Que tal uma gaveta vazia para começar o ano?

Ano passado eu passei a virada do ano em Chiang Mai, no norte da Tailândia. E não me leve a mal, Chiang Mai é linda, mas meu réveillon foi uma desgraça. Então não é essa estória que eu vou contar hoje. Minha estória hoje é bem mais simples.

Poucos dias antes do ano novo, no caminho entre Laos e Tailândia, nosso grupo parou em um templo budista. Era um templo muito simples, sem nenhum atrativo histórico ou arquitetônico – eu sequer sei dizer aonde ele fica -, e não havia ninguém por perto: nem monges, nem turistas, nada… mas não foi à toa que paramos justamente nesse templo.

Lá dentro, no local reservado para orações, havia um jogo budista que “prevê” seu futuro – algo como leitura de mãos ou búzios -, mas que você faz sozinho. Muito apropriado para um final de ano, então lá fomos nós.

O jogo (que se chama Kau Cim, agora descobri) é composto por dezenas de varetinhas de plástico, parecidas com palitos de picolé, cada uma marcada com um número, e um copo enorme de madeira. Você ajoelha no tapete de frente para uma imagem do buda, coloca as varetinhas dentro do copo, e sacode o copo até que caia uma única vareta – se cair mais de uma, você tem que começar de novo.

Aí você pega sua varetinha, olha o número, e vai num gaveteiro monstruoso que fica no fundo da sala. Lá você vai encontrar uma gaveta correspondente ao seu número, onde tem um papel com a sua previsão de futuro. É uma previsão estranhamente específica, que vale pra vida toda, não só para o ano novo.

A primeira da fila foi uma amiga canadense, que tirou uma bolada: você vai ser feliz, rica, bonita; tudo o que você fizer na vida vai sempre dar certo. Você vai ter uma carreira interessante e bem sucedida. Você vai ter uma família feliz e unida. Você vai ter uma morte tranquila daqui a muitos e muitos anos, cercada de pessoas que ama. Só coisas boas. Todas as coisas boas!

Em compensação, um inglês tirou todas as coisas ruins. Desgraça, sofrimento, dor. Cuidado com isso, cuidado com aquilo. Isso vai dar sempre errado, aquilo vai ser sempre ruim. Parecia uma tragédia grega o futuro dele, coitado.

E entre o futuro colorido da canadense e o futuro cinzento do inglês, havia tudo o mais que você pudesse imaginar. Futuros longos e bem descritos. Um a um, fomos tirando nossas varetas, pegando nossos papéis e lendo o que a vida reservava para nós de acordo com aquele templo budista.

A minha varetinha era a de número 19. Fui para o fundo da sala, abri minha gaveta e… estava vazia. Como assim, cadê meu futuro? Não tem. Abri outras gavetas, todas cheias de papelinhos numerados, mas não a 19. Para nós, do 19, o futuro estava vazio.

Tenho certeza que foi um engano. Talvez muita gente tenha tirado o 19 pouco antes de mim, talvez algum engraçadinho tenha resolvido fazer uma piada de mal gosto e roubou todos os 19, talvez os monges tenham se esquecido de repor os papéis daquela gaveta. Não sei.

Mas sei que gostei daquela previsão. O que é melhor do que um futuro em aberto? Um futuro que você pode escolher?

Eu não sou uma pessoa religiosa, não sou supersticiosa, não sou espiritual. Não acredito em muita coisa (pra não dizer que não acredito em nada), mas acredito que aquela gaveta vazia foi um bom sinal. Um sinal de que qualquer coisa podia acontecer.

Feliz ano novo e muitas gavetas vazias para todos nós.