Sim, estou indo sozinha. E sim, estou morrendo de medo.

São dez e meia da noite. Estou sentada na sala de embarque do (péssimo!) aeroporto internacional de Guarulhos esperando meu voo para a Cidade do México, que sai em pouco mais de uma hora. Sim, eu finalmente estou indo pro México! Um país que sempre esteve lá no topo da minha lista. A cultura, a comida, as ruínas, as praias, os mergulhos, as festas… tudo isso e muito mais está logo ali, na outra ponta do meu trajeto.

Eu devia estar subindo pelas paredes de felicidade, mas adivinha só? Não estou.

A verdade é que eu odeio essa parte. Sempre que viajo sozinha tenho esse momento de “o que diabos eu estou fazendo?” A essa hora eu podia estar em casa, tomando uma sopinha, vendo um programa de TV bobo com um gato no colo e outro na cabeça. Aí amanhã eu podia sair cedo pra nadar; à noite eu podia encontrar minhas amigas para uma cerveja ou ver um filme com a minha mãe… tudo bem normal e seguro.

Eu podia também ter me poupado de semanas da ansiedade que sempre me ataca antes de viajar. Na hora de planejar, é tudo lindo! Você só pensa nas milhões de coisas legais que vai fazer, nas experiências diferentes, nos novos amigos… mas quando a data vai se aproximando e a coisa começa a ficar mais real, eu começo a me arrepender.

É tão irônico! Sempre tem alguém que fala: “nossa, mas você vai assim sozinha? Que coragem!” De forma alguma, querida pessoa. Eu morro de medo. E estou com medo agora; devia mais era ter ficado.

Mas não fiquei. Eu vim e agora estou aqui, esperando para mais uma vez enfrentar meu pior pesadelo: voar de avião. Por essa você não esperava né? Mas é verdade, eu tenho pavor de avião.  E depois desse avião tenho mais sete horas de espera na Cidade do México só pra pegar outro avião. Mas aí você finalmente chegou, né? Não, não cheguei. Aí tem um ônibus para Playa del Carmen e uma balsa até Cozumel, meu destino final. Da porta de casa até a porta do hostel devem dar umas trinta horas de viagem.

Pra quê esse trabalho e esse estresse todo, Patrícia? Fica em casa quieta, é tão mais fácil. Depois disso tudo você ainda está correndo o risco de odiar o México, de não fazer amigo nenhum, de querer voltar depois de uma semana. E aí? Aí fodeu.

É muito pensamento negativo pra uma pessoa só.

Mas pra compensar esse diabinho desgraçado que fica sentado no meu ombro me enchendo de dúvidas, tem o anjinho otimista. É claro que você vai gostar do México, todo país tem algo interessante para oferecer (e o México tem, no mínimo, tequila). E fazer amigos é a coisa mais fácil do mundo,  todo mundo tá lá pra isso mesmo. E se você realmente quiser voltar pra casa depois de uma semana – o que nunca aconteceu antes, mas enfim – você troca sua passagem, entra num avião e volta. Simples assim.

É claro que o anjinho sempre ganha, senão eu não viajava nunca, mas os dois vão sempre comigo – faz parte do processo. Sair de casa pode até ser a pior parte, mas não acaba aí. Você chega num lugar novo, se familiariza com a vizinhança, faz amigos, descobre qual mercado tem a cerveja mais barata e qual ônibus te leva pra praia mais rapidamente. Dois dias e eu já estou chamando o hostel de “casa”. Mas a hora de ir embora inevitavelmente chega e com ela todas as dúvidas voltam. Dessa vez deu certo, mas e depois? Fazer as malas de novo, pegar ônibus de novo, conhecer gente de novo; volta a ansiedade, volta o medo, volta o risco. Toda semana, a mesma coisa.

Dessa parte da viagem ninguém fala: o constante frio na barriga. Mas não é por isso que a gente viaja? Pelo desconhecido, pelo diferente, pelo novo? Às vezes as coisas dão errado mesmo –  você não gosta da cidade, tem problemas com o hostel, não faz amigos, fica doente, é roubada… Sim, tudo isso acontece e é uma merda, mas faz parte da jornada. Sem frio na barriga não seria aventura! Então mesmo com medo, ou ansiosa, ou sozinha, a gente tem mais é que ir.

Literalmente, tenho que ir – estão embarcando meu voo. Boa sorte pra mim, e vejo vocês no México.