Gente legal existe em todos os lugares. E elas aparecem quando a gente mais precisa.

Uma das coisas mais complicadas a respeito de se viajar sozinha é que os probleminhas chatos do dia a dia ganham uma proporção completamente diferente. Sim, perder um documento de identidade é sempre ruim – mas normalmente tudo o que você tem que fazer é tirar uma tarde pra ir ao órgão responsável, enfrentar um pouco de burocracia, e pronto. Agora imagina perder um documento no exterior, onde não falam a sua língua, numa cidade que não tem consulado ou embaixada brasileira, sem amigos ou família pra te ajudar. É outro nível de problema…

O primeiro problema sério que tive durante uma viagem foi na Tanzânia. Eu tinha 21 anos, tranquei um semestre na faculdade e fui sozinha para a África; queria passar algumas semanas de turista na Tanzânia e no Quênia, e depois ia descer para a África do Sul pra fazer trabalho voluntário.

Mas mal cheguei e as coisas começaram a dar errado. Não sei como o país está agora, mas em 2007 e na baixa temporada a Tanzânia não era muito fácil de se visitar. Cheguei diretamente em Dar es Salaam, a principal e maior cidade do país, e passei horas no aeroporto só pra receber o visto. Quando finalmente consegui sair, tinha certeza que o motorista do hostel teria me deixado pra trás. Mas não, ele me esperava pacientemente (e em pé!) do lado de fora. Portas sempre trancadas e vidros sempre fechados, ele me disse. Eu sei que faz muito calor, mas uma moça branca e cristã como você não está segura andando sozinha por aqui.

Talvez fosse exagero dele, mas de qualquer forma eu não pretendia ficar sozinha: eu ia me juntar a um tour baratinho por duas semanas e brincar de safari. Era o sonho da minha vida! O Serengeti, o Massai Mara, as tribos locais, os animais selvagens… Tudo aquilo que eu cresci assistindo no Discovery Channel e agora estava ali, ao alcance dos meus dedos. Até que o universo – e a minha falta de planejamento – entraram no caminho.

Eu sabia que em vários países da África e Ásia não se aceitavam dólares impressos antes de 2000 (por causa do excesso de notas falsificadas), e ainda assim eu me fiz o favor de não conferir meu próprio dinheiro. Que tinha sido impresso antes de 2000. E ninguém, absolutamente ninguém, aceitava meus dólares. Eu passei três dias na cidade procurando casas de câmbio, bancos, doleiras… nada. Também não tinha como pedir ajuda a outros viajantes porque em abril, longe da alta temporada, a cidade estava vazia. Eu era a única alma viva no meu hostel. Mentira: eu, uma quantidade absurda de sapos barulhentíssimos, e montes de insetos estranhos que resistiam bravamente à sola da minha bota.

Bom, então se não tem dinheiro, usa o cartão de crédito né? Não. Ninguém tinha maquininha de cartão de crédito. O hostel não tinha, os bares e restaurantes não tinham, nenhuma loja ou mercado… E, pra fechar com chave de ouro, meu limite de saque era ridiculamente baixo – política do banco em caso de roubo ou perda do cartão em “certos países”. Então o pouco dinheiro que eu consegui sacar em três dia foi para pagar o hostel e fazer uma refeição. Sim, uma única refeição em três dias. Frango com batatas.

Quando chegou a hora de me juntar ao tour, eu já estava cansada e assustada. O guia me disse que o dinheiro era de fato um problema, mas que nós íamos dar um jeito. Como? Não sei, no caminho a gente vê. Mas agora eu estava com muito medo. Se na cidade grande meu dinheiro não vale e eu não consigo encontrar máquinas de cartão de crédito, como vai ser nas ilhas e vilas do interior? Não, eu não tinha coragem de ir, mesmo com a ajuda de um grupo.

Com lágrimas nos olhos, eu chamei meu amigo motorista e fui direto a uma loja da South African Airways. “Me coloquem no primeiro voo para a Cidade do Cabo, por favor.” E o primeiro voo era naquele mesmo dia, no final da tarde. Minha irmã, que já tinha morado na África do Sul, me arrumou um lugar pra ficar, e meu pai pagou pela passagem do Brasil.

Naquela época, o minúsculo aeroporto de Dar es Salaam não oferecia qualquer tipo de conforto ou entretenimento. Me restou sentar em um banco de madeira do lado de fora e esperar, sozinha e frustrada. E ali, naquele banco desconfortável de madeira, eu comecei a me arrepender. Será que eu devia ter tentado ir com excursão? Pelo menos tentado? Era minha viagem dos sonhos, eu estava com o tour pago, e agora eu jogava tudo fora porque estava com medo… Que tipo de aventureira era essa, que desistia no primeiro obstáculo?

E disso eu passei para o pensamento completamente oposto. Não, eu sequer deveria ter tentado. O que eu vim fazer aqui? O que é que eu estava pensando? O motorista do hostel tinha razão! Mulher, jovem, branca, cristã (ou pelo menos era assim que eles me viam, por causa do meu nome latino); sozinha no leste africano com uma mochila nas costas. E agora sem dinheiro e morrendo de fome. Eu só podia estar louca! Minha vontade era de sentar no chão e chorar. Ou pior, de comprar uma passagem e ir pra casa, desistir disso tudo…

E foi então que uma menina se aproximou e sentou ao meu lado, um enorme sorriso branco no bonito rosto negro. Quantos anos você tem?, ela pergunta, naquele sotaque carregado típico dos africanos.

21.

Eu também! De onde você é?

Do Brasil.

Nossa, que diferente! Nunca conheci ninguém do Brasil. Eu sou daqui mesmo… Você é casada?

Não, você é?

Eu também não… Sabe, estou ficando pra tia – todas as minhas amigas já se casaram.

Mas você é tão nova, não devia estar preocupada com isso.

É verdade, eu nem sei se quero me casar. Pra te falar a verdade, eu quero mesmo é estudar e ter uma carreira. O que você faz?

Eu estou na faculdade. Tirei uns meses pra viajar, mas não está dando muito certo por enquanto. E você?

Eu ajudo minha mãe com o trabalho de casa e cuido dos meus irmãos mais novos. Mas estou estudando e vou entrar na faculdade também. Vou ter meu trabalho, ganhar meu dinheiro, e viajar pelo mundo.

É um bom plano…

Sim, parece com o seu né? Você tem muita sorte de estar tão longe de casa, conhecendo coisas novas! Acho que nós poderíamos ser boas amigas… mas tenho que ir, meu pai está chamando. Boa sorte na viagem, tchau!

E com a mesma velocidade que tinha aparecido, a moça sumiu. E eu, com o coração mais leve e um pouco mais de coragem, peguei minha mochila e entrei no aeroporto.