Realizando um sonho antigo – e estranho.

O meu medo de tubarões só se equipara ao fascínio que sinto por eles. E quem me conhece ou está acompanhando o blog sabe que eu já mergulhei com tubarões de diversas espécies, várias vezes. E pretendo mergulhar muitas outras! Mas mesmo que cada a experiência seja única, nada se compara (ainda!) à primeira vez que vi um tubarão debaixo d’água. Por ter  sido a primeira vez, claro, mas mais importante: por ter sido um tubarão branco.

Eu estava passando umas semanas na Cidade do Cabo depois de uma tentativa frustrada de conhecer a Tanzânia e o Quênia e logo me familiarizei com os tradicionais passeios de Shark Cage Diving que te levam pra ver os tubarões brancos. Não precisa de certificado de mergulho nem nada, é só escorregar pra dentro da gaiola de ferro e esperar os bichões se aproximarem. Fácil demais né? Então vamos lá.

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Table Mountain vista a partir do Waterfront – dois cartões postais da lindíssima Cidade do Cabo.

Tem lugares bem próximos à Cidade do Cabo para se fazer Shark Cage Diving, as praias da própria cidade são cercadas de redes (pra evitar que um tubarãozinho curioso dê um susto nos banhistas), mas o meu passeio ia sair de Gansbaai, uma cidade ao sul – mais ou menos duas horas de viagem. Nem me atrevo a adivinhar o preço do passeio hoje em dia, mas me lembro que paguei 900 rands (uns R$300,00). Isso em 2007, viu gente!

A van me buscou às cinco da manhã, ainda no escuro, e à medida em que subíamos e descíamos montanhas rumo à Gansbaai, um dia horroroso foi nascendo. Sério, um dia de filme de terror! Frio, vento, chuva. Nuvens pretas rolavam baixas no céu. O tipo de dia que você quer ficar em casa, enrolada no cobertor, vendo filme – não num barco procurando tubarão.

Chegando em Gansbaai, passamos na agência para assinar uns papéis (“prometo não processar ninguém caso o tubarão resolva dar uma de estrela de Hollywood e comer metade do barco”), colocamos nossas roupas de neoprene, e de lá descemos a pé para o barco. É um barco normal, exceto pela gaiola humana à tiracolo, daquelas que a gente vê na semana do tubarão do Discovery Channel.

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Nossa agência…
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… e nossa gaiolinha de ver tubarão.

O destino final é Dyer Island, uma ilha lotada de focas onde os tubarões vêm se alimentar. E a navegação até lá não é das mais agradáveis – por motivos óbvios. Estamos no extremo sul da África, entre o Cabo da Boa Esperança e o Cabo das Agulhas, no encontro de dois oceanos. Ao clima já horroroso se somam ondas enormes. O barco dá cada solavanco que temos que nos agarrar à cordas nas paredes para não cair no chão. Logo quase todo mundo está ensopado e passando mal, não tem a menor graça… E olha que eu sou sou super adepta de barcos sacolejantes!

Quem não estava passando mal no caminho, começa a passar mal quando nos aproximamos da ilha. Você já sentiu o cheio de milhares de focas peludas empilhadas num punhado de rocha? Não queira, é de embrulhar o estômago de qualquer um. E a cereja do bolo é o fedor do peixe que a tripulação joga na água para atrair os tubarões. Óleo, sangue e pedaços de peixe. Sim, um genuíno programa de índio.

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Focas fedem. Muito. E tenho dito! (fonte: flickr.com/photos/davidstanleytravel/)

Em duplas as pessoas vão entrando na gaiola para ter seus 30 minutos com os tubarões, mas estamos com azar. Abril ainda não é alta temporada de tubarões brancos e a combinação de mar batido com o óleo jogado na água deixa a visibilidade péssima. Vejo barbatanas circulando os outros barcos e até algumas sombras que se aproximam do nosso, mas é só isso. Cada um que sai da gaiola tremendo de frio afirma não ter visto nada. Mas o bicho passou do seu lado! A gente viu aqui de cima! Bom, na água não dá pra ver nada.

É a parte que eles não mostram nos documentários, diz o capitão do barco. As horas de espera entediante até que alguma coisa aconteça. Os tubarões estão aí, tenho certeza; você não conseguiria nadar até a ilha sem ser atacado. Mas hoje não é mesmo nosso dia, acontece.

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Sim, eles estão lá, mas não perto o suficiente. (fonte: flickr.com/photos/africanbudgetsafaris/)

O dia avança e todo mundo já teve sua vez na água, exceto eu e mais um moço – brasileiro por sinal, do Rio Grande do Sul. Mas quando vamos nos preparar, o guia nos puxa pra uma conversa: olha, vocês pagaram como todo mundo e têm todo o direito de tentar ver os tubarões, mas eu não recomendo. Dez pessoas já foram e voltaram, nenhuma delas viu absolutamente nada.  A água está gelada e essa roupinha de neoprene não segura 14 graus. Se vocês quiserem entrar, vai ser só pra nadar em óleo de peixe e passar frio durante a volta. Já tentamos o suficiente, todo mundo está cansado, vamos embora?

Não, de jeito nenhum! Eu quero entrar. Não tanto pelos tubarões, que a essa altura eu já desisti de ver, mas porque estou passando muito mal. Resisti bravamente até agora, mas o balanço do barco, o cheiro do peixe e das focas, e a sufocante roupa de mergulho estão me matando. Preciso entrar na água, refrescar o corpo e molhar a cabeça, senão vou vomitar. Só cinco minutinhos, prometo, e aí podemos ir embora. Você vem, gaúcho?

Sim, vou.

O gaúcho desliza para a gaiola aberta e eu sigo logo atrás, com minha máscara e snorkel a postos. Entro bem devagar porque a água realmente não está nada agradável, mas ainda estou com metade do corpo pro lado de fora quando alguém da tripulação grita “go, go, go!”, empurra minha cabeça pra dentro d’água e fecha a tampa acima de nós.

Bem a tempo porque lá vem ela, rebolando pela água. Sei que é fêmea porque não tem cláspers. Um bicho incrivelmente gracioso e tranquilo – não dá a mínima pros pedaços de peixe boiando na superfície, mal presta atenção em nós dois, enjaulados, maravilhados olhando pra ela. É só mais um peixe. Sim, é um peixe enorme e dentuço, mas é só um peixe. Rodeia o barco algumas vezes, indo e vindo na água turva e, tão calma e silenciosamente quanto apareceu, vai embora.

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Debaixo d’água (e sem trilha sonora) a gente percebe que não é um monstro. É só mais um bicho vivendo a vida (fonte: flickr.com/photos/mlemos/)

Na euforia que se seguiu, eu mal prestei atenção no que aconteceu depois. Mas tem algumas coisas que ainda me lembro. Eu me lembro dos muitos palavrões que eu e o gaúcho trocamos aos berros quando subimos de volta ao barco (PUTAQUEOPARIUVOCÊVIUAQUILOCARALHOELERAENORME!). Me lembro do tempo melhorando e um lindo céu azul se abrindo – o universo em sintonia com meu humor. Me lembro que a volta na van foi muito rápida e que eu cheguei em casa cansada mas feliz.

E agora, quase 10 anos depois, eu me lembro como se fosse ontem da primeira vez que vi um tubarão debaixo d’água. O primeiro de muitos – e o meu preferido.