Em uma pequena cidade do Chile, a oferta de um neo-zelandês pode mudar todos os meus planos.

E eis que eu vim parar no Chile.

O plano original era pegar um ônibus em Mendoza e ir direto para Bariloche (umas 20 horas de viagem), mas Santiago é muito perto e eu estava com tempo. Depois de uma semana em Santiago, passei mais três dias em Valparaíso. E depois de Valparaíso, vim para Pucón.

Pucón é uma cidadezinha que fica a uns 800km ao sul de Santiago, já chegando na região dos lagos. Ela é de colonização alemã, então você pode imaginar a carinha fofa que ela tem. Eu vim pra ficar quatro dias, mas já sabendo que ia estender minha estadia – várias pessoas que conheci em Santiago me falaram pra passar pelo menos uma semana aqui.

E não é por menos: tem coisa demais pra se fazer em Pucón! A região é cercada por lagos, rios, cachoeiras, montanhas, parques nacionais e afins. Ah, e não vamos nos esquecer da estrela da festa, o vulcão Villarrica que fica logo ali do lado, sempre espreitando com seu chapeuzinho de neve.

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Casinhas de madeira, alamedas arborizadas e um vulcão de sentinela: Pucón parece de mentira.

Com essa diversidade toda, Pucón acaba sendo um paraíso pra quem, como eu, gosta de esportes de aventura e atividades ao ar livre. Rafting, canyoning, hydrospeed, trekking, escalada, cavalgada, kayaking, paraquedismo, paragliding… tem de tudo. Até escalar o vulcão você pode, com direito a um “esqui-bunda” na neve na hora de descer. E depois disso tudo, você pode passar um dia relaxando nas fontes termais. Ou então deitar na praia (de lago) pra tomar um sol. Sério, esse lugar é simplesmente perfeito.

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Que tal fazer hydrospeed no Rio Tremuco? É basicamente bodyboard rio abaixo, super divertido! (Foto do Youri)
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Ou uma cavalgada pela floresta com vistas maravilhosas dos vulcões? (o Villarrica é o principal mas tem outros)
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Você pode passar um dia tomando sol na praia…
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… ou ficar de molho em uma das muitas termas da região – recomendo a Geométricas, é longe mas vale à pena.

Então aqui estou eu, passando meus agora oito dias na cidade. Talvez oito dias seja muito pra quem está passeando, mas eu estou tentando levar uma vida normal enquanto viajo. Eu faço compras e cozinho todos os dias, eu saio para correr ou fazer ioga, eu trabalho muito… Não que eu me importe, a vista do meu “escritório” é maravilhosa!

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Trabalhando noite à dentro, mas a vista da janela me anima.

Foi numa dessas longas sessões de trabalho que eu conheci o James, dono do hostel onde estou ficando (anota aí: Chili Kiwi, muito muito bom). Ele estava na recepção enquanto eu escrevia sentada num puffe; vários outros funcionários estavam por perto e eu mais falava com eles do que fazia minhas traduções.

Depois de um tempinho de papo furado, o James me pergunta: “você não quer vir trabalhar aqui?”

Hein?

Estamos precisando de um brasileiro na equipe, que seja bom de inglês  – vocês são melhores no espanhol e daqui a pouco, quando começar a nevar, a cidade vai encher de brasileiros. Você é extrovertida, amigável, parece ser inteligente, se dá bem com o resto do pessoal… não quer trabalhar aqui? Estou procurandoalguém pra começar em abril.

Você tá falando sério?

Sim, claro! Você vai ter seu próprio quarto e pode fazer todos os passeios de graça; além disso você ganha desconto no bar e geralmente nós fazemos compras e cozinhamos todos juntos. O salário não é dos melhores, 200.000 pesos por mês (algo em torno de R$1.100,00), mas o trabalho não é difícil: são três turnos de 9 horas mais quatro turnos de 6 horas. Parece muito, mas na baixa temporada você vai ter bastante tempo à toa na recepção. Dá até pra continuar traduzindo! O pessoal gasta pouco aqui e consegue juntar um dinheirinho bom. Estamos precisando de alguém por três meses, entre abril e julho, que tal?

Ah, vou pensar e te aviso.

Ótimo.

Isso foi a dias atrás e eu ainda estou aqui pensando.

Já perguntei pra todas as pessoas que encontrei pela frente e todas me falam a mesma coisa: se eu fosse você, já estaria na recepção treinando.

É, de fato, porque não? Eu poderia juntar uma graninha, e morando numa cidade linda no Chile!

Mas e se o trabalho for um saco?

Eu posso me divertir fazendo todos os passeios de graça!

Daqui a pouco vai estar frio demais pra fazer qualquer coisa.

Mas aí vai nevar, e eu posso aprender esqui, snowboarding…

Você esqueceu que odeia neve e frio? Vai aguentar três meses trancada num hostel com o mesmo povo?

Eu posso estudar espanhol.

Você também pode estudar espanhol no México, lembra que você ia pro México em maio?

Eu posso ir depois.

Sim, mas você ainda tem que voltar pra casa antes e vai ser uma correria do inferno pra estar de volta aqui em abril – sem contar no gasto com passagem, a graninha que você ia juntar não vai adiantar de nada.

Dá pra fazer, não tem erro.

Pensa no seu namorado, quando você vai ver ele?

Ele pode vir aqui visitar!

E torrar um mega dinheiro que ele não tem com hospedagem e tudo o mais? É uma ideia de jerico, vai avacalhar todos os planos que você já tinha feito.

É uma oportunidade ótima, eu devia aproveitar.

Na dúvida, não ultrapasse.

Só estou com um pouco de medo, é normal. Eu quero morar aqui.

Você quer é ir morar no México, numa praia tropical, onde você pode mergulhar e comer burritos todo dia.

Tenho que decidir, e agora?

Às vezes não é fácil morar na minha cabeça.