Uma tarde nos pampas com uma habitante dos pampas.

Depois de tantas cavalgadas (em Mendoza, em Pucón e em El Calafate) acho que chegou a hora de falar um pouquinho mais sobre pelo menos uma delas. E eu escolhi a de El Calafatenão porque foi a mais divertida ou a mais bonita, mas porque foi a mais importante.

Como todo mundo sabe eu adoro andar a cavalo, então já saí marcando o passeio de quatro horas. Éramos 12: três guias, quatro franceses, três argentinos e duas brasileiras. O dia estava lindíssimo, céu azul e sol, mas fazia um frio desgraçado – se 4 graus já eram o suficiente pra me incomodar, com o vento então ficava impossível. Venta muito na Patagônia, e o tempo inteiro! Um vento gelado que atravessa seu casaco impermeável e gela seus ossos; é difícil abrir os olhos, os ouvidos doem mesmo se estiverem protegidos.

Dez minutos e estávamos todos tremendo. Fizemos uma parada no topo de uma colina para ver a vista e tirar umas fotos, mas um dos guias puxou meu cavalo pra longe e me direcionou para uma trilha diferente. O que está acontecendo? Você vai para a trilha de quatro horas com a Valentina. Sozinha? Sim, sozinha, o resto do pessoal vai fazer só duas horas.

E eu lá aguento quatro horas nesse frio? E sozinha com a guia? Bom, você não precisa ir. É sua escolha.

Mas meu orgulho falou mais alto – eu marquei, agora eu vou! – e lá fomos nós: eu, Valentina, Mike Tyson (meu cavalo), Mano (o cavalo dela) e os cachorros, que resolveram nos acompanhar ao invés de ir com o outro grupo. As duas em silêncio, seja porque o vento abafava qualquer som, seja porque a situação era ligeiramente constrangedora. O que eu vou conversar com essa moça? E em espanhol, ainda por cima!

O percurso era simples, através dos pampas, contornando o Lago Argentino, mas a vista era linda. Por causa de minerais que vem do derretimento das geleiras (não me lembro o nome do mineral, vou ficar te devendo), o lago tem uma cor azul clara brilhante digna de uma praia tropical – mas é só olhar para as montanhas ao redor cobertas de neve e você se lembra onde realmente está.

3160535957_feccff996a_b
O Lago Argentino e suas águas caribenhas. Mas só na cor! (flickr.com/photos/tangoblivion/)

Além da paisagem, ganhamos também um pequeno safári: condores, águias, guanacos, lebres, emas, raposas… nem que eu estivesse num documentário da National Geographic!

5430831568_fcb94c2c8e_b
O guanaco é parente da llama, só que mais pelado. (flickr.com/photos/gails_pictures/)

Com essa bicharada toda, meu lado bióloga começou a se preocupar. Será que a gente devia estar aqui no habitat natural desses animais? E com uma matilha de nove cachorros, ainda por cima! Todos enormes… Será que não estamos atrapalhando?

Não demorou até que minha pergunta fosse respondida: uma lebre se atreveu a sair da toca – e lá se foi a lebre. Não me leve a mal, eu como carne sim e percebo a minha hipocrisia de ficar incomodada em ver animais caçando. Nós seres humanos fazemos muito pior… Mas por mais que seja desagradável ver um bando de cachorros matando uma lebre, o principal problema não era esse. O problema é um monte de cães domésticos, que nós trouxemos, matando uma lebre selvagem. Isso não pode.

Mas a Valentina não pareceu se importar: ela espantou os cachorros, pegou a lebre (que estava inteira, para minha surpresa), amarrou-a na sela, e nós continuamos. Mais à frente, outra lebre – essa teve mais sorte e conseguiu escapar. Ainda não estávamos nem na metade do percurso. Com duas cavalgadas que a chácara realiza por dia, quantas lebres será que esses cachorros matam por mês? Umas 100? A essa altura eu já estava não só morrendo de raiva, mas também me sentindo culpada: se eu não tivesse pedido a cavalgada mais longa nós não estaríamos aqui, e a pobre lebrezinha estaria viva.

A cavalgada, que já tinha começado meio mal, agora tinha virado um inferno. Eu devia ter voltado quando tive a chance. Mas agora que começamos, temos que terminar.

Um pouco depois de vermos a segunda lebre, nós paramos em um posto para fazer um lanche. Sentadas sozinhas uma de frente pra outra, sem o barulho do vento pra distrair, eu e Valentina não tivemos outra escolha que não conversar. E foi aqui que meu dia começou a ficar interessante.

Ela começou me explicando que o posto – uma caixa de metal no meio do nada, com uma mesa, bancos e prateleiras de madeira – é um dos muitos usados pelos pastores da região quando precisam de abrigo a noite. As paredes são forradas de reportagens e fotos (a maioria de mulheres peladas) porque eles ficam dias, até semanas, nos pampas com as ovelhas. Sozinhos.

Depois ela me contou que o nosso lanche – presunto defumado, queijo, pão e maçãs – era todo feito em casa pelo pai dela, o dono da chácara.

Ela me falou do irmão, da mãe, dos avós, dos cavalos; da hípica que eles têm na chácara e das longas cavalgadas que eles fazem na região, às vezes até cruzando para o Chile. Ela me falou dos anos que passou estudando fisioterapia em Buenos Aires, do trabalho com reabilitação de crianças deficientes que quer fazer agora que voltou pra casa, do restaurante que a família vai abrir ano que vem.

Ela me falou dos pampas, dos lagos, das geleiras, dos animais. Eu eventualmente me senti à vontade o suficiente pra perguntar sobre a lebre e ela me disse que os cachorros estão mais é fazendo um favor. As lebres foram introduzidas pelos europeus e viraram praga; quanto mais eles pegarem, melhor. A família vai usar a carne e a pele, os cães ganham os restos de recompensa.

Na volta o clima resolveu cooperar e o vento diminuiu. Chegando à chácara já bem tarde, como era de se esperar, não havia mais ninguém, e Valentina me deu uma carona pro hostel.

Não, não foi a cavalgada mais bonita que eu fiz nessa viagem. Nem a mais divertida. Mas foi a mais importante porque eu aprendi mais sobre a Argentina hoje do que em 30 anos de vida. E o que é melhor do que conhecer as Valentinas do caminho?