Como a Aerolíneas Argentinas virou alvo do meu ódio eterno.

Um pequeno prólogo, só pra contextualizar.

Uma semana ante do meu voo de volta pro Brasil, quando eu ainda estava em Punta Arenas, recebi uma mensagem desesperada da Expedia avisando que a Aerolíneas Argentinas tinha alterado meu itinerário e eu tinha que entrar em contato com eles imediatamente para aceitar a alteração ou fazer novos planos.

Muitas ligações burocráticas depois, agravadas pela má qualidade do wifi, eu finalmente consegui resolver tudo e, para minha felicidade, o novo voo era até melhor que o original porque eu devia chegar em casa uma hora mais cedo.

Mal sabia eu.

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Minha viagem pela Argentina acabou em Ushuaia, no extremo sul do país. Vou admitir que, dessa vez (pra variar) eu já estava pronta para voltar pra casa, então não foi difícil acordar cedo na segunda feira de manhã, despedir dos amigos e ir para o aeroporto de onde sairia meu voo para Buenos Aires.

Em Buenos Aires eu teria uma espera de quatro horas antes do meu voo para Guarulhos, o que não me parecia muito: era o tempo de comer alguma coisa, passar pela imigração, fuçar o duty free, e talvez assistir a um episódio de House of Cards. Moleza! Logo logo vou estar em casa…

Mas aí um episódio de House of Cards virou dois. E depois três. E então a bateria do meu computador acabou e eu não tinha como carregá-la por falta de adaptador – as tomadas Argentinas são bem bizarras, mas como todos os hostels tinham algumas tomadas redondinhas como as nossas, isso nunca tinha sido um problema antes.

O que está acontecendo? Por que o voo não sai? Quando olho para o painel vejo vários voos cancelados e atrasados. O meu diz “procurar cia. aérea”. Eu nunca tinha sequer visto esse aviso antes, mas já que eles insistem, vamos lá ver.

Como a sala de embarque era minúscula, o que eles chamavam de “cia. aérea” eram na verdade dois funcionários que tinham realizado o embarque de outro voo. Não deu cinco minutos e eles estavam afogando em passageiros revoltados querendo explicações.

Eu mesma sequer consegui chegar perto do balcão, mas conversei com outros passageiros e aparentemente nosso voo estava atrasado por falta de tripulação – os taxistas estavam de greve e o piloto não tinha chegado. Hein? O piloto já ouviu falar de ônibus? Ou de metro? Ou de uber? Tem trocentas pessoas nessa sala de embarque, metade delas veio de táxi! O que esse piloto está pensando? Mandem um carro buscá-lo, não me interessa! Eu vou acabar perdendo minha conexão pra Belo Horizonte!

Mas os funcionários da Aerolíneas, seja por má vontade seja por falta de conhecimento, não podiam ajudar. Está atrasado e pronto, vocês tem que esperar. Eu me contentei em comprar uma barra de chocolate, pegar meu kindle e me sentar quietinha num canto.

Quatro horas depois e nada. Eu obviamente não ia chegar em casa hoje, mas não era isso o que me preocupava. Esse povo não vai dar alimentação pra gente? Ou hospedagem? Está ficando tarde! Muita gente não tinha como ligar pra casa porque os celulares foram morrendo ao longo da tarde (de novo o problema da tomada), mas eles não nos deram telefonemas.

E também não estavam tentando colocar ninguém em outros voos. Eu sei que não caberia todo mundo, mas tinha passageiro perdendo conexões importantes: Abu Dabi, Frankfurt,  Nova Iorque… Tinha gente que precisava trabalhar ou comparecer a eventos. Tinha gente com crianças de colo. Tinha gente que já tinha trocado seus pesos e sequer podia comprar comida por conta própria porque a sala de embarque não tinha casa de câmbio nem caixas automáticos e a única lanchonete aberta não aceitava cartões brasileiros.

Mas a Aerolíneas não fez absolutamente nada.

Montes de voos foram cancelados e mais um monte continuava indefinitivamente atrasado, como o nosso. O aeroporto começou a virar um caos, era óbvio que o problema não era apenas uma greve de taxistas… Eventualmente descobri que era a própria tripulação que estava de greve, não os taxistas. Para piorar, a ex-presidente Cristina Kirchner estava chegando na cidade para ser julgada e metade do aeroporto foi fechado para recebê-la.

Algumas pessoas, mais insistentes, conseguiram lugares em voos de outras companhias. Algumas desistiram e pegaram seu dinheiro de volta. Algumas estavam prestes a subir no balcão e esganar algum funcionário. Tiveram que chamar reforço policial. Quando a coisa estava ficando insustentável, com cinco horas e meia de atraso, nosso voo saiu.

“Moça, vamos chegar em Guarulhos quase meia noite, os voos de conexão já saíram todos, vamos ter hotel lá? Nossos voos vão ser remarcados?”

“Não sei, resolvam com a Aerolíneas brasileira quando chegarem”.

“Mas vai ser de madrugada, vai estar tudo fechado!”

“Problema é seu”.

Que raiva! Eu sei que imprevistos acontecem. Eu sei que a empresa não pode controlar tudo. Mas ela podia no mínimo seguir a lei a fazer um mínimo pra informar e ajudar os passageiros né? Não a Aerolíneas. O máximo que eu consegui foi pegar uma declaração de atraso e fazer cara feia pros funcionários.

Chegando em São Paulo, para meu alívio, já tinha gente nos esperando com vouchers para o hotel, transporte e passagens para o dia seguinte. Mas não pra mim, é claro. Sinto muito, senhora, deve ter ocorrido algum engano mas o seu não está aqui. Procure o balcão da Aerolíneas.

Do balcão me mandaram para a loja e na loja eu esperei uma boa meia hora pra ser atendida. Uma funcionária estava fazendo todo o trabalho sozinha, e um excelente trabalho até (coitada, a loja fechava às 11 e já passava muito de meia noite), mas com o caos de Buenos Aires e problemas com voos saindo do Brasil, as coisas andavam em passo de tartaruga.

Quando finalmente chegou minha vez, ela me explicou que meu voo para BH não podia ser remarcado porque já tinha sido trocado uma vez. Mas gente, foi a companhia que pediu a alteração! Eu podia muito bem ter ficado com o voo anterior, que por sinal saiu de Buenos Aires no horário certo, e já estaria feliz e contente em casa a uma hora dessas! Vocês mexem no meu voo, atrasam o voo novo em mais de cinco horas, e agora ainda querem que eu perca minha passagem para BH? Sério, galera?

Sim sim, claro, me desculpe, vamos resolver…

E ela resolveu – com muita burocracia, uma passagem que teve de ser escrita à mão e um atraso tão grande que eu perdi o transfer para o hotel. Ah, não se preocupe, tem outro em uma hora. Tenho que ficar aqui em Guarulhos esperando por uma hora? Sim, tem.

Eram duas da manhã quando cheguei ao hotel. Ganhei um jantar absolutamente miserável, tomei um banho, dormi por três horas e voltei ao aeroporto – ainda correndo o risco de perder esse novo voo porque o transfer saiu com meia hora de atraso.

Cheguei em casa terça feira às 12:30, 14 horas depois do previsto, cansada e morrendo de raiva. Mas fazer o que, né? Como diria meu pai, “contra a má sorte, coração leve”. Imprevistos acontecem e às vezes não há nada que a gente possa fazer a respeito, temos que relaxar, ir com a maré e esperar que as coisas deem certo.

Ou não. Ou a gente fica puta da vida e mete um belo dum processo na Aerolíneas Argentinas. Alguém aí conhece um bom advogado?