Meu primeiro Natal em um país budista.

Eu não sou uma pessoa de Natal, nunca fui. Quando eu era pequena, sempre ficava triste com o final das aulas em dezembro (coisa de nerd, eu sei) e a correria de compras de fim de ano não me agradava (e ainda não agrada). Pra piorar, o clima em Belo Horizonte não combina nada com nossa noção importada de Natal – é muito quente e úmido. Neve? Renas? Pinheiros? E o que o papai noel está fazendo com esse tanto de roupa, meu Deus!

Não, não dá. Natal é uma coisa para ser apreciada no hemisfério norte, não no Brasil tropical.

Ainda assim, é bom reunir a família – ainda mais a minha, que está toda espalhada pelo país. E Natal não deixa de ser o feriado mais importante do ano só porque eu gosto mais da Páscoa ou do Carnaval. Então eu devo admitir que estava um pouquinho (só um pouquinho!) preocupada com o que seria do meu natal na Ásia.

Para felicidade geral da nação, eu estaria com um grupo. Sim, parte da minha viagem foi feita em forma de tour (arrependimento total, eu explico melhor depois) e eu estaria com o tour durante o Natal. Logo nos primeiros dias meu tour leader, Scott, explicou que passaríamos o Natal em Vang Vieng, no Laos. O país é budista mas ele tinha arrumado um pub irlandês com ceia, papai noel, presépio e tudo o mais. E que tal um amigo oculto? Ótimo! Vai ser lindo.

Qual então não foi minha surpresa quando, na manhã do dia 24, nós chegamos a Vientiane – a capital do Laos.

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Vientiane e sua linda arquitetura francesa

“Mas… mas… não íamos passar o Natal num pub irlandês em Vang Vieng?”

“Sim, vamos!”

“Então o que estamos fazendo na cidade errada?”

“Bom, o Natal é amanhã, né? Amanhã vamos pra Vang Vieng“.

Por essa eu não esperava. Esse povo comemora o Natal no dia “errado”! Passamos então o dia conhecendo a cidade (que a maioria das pessoas acha um tédio, mas eu adorei) e a noite jantamos em um restaurante laosiano comum. Salsichas ridiculamente apimentadas e arroz grudento de ceia de Natal pra mim.

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Tá, não é a cidade mais animada do mundo, mas Vientiane merece uns dois dias da sua viagem.

No dia seguinte cedo pegamos a van para Vang Vieng. O Laos é famoso por suas estradas horrorosas e viagens demoradas, mas acho que dei sorte – apenas algumas horas e chegamos ao nosso destino, ainda com tempo de visitar a lindíssima lagoa azul e passear pela pequena cidade.

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Que tal uma tarde de Natal preguiçando ao sol?
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Ou então apreciando uma singela vista do rio? Vang Vieng fica numa região desgraçada de bonita… (flickr.com/photos/princeroy)

A noite, finalmente, é hora da nossa ceia de Natal atrasada. Uma ceia bem americanóide, por sinal: peru, batatas, torta de maçã… e vinho! Nossa, a quanto tempo eu não tomava vinho! Não me leve a mal, a comida na Ásia costuma ser ótima, mas algumas coisas fazem falta. Tipo vinho.

Além da comida e da bebida, o pub estava decorado e tocando músicas natalinas, tinha um torneio engraçado de sinuca (que eu perdi na segunda rodada) e tinha nosso amigo oculto ladrão – aquele que você rouba o presente dos outros. O Dominic, um amigo australiano, acabou ficando com o livro que eu comprei (acho que ele não gostou muito, paciência) e eu dei sorte de ser a última a escolher: roubei um monte de chocolates que eram o presente do Scott. Taí outra coisa que me fazia falta: chocolate. Agora não mais.

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Nossa turminha se preparando pra roubar presentes

Barriga cheia, pé na areia – meu grupo não era dos mais animados então nosso Natal acabou cedo. Não teve comida de vó com uma cervejinha gelada. Não teve o samba animado que os primos fazem depois da ceia. Não teve família reunida trocando presentes.

Mas foi um Natal feliz entre amigos, e é isso que importa.