O que fazer quando você se vê atacado pelo horror dos mochileiros.

Antes de começar a mochilar, eu sequer sabia o que era um bed bug – o que é irônico porque no Brasil a gente tem inseto pra dar, vender e jogar fora. Mas foi só começar a ler críticas de hostels e conversar com outros viajantes que logo eu percebi que bed bugs são muito comuns e todo mundo já pegou.

Eu mesma tinha conseguido ficar imune por muito tempo –  até ontem a noite.

O bed bug – ou percevejo de cama, tive que olhar no Google – é um inseto da ordem Hemíptera, a mesma das cigarras. Então não é a toa que eu odeio tanto esse bicho… Apesar do nome, o bed bug pode viver não só em camas, mas em qualquer móvel, além de malas, roupas, ou basicamente qualquer buraco que o desgraçado conseguir se esconder. Eles se reproduzem lentamente mas não morrem nunca: vários sites falam que, se você está com uma infestação de bed bugs, o melhor a fazer é tacar fogo em tudo que estiver contaminado e simplesmente comprar coisas novas. Ah, e inseticida e repelente não funcionam, é claro.

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Eca, eca, eca, eca, eca (flickr.com/photos/sanmartin)

Bom, agora que já terminamos a lição de biologia de hoje, vamos à minha estória.

Tudo começou em Caye Caulker, uma ilhazinha adorável a 32km da capital, Belize City. Caye Caulker não tem nada pra fazer: mal tem praia, não tem vida noturna, não tem passeios muito interessantes. Se você estiver com dinheiro sobrando, pode fazer snorkeling ou mergulho, mas ouvi dizer que não são lá essas coisas. Ainda assim, nessa monotonia toda, não tem quem não adore Caye Caulker! A ilha tem um clima tranquilo, com suas ruas de areia e carrinhos de golfe, restaurantes e barraquinhas de rua… O mar é de uma cor maravilhosa e os moradores parecem ser as pessoas mais relaxadas do mundo. Uma delícia de lugar!

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Em Caye Caulker, é só pisar pra fora do barco que você já se sente em casa…

Mas como toda delícia de lugar, Caye Caulker é lotada de turistas, e por isso ela é cara. Muito cara. Então, tentando não gastar uma fortuna, eu fui parar em um hostel bastante simples (pra não dizer completamente fodido) chamado Bella’s Hostel. E não, não era barato! Mas era o melhor que dava pra fazer e as pessoas que eu conheci lá são maravilhosas, então tá valendo.

Logo na primeira noite eu já saí lotada de mordidas, mas isso pra mim é normal. Bichinhos picantes me amam e eu não gosto de usar repelentes muito fortes, sem contar que todo mundo tinha picadas e o pessoal do hostel falou que eram moscas de areia (sand flies, um desses termos genéricos que os gringos inventam porque nunca viram um inseto na vida).

Mas na segunda noite, eu sentia os bichos me picando na cama. E coçava muito! Com um ventilador na cara, aquilo não podia ser obra de mosquito. No dia seguinte um amigo sugeriu que deviam ser bed bugs, mas uma menina olhou minhas picadas e falou que não – ela já teve bed bugs trocentas vezes e estava bem familiarizada. As mordidas deles eram muito piores do que as que eu tinha, e geralmente são em linha ou aglomerados.

Resolvi confiar nela: deixei a estória pra lá e naquele mesmo dia parti para meu próximo destino, San Ignácio, quase na fronteira com a Guatemala. Naquela noite fui cedo pra cama com o computador, e só de estar lá sentadinha escrevendo eu já sentia a desgraça dos bichinhos se rastejando na minha pele. Mas dessa vez eu sentia mesmo: acordei às 4 da manhã com a mesma coceira insuportável da noite anterior, peguei minha lanterna para iluminar a cama e lá estava ele, gordo de sangue, fugindo pelo lençol. Parecia um carrapatinho, outra praga que eu odeio. Esmaguei o desgraçado, mas haviam outros; montes de pontinhos minúsculos se rastejando pela cama.

Então era isso mesmo desde o início. E o pior, eu que tinha trazido eles comigo. Minha mala devia estar infestada, minhas roupas deviam estar infestadas; ou eu jogava tudo fora ou eu nunca mais ia ter uma noite de paz. Que horror, que horror, que horror! Àquela hora da madrugada, eu não sabia o que fazer. Resolvi ligar meu telefone para pesquisar os bichos.

Um site genérico na internet dizia que “se você acha que tem alguma peça de roupa infestada por bed bugs, isole-a em uma sacola plástica“. Bom, e se você acha que todas as suas coisas estão com bed bugs? Resolvi tirar tudo do quarto, antes que eu passasse bicho pras outras pessoas. O meu vai e vem descontrolado às 4:30 da manhã acabou atraindo a atenção de um dos funcionários, Robert, que veio me perguntar o que diabos eu estava fazendo.

Expliquei pra ele a situação e ele me disse que já tiveram esse problema antes, e que sabem resolver, pra eu não me preocupar.

“Mas e minha mala?”

“Não tem nada na sua mala, deixa de ser paranóica”.

“Mas e se tiver?”

“Se tiver a gente tem que lavar tudo o que estiver contaminado com água bem quente, e depois secar”.

“Ótimo, eu quero fazer isso”.

“Não tem nada na sua mala, menina, calma”.

“Tem sim, eu quero lavar”.

“Tá bom, a gente lava”.

Robert pegou absolutamente todas as minhas roupas, minha mala, minha necessaire, minhas sacolas de pano, minhas bolsinhas… tudo que eu tinha foi pra máquina, exceto a roupa do corpo. Ele me ofereceu café e chá, e se sentou comigo enquanto eu surtava na mesa na cozinha. Minha vontade era a de ir embora. Vou embora hoje mesmo pra Guatemala, não consigo mais ficar nesse lugar.

“Olha, você não dormiu direito, está chateada, eu entendo. Vem comigo que eu vou te mostrar uma coisa pra alegrar um pouco seu dia”.

Robert me levou para o último andar do hostel, onde ele dorme. Lá no fundo do quarto, uma caixa de papelão forrada com panos, e cinco minúsculos gatinhos dentro. De fato, se tinha algo que podia me fazer esquecer essa noite do inferno, eram gatinhos. Eles são filhotes da gata do hostel e tem só quatro dias de idade; cabem na palma da minha mão e ainda nem abriram os olhinhos. Eu pego um pretinho e fico lá abraçada com ele, morrendo de amores, enquanto o Robert vai cuidar das minhas coisas.

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Ai, que coisinha!

Mais calma, eu mesma resolvo descer, pegar meu computador, e trabalhar um pouco – não vou dormir mais hoje mesmo. Com o tempo, outros hóspedes vão acordando e eu explico pra eles o que está acontecendo, já que a essa altura o Robert já tirou meu colchão do quarto e está borrifando alguma coisa bem química e tóxica nele. Todo mundo tem uma estória de bed bugs pra contar e todo mundo acha que, apesar de ser mesmo muito ruim, é super normal e vai dar tudo certo.

Minhas coisas chegam da limpeza pegando fogo (para matar o bicho você dever usar uma temperatura de no mínimo 60 graus, seja para lavar ou para secar) e eu passo um bom tempo dobrando e guardando tudo. Eventualmente, minhas amigas que estão viajando e dividindo o quarto comigo acordam e, para minha surpresa, uma delas está picada dos pés à cabeça.

“Uai, você também pegou bed bugs?”

“Sim, muitos, que noite péssima…”

“Então não fui eu que trouxe eles do último hostel?”

“É claro que não, esse lugar é que está lotado!”

Os funcionários pedem milhões de desculpas e fazem uma limpeza geral no quarto inteiro – duas vezes. Eles removem roupas de cama, colchões, tábuas de madeira dos beliches. Eles limpam até as paredes e o chão. De fato, eles fizeram tudo o que podia ser feito (que não fosse jogar os móveis fora) e lideram muito bem com a situação.

Mas agora que estou aqui escrevendo, o dia já passou e é tarde da noite. Eu estou completamente exausta, não quero nada mais do que ir pra cama e apagar.

Mas quem disse que tenho coragem? Nunca mais vou pregar o olho numa cama de hostel.