra buscar o último passageiro e depois é mais uma hora de viagem até Antígua.

Chego ao meu hostel com 12 horas de atraso. Foram umas 26 horas sem dormir. Ainda vou tentar entrar em contato com a agência de Flores que me colocou nessa enrascada e conseguir alguma coisa como compensação, mas tenho certeza que não vai dar em nada. Nunca dá em nada. O jeito é deixar a parte ruim pra trás, aprender o que tem pra aprender, e torcer para que o universo contabilize essa noite horrorosa no meu carma.