Meus dias fazendo trekking em um dos lugares mais bonitos do mundo.

A ironia é óbvia: eu não gosto de fazer trekking.

Não que eu odeie trekking, ou que seja completamente contra os meus princípios, mas meu corpo simplesmente não foi feito pra isso: meus joelhos doem, meus quadris doem, eu fico sem fôlego com a menor subidinha. “Ah, Patrícia, mas você deve estar muito fora de forma então!” Sim, estou, mesmo fazendo exercício físico regularmente. Mas pelo menos o exercício ajuda em algumas coisas: quer andar em um lugar plano, em um terreno regular? Vamos! Eu ando o dia todo – e feliz! Mas trekking já é demais.

Qual então não foi minha surpresa quando cheguei a El Chaltén, na Argentina, e descobri que a única coisa que tem pra fazer aqui é trekking. Isso é que dá não pesquisar os lugares direito antes de ir…

El Chaltén é uma das cidades mais jovens da Argentina (só 10 dias mais velha que eu! Nasceu em 12 de outubro de 85) e é minúscula, tem 1600 habitantes. Você caminha de um lado ao outro em 20 minutos e a cidade em si não tem nenhum atrativo: restaurantes, hospedagens, agências de turismo; pronto acabou. Por ser um lugar muito isolado e pequeno, os mercados daqui são mal abastecidos e a internet é péssima. Nem comer ou fuçar facebook você pode direito! O que fazer nesse lugar então?

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A pequena El Chaltén.

Trekking. Eu vou fazer trekking. El Chaltén é a porta de entrada para o Parque Nacional Los Glaciares e existem trocentas trilhas na região, de todos os tamanhos e para todos os gostos. Todas ficam perto o suficiente pra você chegar a pé, são de graça e bem sinalizadas. As mais longas inclusive têm banheiros e torneiras com água potável no caminho, caso você não queira beber água de desgelo dos muitos rios e lagos que com certeza vai encontrar pelo caminho (é potável, na entrada do parque eles avisam!).

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Vista a caminho do Mirante das Águias, uma das trilhas mais curtas de El Chaltén – 1h30.

Mas eu tinha sim feito um pouquinho de pesquisa antes de vir e eu sabia que queria só uma coisa: um passeio que me levasse o mais perto possível do Cerro Fitz Roy. Ah, o Fitz Roy… O monstrinho de pedra que você avista ainda da estrada e que está sempre presente, não importa de onde você olhe. Ele é maravilhoso, não tem como não se apaixonar, mesmo à distância. Mas o Fitz Roy é um moço difícil: ele está bem dentro do parque, na fronteira com o Chile, e carros não entram. Nem carros, nem motos, nem cavalos, nem tapetes voadores, nada. Você tem que andar. E muito.

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O Fitz Roy é o pico mais alto à direita. Parece longe, né? E é mesmo.

Existem duas trilhas para se chegar ao Fitz Roy: a primeira sai diretamente da cidade e é a mais utilizada, com 20,4 km ao todo (ida e volta); a segunda sai da Hosteria El Pilar, mais ao norte, e tem 15 km. As duas se encontram no fim do caminho e levam à Laguna de Los Três, o ponto mais perto do Fitz Roy que um turista comum pode chegar. Se você escala – mas escala mesmo, do tipo já subiu o Everest três vezes – pode conseguir uma licença especial pra subir até o topo. Eu vou deixar essa aventura pra uma outra vida, de preferência uma em que eu tenha nascido com asas.

Bom, voltando ao assunto. Já que tem a trilha mais curta, vamos nela né? Era o que eu queria, mas aí tem um problema. A Hosteria El Pilar fica longe e pra chegar lá você tem que ter um carro ou pegar um táxi que, é claro, é caro pra caramba.

Para a felicidade geral da nação, existe uma terceira opção que fica mais ou menos no meio do caminho – e foi ela que eu escolhi. Você pode pegar uma van (custa 125 pesos) que te leva até a Hosteria. Ela não vai te buscar no final do dia – você tem que voltar pela trilha mais longa que te leva até El Chaltén – mas pelo menos você corta aí uns 2 km e não tem que fazer o mesmo caminho duas vezes. Outra vantagem, que eu só fui descobrir depois, é que essa trilha é bem mais fácil que a principal, porque a trilha maior tem muita subida na ida. Na volta você só tem que rolar morro abaixo, é bem mais fácil.

Já então conformada que ninguém ia me carregar até o Fitz Roy, marquei meu lugarzinho na van (tem que olhar com antecedência porque as vagas podem se esgotar) e no dia seguinte, às 8 da manhã, lá estava eu, com a mochila pronta, esperando ansiosa. Eu peguei a van que saía mais cedo porque sei que sou lerda e queria ter o máximo de tempo possível (sem contar que de manhã é mais fresco), mas tem saídas também às 9 e às 12:30. O tempo total estimado para o trekking é de 9 horas, então não se esqueça de levar comida! E é bom também levar roupas de frio e protetor solar, porque o clima é doido: venta muito mas se o sol sair faz um calor do inferno, e pode chover/nevar a qualquer momento, mesmo no verão.

Uns 15 minutos na van e chegamos à Hosteria. Caímos na trilha e aos poucos o grupo foi se dispersando; uns mais rápidos, uns mais lentos, e pela estrada afora eu fui bem sozinha. Em retrospecto, tudo me pareceu muito rápido. No começo, a trilha tem várias subidas e descidas, mas nada muito difícil. A cobertura das árvores protegia do vento, mas o dia ainda estava nublado e fazia frio. Minha primeira parada foi no mirante de um dos glaciares, com mais ou menos uma hora de caminhada. Eu nunca tinha visto um glaciar antes, com gelo azul! Pena que minha camerazinha de celular não faz jus à beleza do lugar…

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No meio do caminho havia uma geleira, havia uma geleira no meio do caminho.

Continuando, logo se chega a uma parte reta e aberta com lindas vistas do Fitz Roy e, um pouco mais à frente, depois que você cruza rio (que tal colocar os pés na água pra refrescar?) e passa por um camping, vem a parte difícil. O último quilômetro de trilha, independentemente de qual delas você escolha, é uma pirambeira de dar medo. A subida começa de leve, mas vai se inclinando cada vez mais, até que chega um ponto em que você está praticamente escalando as pedras do caminho – mãos no chão e tudo.

Não foi fácil. Minhas panturrilhas queimavam, meus joelhos doíam, minha cabeça latejava não sei por quê. Era cansaço, sede, fome? A verdade é que eu não sentia nada, só minhas pernas. Não, não foi fácil – mas também não foi impossível e essa é a vantagem de se fazer a trilha sozinha. Eu fui bem devagar, um passinho de cada vez, parando a cada dez minutos pra sentar ou dar uma ajeitada na mochila. Custou, mas eu cheguei. Péra. Não, não cheguei.

Depois da pirambeira maior, tem um pirambeirinha júnior só pra te desanimar. Mas depois dessa, aí sim! Agora eu cheguei.

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Quase lá, só mais um pouquinho.

Sim, eu cheguei, e se eu pudesse, eu ficava.

Se o Fitz Roy é apaixonante de longe, você pode imaginar como ele é de perto. A Laguna de Los Três parecendo um tapete verdinho, a neve, as montanhas de pedra lá em cima. Eu nem sei descrever o tanto que é bonito, toma uma foto pra ajudar (da minha câmera fodida, não se esqueça) .

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Sem palavras.

Fiquei lá em cima pouco menos de uma hora e foi difícil me convencer a ir embora, mas a volta foi bem mais fácil do que eu imaginava. Depois da mega descida, os próximos 5 km são mais ou menos planos e a vista continua sempre maravilhosa. Aqui vai uma dica pra quem está ainda mais fora de forma do que eu, tem problemas de saúde ou simplesmente não topa subir pirambeiras: vale à pena ir ao parque e fazer o trajeto sem subir até a Laguna de Los Três. É tão lindo quanto e bem mais fácil, sem contar que existem várias outras coisas pra se ver no caminho.

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Não precisa fazer a trilha toda pra curtir o parque. Olha essa vista!

Bom, como eu ia dizendo, a volta não é difícil. Vamos que vamos, devagar e sempre – com muitas paradas convenientes pra tirar fotos e uma visita à Laguna Capri (que é absurdamente sem graça, pode pular). Uma descida de 4 km na poeira e pronto: cheguei à entrada do parque.

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Na entrada do parque eles explicam tudo direitinho, pra você saber a encrenca que está entrando.

Não acredito que saí viva e inteira. Sério, quando eu vi que ia ter que fazer 18 km de trilha, pirambeira incluída, eu fiquei com medo. Achei que ia pedir resgate aéreo no meio do caminho. Mas eu consegui, e se eu consegui qualquer um consegue.

Fui chegar ao hostel depois das 4 da tarde: cansada, suada, doída, coberta de poeira da cabeça aos pés… Mas feliz – e mais apaixonada do que nunca.