É isso. Agora eu tenho um gato meio morto em mãos. Então na manhã seguinte, enquanto o resto do pessoal se preparava pra escalar vulcões e visitar cachoeiras, eu resolvi sacrificar meu único dia em Manila em busca de um veterinário. Venha, pequeno Tom, nós vamos dar uma voltinha de triciclo pela cidade.

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Um tradicional triciclo filipino. Já dividi um desses com mais sete pessoas! (fonte: http://www.flickr.com/photos/beegee49/)

Nada de cachoeiras ou vulcões pra nós; nada de visita ao centro histórico ou de caminhar na beira da praia. Hoje nós vamos passar o dia ziguezagueando pelo trânsito, pedindo informações pra estranhos na rua, respirando fumaça e poeira… E depois de mais de uma hora procurando, nós vamos chegar ao nosso destino só pra descobrir que o endereço não existe. Desgraça de Google! O endereço não existe e não tem nenhum veterinário ou petshop por perto.

E agora? Agora o motorista do triciclo vai me levar em um veterinário que ele conhece, muito mais perto do hostel. Eu devia ter pensado nisso antes… Bom, pelo menos chegamos – e para minha sorte, a veterinária não só está livre como fala inglês muito bem.

E de acordo com ela o Tom está ótimo. Ele ainda é muito pequeno para tomar banho, então só ganha uma “sprayzada” anti-pulgas. Ele também não pode tomar vacinas ainda, mas ela me entrega um calendário de ímã com todas as datas importantes marcadas.

Péraí. Mas se ele está bem, por que não come? Porque você está dando a comida errada pra ele, jacú! Ele já é grande o suficiente pra comer ração molhada, não quer mais saber de leite. Tem um mercado grande aqui perto, vai lá comprar comida pra ele enquanto o anti-pulgas faz efeito.

Sim senhora.

E essa era a hora de ir embora. Essa era a hora de largar o Tom com a veterinária boazinha, que gosta de gatos e sabe como cuidar dele, e sumir. Mas não. Eu fiz minhas compras, voltei, acertei a conta, peguei o triciclo (que ficou me esperando esse tempo todo) e voltei pro hostel.

Por que eu devia ter deixado o gatinho pra trás, você deve estar se perguntando. Porque assim que eu voltei para o hostel com o pequeno, a funcionária ucraniana veio conversar comigo e basicamente falou que o gato ia ser botado pra fora assim que eu fosse embora. O Eldrich odeia gatos; tem medo. Ele está fingindo ser bonzinho e gentil, mas é só porque não quer queimar o filme com você e os outros hóspedes. Você tem que levar o Tom com você, senão ele vai voltar pra rua.

Bom, não posso levar um gato comigo. Não tenho espaço ou disposição pra isso – sem contar que nenhuma empresa de ônibus ou barco vai me aceitar com um gatinho barulhento a tiracolo. Então vamos fazer o seguinte: segura o gato aqui por um mês. Eu vou voltar mesmo, porque tenho um voo saindo de Manila; vou deixar claro pro Eldrich que venho ficar aqui pra ver meu gato. Assim ganhamos algum tempo, até ele crescer um pouquinho, e enquanto isso eu vou procurando um lugar pra ele ficar. Que tal?

Combinado.

Deixei um recado enorme no quadro de avisos, com fotos do Tom, pedindo aos hóspedes futuros que me ajudassem a cuidar dele – dando comida, limpando os olhinhos, cortando as unhas, ou só brincando com ele. Coloquei o calendário de vacinas dele na geladeira. Comprei um estoque de comida, potinhos, caixas, brinquedos e todo tipo de tranqueiras necessárias prum gatinho bebê. Conversei com meus amigos, expliquei a situação pra eles, e pedi para que espalhassem o recado: não deixem o Eldrich jogar meu gato na rua!

Pronto, minha parte está feita. E eu quero acreditar que funcionou. Quem sabe o Tom virou um mascote querido no hostel? Ou quem sabe ele pelo menos teve tempo de crescer e aprender a se virar sozinho, antes de ser colocado pra fora? Talvez outra pessoa tenha arrumado um lar pra ele! A verdade é que eu não sei.

No dia seguinte cedo de manhã, me despedi do meu pequeno e fui embora com a promessa de voltar pra salvá-lo mais uma vez. Mas nunca voltei. A última notícia que tive foi do Ivan, que me escreveu alguns dias depois, falando que o Tom estava bem, comendo bastante e brincando feliz. Eu cheguei a procurar organizações que pudessem me ajudar, coloquei fotos dele em sites de adoção, pedi conselhos para alguns filipinos que conheci no caminho (você quer um gatinho? conhece alguém que quer um gatinho? posso te arrumar um gatinho!).

Mas não havia mais nada a ser feito. Eu só podia deixar o Tom onde ele estava e torcer pra que ele ficasse bem.

Espero que ele esteja bem.