Pessoas boas existem em todos os lugares e aparecem quando a gente menos espera – e mais precisa.

Amigos viajantes brasileiros, me respondam uma coisa por favor: qual é a pergunta mais chata que os estrangeiros costumam te fazer a respeito do Brasil? Na Ásia, o que eu mais ouvia era: “você está com calor? Mas você não é do Brasil?” Sim, sou. Você já viu o tamanho do Brasil? Você acha que o país inteiro é de floresta tropical quente e chuvosa? Nós podemos não ter frio e neve, mas isso não significa que eu cresci na sauna de 37 graus que às vezes era a Ásia… E mesmo que tivesse, eu sinto calor, uai! Que coisa, gente, me deixa.

Mas estou só desabafando… É normal né, encontrar pessoas que presumem um monte de bobagens a respeito do seu país. E às vezes a gente presume um monte de bobagens a respeito do país dos outros também, faz parte. Por isso tem que viajar: ir lá e ver com os próprios olhos, aprender como as coisas funcionam com base na experiência.

Agora vamos combinar: falar do clima pode até encher o saco, mas é inofensivo. O que realmente me incomodava era quando vinham me falar de como o Brasil é violento. Isso sem nunca ter posto o pé aqui. E os assaltos? E as drogas? E os assassinatos? Como você vive em lugar assim?

Vivo muito bem, obrigada. Com um pouco de cuidado o Brasil é um país como qualquer outro (tá, não é não; mas eu me recuso a admitir isso na cara de alguém que já vem falando mal do meu país antes de sequer saber meu nome).

Nossa, mas então nunca te aconteceu nada?

Ah, já fui roubada uma vez.

Que horror! Eu sabia que era violento!

Não, não. Eu fui roubada na Europa, não no Brasil.

Sério?

Sim.

Irônico, não? África, Ásia, América do Sul… e a única vez que jamais me roubaram foi na Espanha.

Foi em dezembro de 2009. Eu tinha ido visitar um amigo que morava em Barcelona e depois ia aproveitar para passear um pouco pelo país. Cheguei tarde da noite, depois de três horas de atraso no voo, e lá fui toda empolgada. Do aeroporto é muito fácil pegar o ônibus que leva à Praça Catalunya, a principal da cidade, mas depois disso eu resolvi ser mão de vaca e pegar outro ônibus ao invés de pular num táxi. Nunca mais. Não sabe onde está indo? Está sozinho? Gasta um pouquinho a mais a pega um táxi, sério mesmo. Senão corre o risco de passar aperto que nem eu.

Enfim, lá fui eu rua abaixo procurando o ponto de ônibus, tudo vazio e eu com uma mala e uma mochila na mão. Fui ainda mais descuidada do que você deve estar imaginando: estou na Europa, pra quê usar doleira? Todos os documentos, cartões,  dinheiro,  telefone, TUDO dentro da mochila. E foi justamente o que levaram. Taí a outra dica óbvia: não coloque tudo que você tem em um mesmo lugar. Se te roubarem (ou se você for toupeira o suficiente pra esquecer tudo pra trás) pelo menos você tem alguma coisinha – uma graninha ou um cartão já ajudam muito…

Bom, então lá estou eu sozinha em Barcelona. Um homem se aproximou e começou a falar comigo em catalão (que, ao contrário do espanhol, é completamente incompreensível para nós brasileiros). Não sei de onde veio o outro, mas de repente alguém jogou uma bebida no meu cabelo – alguma coisa viscosa, tipo um milk shake. Eu já tinha ouvido falar nos roubos na Espanha em que te jogavam ketchup ou qualquer coisa do gênero pra te distrair, mas na hora nem pensei nisso. Quando levantei a mão pra sentir o que tinham jogado em mim, a outra mão agarrada na mala, eles puxaram minha mochila e saíram correndo.

Eu não tinha como seguir eles, nem largando a mala ia conseguir alcançá-los. Demorei algum tempo pra entender o que realmente tinha acontecido, o quanto eu estava fodida, e, com as pernas bambas, decidi voltar para a praça Catalunya, onde eu poderia encontrar policiais ou pelo menos alguém que me ajudasse.

Mas quem disse? Eu já tinha saído muito do caminho, não sabia pra onde ir. Estava tarde, não tinha ninguém na rua. Eventualmente encontrei dois policias cujo desinteresse na minha estória só era menor do que a nossa dificuldade de comunicação. Procurei um telefone público mas depois de muitas tentativas, tive que admitir que não me lembrava de como ligar a cobrar pro Brasil… Vamos lembrar que isso foi antes da era dos smartphones e da onipresença do wifi.

Eu não tinha dinheiro, eu não tinha pra onde ir. De todos os apertos que já passei no exterior, esse foi o único que de fato me fez sentar no chão e chorar.

Fiquei lá no meio fio, chorando, chorando, chorando. Sem a menor ideia do que fazer ou pra onde ir. Com uma mala na mão que não continha nada mais do que roupas, e… e um papelinho no meu bolso. O que é isso? É o endereço do meu amigo, Antônio. A única coisa útil que me restou, um papel amassado dentro do casado. Era minha salvação.

Imediatamente me levantei e encontrei um táxi – o motorista era um senhor magrinho e já idoso, parecia meu avô só que de cavanhaque. Mostro o endereço e partimos. Tenho que explicar a ele que não tenho dinheiro comigo, mas meus amigos podem pagá-lo quando chegarmos lá. Fala inglês? Não. Fala espanhol? Não. Fala português? Não. Fala francês? Sim! Amém.

No meu francês horroroso de quem ainda só tinha estudado um ano, explico a ele que fui roubada e volto a chorar. Ele me oferece água e me ouve com paciência – eu tropeço nas línguas, misturando tudo. Quando chegamos, falo que vou subir rapidinho, pegar o dinheiro e já volto, mas ele recusa. Diz que foi uma corrida curta, que tem uma filha da minha idade e gostaria que fizessem o mesmo por ela.

Ele me ajuda com a mala, me dá um abraço de pai, e espera enquanto eu toco o interfone e entro no prédio. Sem lágrimas.

 

P.S: Eventualmente, outro anjo entrou nessa mesma estória. Depois de passar alguns dias vivendo de dinheiro emprestado dos meus amigos e enfrentando a burocracia ridícula da embaixada brasileira pra conseguir um documento provisório, um moço encontrou minha mochila, me achou na casa do Antônio e devolveu minhas coisas. É claro que os dois ladrões tinham levado muita coisa, mas recuperei meu passaporte, alguns objetos pessoais, e um pouco de fé na humanidade. Ah! E minha mochila, que viaja comigo até hoje.