Vindo de um país que ainda está começando a se aventurar para além de suas próprias fronteiras, nós ainda temos muito que aprender.

Gente legal e gente chata tem em todo lugar do mundo, isso é fato. Mas, com o tempo, você vai percebendo que “prefere” certas nacionalidades – é como se o país inteiro tivesse um tipo de personalidade que combina mais com a sua. Eu, por exemplo, adoro os alemães! Me falou que é alemão, já virou amigo. Por outro lado, não me dou muito bem com os israelenses. Não é nada pessoal, é só uma questão de experiência. E, é claro, sempre tem exceções: a Anya é uma das pessoas mais fofas que eu já conheci na vida, e é israelense. Em compensação, eu já contei pra vocês do alemãozinho sem noção que malhava pelado no meu dormitório. Nunca dá pra generalizar…

Agora, quando o assunto é Brasil, eu fico mesmo em cima do muro. Vocês sabem que eu já conheci brasileiros maravilhosos pelo mundo afora, mas também já topei com turminhas bem desagradáveis. E sempre que encontro um pessoal com quem não me dou bem, fico dividida. Por um lado, que bom que eles estão viajando! Nós brasileiros temos mesmo que viajar mais, conhecer outros lugares, outras culturas, abrir a cabeça. Por outro lado, parte de mim quer fingir que eu falo outra língua, abaixar a cabeça e passar reto.

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É meu último dia em Bariloche, cedo de manhã, e estou aproveitando o confortabilíssimo sofá da sala do hostel pra trabalhar. Ele chega com duas cervejas na mão – uma já aberta – e se senta ao meu lado. Percebo pela bagagem ao lado que deve estar indo embora em breve.

Brasileiro.

Começamos a conversa com as mesmas perguntas de sempre: de onde você é, de onde veio, pra onde vai, está viajando a quanto tempo…  Eventualmente chegamos a um assunto que, nessa região da América do Sul, também já virou popular: como as coisas são estão caras por aqui!

De fato, se você está procurando uma viagem barata, pule a Argentina (e não se esqueça de olhar a data do post, vai que a essa altura as coisas mudaram). Eu estou gastando aqui o mesmo que costumo gastar em uma viagem à Europa – e isso cozinhando em hostel, andando muito a pé e escolhendo bem os passeios. Sem contar que os caixas automáticos liberam pouquíssimo dinheiro por vez e te cobram uma taxa de quase 5% (quando você encontra um caixa que funciona). É, não está fácil. Mas imprevistos fazem parte de qualquer viagem e quem tá na chuva é pra se molhar: vamos apertar o cinto e continuar em frente! Eu estou curtindo e pronto.

Ele não, está revoltado. Acha um absurdo. Odeia a Argentina.

Hein? Como isso é possível?

Isso mesmo, odeia. Não gosta das pessoas nem da comida, acha tudo caro demais, sujo, feio… Se um dia ele voltar, vai ser só pra mostrar a cidade pra alguém e ficar de novo no hostel. Do hostel ele gosta.

Mas você chegou tem quanto tempo mesmo? Já visitou onde mais?

Só fiquei aqui mesmo, cheguei a três dias.

Ah, mas três dias em uma única cidade não são o suficiente pra se julgar um país desse tamanho! Ainda mais que estamos numa região muito turística, aqui não serve de base.

Talvez… mas essa Bariloche? Uma merda, não gostei. Sabe do que eu gostei? Do Chile! O Chile sim, que país maravilhoso! O Chile é o primeiro mundo na América do Sul.

É, o Chile é bom mesmo, eu também gostei muito… Mas a Argentina tem passado por uma crise longa e grave, né? E agora com esse presidente novo tem muita coisa mudando, não sei se pra melhor ou pra pior. Aliás, a América do Sul inteira está em crise!

Ah, o Brasil pode até estar em crise, mas não é tão ruim quanto a Argentina.

O que? Eles tem muito menos pobreza do que nós, muito menos gente vivendo nas ruas. Aqui é mais seguro, é mais limpo, tem menos desigualdade… Não me leve a mal, o Brasil tem sim muita coisa boa, mas aqui tem também! As paisagens são maravilhosas, as pessoas são  educadas – mesmo que um pouco arrogantes -, a arquitetura é diferente…

Tá, mas você viu algum carro importado na rua aqui? Não tem! Não tem uma Mercedes, uma BMW… só carro velho. Nem sei como eles conseguem dirigir nessas subidas, com o carro caindo aos pedaços! Aliás, essa é outra coisa que não gosto aqui: esse tanto de morro.

Depois dessa, eu simplesmente resolvi admitir que nós dois somos pessoas muito diferentes e encerrar a conversa. Inventei uma desculpa, coloquei meus fones de ouvido e voltei ao trabalho. Claro que todo mundo tem o direito de não gostar de um país, mas quem se importa com a marca do carro que você vê na rua? Não é como se ele estivesse dirigindo mesmo…E o que ele esperava de uma cidade que fica no meio da cordilheira? Será que ele acha que o Brasil é uma planície gigante? Obviamente nunca foi à Minas Gerais: nossas ladeiras deixam esses morrinhos aqui no chinelo.

Alguns minutos depois ele me chama de novo.

Me desculpe atrapalhar, mas você já conhece mais a região e eu estou com umas dúvidas.

Claro, pode perguntar!

Eu estou indo de ônibus pra Santiago hoje e esse guia está falando que não pode entrar no Chile com nenhum produto de origem animal ou vegetal: fruta, verdura, carne, leite… Diz aqui que eles te dão uma multa enorme, é verdade?

Só se você tentar passar com alguma coisa escondida. Na aduana eles vão conferir a sua declaração de bagagem e, caso você tenha marcado algum produto animal ou vegetal, vão pedir pra ver o que é. Eu mesma tinha uma banana… eles simplesmente pegaram minha banana e pronto. Se eu tivesse tentado passar sem falar nada aí sim podia dar problema, porque eles abrem e escaneiam todas as malas, trazem até cães farejadores. Não tem como passar mesmo.

Falei, o Chile é que é desenvolvido! Aqui na Argentina eles não fazem nada disso, você pode entrar com qualquer coisa. Mas aqui, eu tenho uns temperos e ervas, será que passa?

Deve passar sim. Eles não ligam pra produtos industrializados e fechados.

Mas já está aberto, comprei no mercado.

Bom, então pergunta! Melhor ser sincero e mostrar pro fiscal. O máximo que vai acontecer é eles ficarem com seus temperos.

Eu não! Eu quero levar meus temperos! Vou esconder eles bem e tentar passar assim mesmo…

É, amigo, e você ainda acha que o problema é a Argentina.

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Eu escrevi esse post no domingo e parece que o universo me ouviu. Na segunda de manhã, no ônibus para El Chaltén, conheci uma gaúchinha que restaurou minha fé em nós brasileiros. Nem tudo está perdido.