Que diferença faz viajar com tempo de sobra.

Finalmente, chegou o dia. O blog já está com sete meses de idade, eu já fiz três viagens grandes desde que voltei da Ásia (e não escrevi sobre nenhuma delas ainda, que vergonha!), mas agora estou na Argentina e tenho que escrever ao longo do caminho senão o blog morre por dois meses. É meu primeiro post in loco, é um dos motivos pelos quais o blog nasceu – pra poder contar minhas aventuras enquanto elas acontecem, pra dar notícias em tempo real à família e aos amigos que estão sempre me cobrando (com razão, eu mal mando mensagem de whatsapp).

Mas adivinha só? Agora que estou aqui, não tem aventura nenhuma. Pelo menos não por enquanto… Minha viagem de Belo Horizonte até Córdoba exigiu um pouco de cara de pau e ajuda de alguns estranhos, mas nada digno de nota. A cidade é super agradável e tem montes de coisas legais pra se fazer, mas não merece um post inteiro – mesmo porque a intenção do blog não é ser guia turístico. Tive alguns problemas chatos com o hostel, mas não foi grave. Enchi a cara de empanadas, fiz aula de tango e conheci montes de pessoas absolutamente maravilhosas (um viva para todos os mochileiros desse mundo, sério).

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Córdoba é muito lindinha, eu recomendo.

Em resumo, minha primeira semana de Argentina foi normal. Ótimas pessoas, ótimas experiências, tudo muito bem obrigada. Normal. Quer saber? Eu acho que a culpa é do meu excesso de tempo.

Bom, excesso de tempo em termos. A verdade é que nunca dá tempo de fazer tudo que você quer durante uma viagem, mesmo que você tenha meses ou até anos. Quantas pessoas sequer conhecem a própria cidade? É impossível esgotar um lugar, seja ele qual for. Mas existe uma diferença enorme entre o que eu fiz na Ásia (quatro países em um mês, gente, pra que isso?) e o que estou fazendo agora.

Tenho dois meses, quero passear na Argentina, pronto. Gastei uma semana em Córdoba, tive tempo de me familiarizar com a cidade e planejar meus próximos passos, estou diminuindo as chances de algo muito fora do comum acontecer – e pretendo continuar assim pelo resto do caminho.

Mas se você tem dois meses inteiros, porque não sai conhecendo Chile, Bolívia, Paraguai, Uruguai… É tão perto! Ou então que gastasse dois meses na Europa, onde tudo é apertadinho e você pode visitar um monte de país! Dois meses inteiros na Argentina é exagero, não?

Bem, eu costumava pensar assim também – acho que a maioria dos brasileiros pensa. As férias são curtas, você já vai conseguir sair do país (o que não é fácil, num país com o tamanho e os custos do Brasil), então aproveita de uma vez e tenta ver o máximo de outros países que conseguir.

E daí que eu passei só quatro dias em Budapeste? Agora eu posso dizer que conheço a Hungria… mas conheço mesmo? Passar quatro dias corridos numa capital é o suficiente para experimentar todo um país? Você diria que um gringo que passou quatro dias visitando atração turística no Rio conhece o Brasil? É claro que não!

Mas é muito difícil sair dessa vida de turista apressado. Eu mesma demorei aí quase 30 anos (e quase 30 países). E não tem nada errado em querer conhecer muita coisa em pouco tempo, mas eu pessoalmente acho bom ter mudado. Estou curtindo viajar com tempo, planejar com calma, cansar de um lugar antes de ir pro próximo – e por “lugar” eu quero dizer cidade, vila, ilha. Não país. Acumular país na base da pressa perdeu a importância pra mim, cobrir um monte de pontos turísticos também. E tour em grupo, nunca mais! Pelo menos enquanto eu tiver ânimo de ir sozinha.

Meus primeiros dois meses na Ásia foram com um tour porque eu estava morrendo de medo de ir sozinha para tão longe. E o tour tem sim suas vantagens: te dá uma segurança enorme, você não precisa planejar nada, tem sempre gente conhecida por perto (inclusive um tour leader que é responsável por você) e dá pra cobrir muito espaço em pouco tempo. Bom, né?

Não pra mim. Adorou a cidade e quer ficar mais? Com o tour não pode. Conheceu um povo ótimo e quer ir com eles? Com o tour não pode. Você mal pode sair pra jantar em um lugar diferente, ou escolher outro passeio – o pessoal do tour reclama. Não, definitivamente não é pra mim. Depois de acabado o meu tour na Ásia, eu passei quatro meses por conta própria, e a vida era outra. Muito mais livre, muito mais espontânea, muito melhor.

Foi uma lição importante que aprendi sobre mim mesma.

Então agora não sou eu que vou espremer meu próprio tempo. Vamos devagar que eventualmente as aventuras aparecem. Querendo ou não, elas sempre aparecem.