Fazer amigos é ótimo. Mas melhor ainda é mantê-los.

Então aqui estou eu na Argentina. Como eu já tinha falado, comecei minha viagem por Córdoba e logo no primeiro dia já conheci um pessoal foda no hostel. Mas foda mesmo! Pessoas que você quer colocar no bolso e levar pra casa… Só que em dois dias todo mundo foi embora e, por alguma coincidência estranha do universo, a partir daí só chegaram homens. Passei quase a semana inteira nadando em testosterona. Não me leve a mal, homens são ótimos… mas quer saber? Mulheres também são e elas me fazem falta.

Foi no meu último dia, eu já quase indo embora, quando a Liza chegou. Uma holandesa fofíssima. Conversa vai, conversa vem; jantar vai, jantar vem; cerveja vai, cerveja vem; e pronto: melhores amigas.

Ah, que pena você ir embora justo hoje! Pra onde?

Mendoza.

Ótimo, eu vou pra lá amanhã a noite.

Aonde você vai ficar?

Hostel Mora.

Eu também, nos vemos lá.

Ela chegou um dia depois de mim. Café da manhã, passeio pela cidade, compras, almoço… de tarde ela foi descansar da viagem e eu tinha marcado uma cavalgada com uma horda de ingleses. Depois dos cavalos veio o jantar, que por aqui geralmente consiste em montes de carnes e montes ainda maiores de vinho. Vai aqui um conselho bem óbvio: pelo bem da sua consciência e do seu fígado, não tente acompanhar os britânicos na bebida. Muito menos os eslavos! Sério, esse povo tem anos de treinamento, nós simplesmente não podemos competir…

Enfim, some-se ao vinho mais algumas cervejas e quando finalmente resolvemos voltar, lá pras onze da noite, já estava todo mundo bêbado.

Ah, então vamos sair!

Péra, se a gente vai sair eu quero trocar de roupa…

Não, não fui eu quem disse isso. Foi um dos meninos que, por coincidência, não só era do meu hostel como também do meu quarto. E lá fomos nós entrando, fazendo um barulho danado, acendendo as luzes. Coitado do pessoal que estava dormindo! Vida de hostel às vezes não é fácil, mas mochileiros bêbados não querem nem saber. Não se preocupem que meu carma já me alcançou e eu já paguei por essa sapequice.

Liza, levanta que a gente vai sair.

Pra onde?

Não faço ideia, anda! Levanta dessa cama, troca de roupa e vamos embora.

Ok!

De fato, eu não fazia ideia e ainda não faço. Era um bar? Era um hostel? Era algum lugar com meses e cerveja… e nós bebemos e conversamos e conhecemos montes de pessoas cujo nome eu não me lembro. Fomos voltar pro hostel só de madrugada, correndo em meio a um dilúvio – isso porque, em teoria, Mendoza é um deserto e só chove uns dez dias por ano. Parece que pegamos um desses dias e fomos dormir encharcados até os ossos.

Um dia de preguiça para recuperar da noite anterior (e, no meu caso, trabalhar), e no dia seguinte eu Liza fomos fazer o passeio pelas montanhas até o Chile. Lindíssimo, sim, mas se você já vai pra Santiago de qualquer forma, economize um dinheiro e aproveite a vista durante a sua viagem. Se bem que eu não me importei de ver as montanhas duas vezes. Acho que nem me importaria de vê-las todos os dias…

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A estrada para o Chile através da Cordilheira é linda…

Foram 12 horas de passeio. Eu e Liza chegamos àquele ponto da amizade em que você está contando os problemas que tem com o namorado, os planos de carreira, as crises existenciais… O tipo de conversa que você muitas vezes sequer tem com os amigos de infância. E nós nos conhecíamos a quatro dias.

E pronto, acabou.

No dia seguinte ela foi embora cedo e eu nem vi. Não trocamos, facebook, e-mail ou telefone. Provavelmente nunca mais vou vê-la e agora estou aqui, de coraçãozinho partido.

É muito masoquismo, mas é a vida de quem viaja. Você faz amigos novos todos os dias, constrói uma família inteira à sua volta, cria intimidade, compartilha montes de momentos inesquecíveis… e depois tchau, benção, até nunca mais. É sempre difícil, eu nunca me acostumo.

E eu sempre faço de novo.

Tá certo que hoje em dia, com as redes sociais, é bem mais fácil manter contato. Mas eu sou tão toupeira, eu nunca adiciono ninguém. É uma coisa que ainda tenho que aprender a fazer – que nem tirar fotos! Tenho que me forçar a trocar contatos com as pessoas e a tirar fotos, me ajudem a lembrar.

Agora, vamos combinar que só adicionar no facebook ou trocar e-mail nunca segurou a amizade de ninguém. Quantos amigos você tem aí nas redes sociais que não são amigos coisa nenhuma? São só um monte de cabecinhas que você vê de vez em quando no seu feed… Quantas dessas cabecinhas você pode de fato chamar pra uma cerveja à toa e falar da vida?

É um pouco por isso que eu não saio adicionando todo mundo… aumentar número de cabecinhas não adianta, adianta fazer amigos de verdade. Amigos que você sabe que pode visitar e conversar e ficar a vontade, como se não houvesse distância, como se vocês tivessem se visto ontem.

Então apesar de eu ter começado esse post como uma homenagem à minha querida Liza, eu vou mudar um pouquinho de rumo agora. Esse post é sim pra Liza, mas é também pra Carol. É pro Scott, pra Sofie, pro Sjoerd e pra Camilla. É pra Ingrid, pro Vaughan, pro Ivan. É pra Megan. É pro Felix.

É pra todos aqueles que me acompanharam em alguma parte das minhas aventuras e que, apesar de terem ido embora para suas cidades e países, continuam na minha vida de alguma forma. Talvez eu nunca mais veja nenhum deles, vai saber! Mas hoje são meus amigos, são importantes para mim e são a melhor parte da viagem.