E a “maluca dos gatos” ataca de novo. Dessa vez, do outro lado do mundo.

Como eu já tinha falado antes, as Filipinas inicialmente não estavam no meu plano de viagem – eu só fui pra lá por causa da possibilidade de mergulhar com os tubarões baleia. Mas já que estamos aqui, vamos então conhecer o resto do país né! Começando pela capital, Manila.

Antes de chegar em Manila eu já tinha passado por várias capitais sul asiáticas: Hanói, Bangkok, Kuala Lumpur, Yangon… cada uma maior e mais bagunçada que a outra. Eu achei que já tinha visto de tudo; só que não. Nada podia ter me preparado pro caos que é Manila.  Pra começar, a cidade é um monstro: 19 milhões de habitantes. É a maior região metropolitana do sudeste asiático. O trânsito mal se mexe, as ruas são tomadas por barraquinhas e feiras, o barulho e a poluição deixam qualquer um tonto. É, Manila não causa uma boa primeira impressão.

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Manila, o caos na terra (fonte: flickr.com/photos/traveloriented/)

Mas estou sendo má; a cidade tem sim seus atrativos. Dizem que Malate, o bairro onde a maioria dos turistas se hospeda, é limpo e agradável, com prédios bonitos e uma calçadão à beira mar. Graças à colonização espanhola, a cidade tem vários monumentos históricos e igrejas, e pra quem curte sair a noite, Manila tem uma vida noturna famosíssima.

Mas infelizmente eu não posso falar sobre essas coisas boas porque não vi nenhuma delas. Alguém entrou no meu caminho.

Pois bem. Eu cheguei em Manila cedo de manhã depois de quase dois dias de viagem, vindo de Myanmar. Minha intenção era ficar na cidade também por dois dias – não é muito, mas também não pensei que fosse querer mais do que isso. Fui direto do aeroporto para o hostel, onde passei minha manhã cochilando num sofá –  o dono do hostel, Eldrich, não quis me deixar ir pro quarto pra eu não acordar os outros hóspedes. Onde já se viu! Pelo menos o sofá era confortável… quando minha cama finalmente foi liberada já era quase meio dia, então larguei minhas coisas no quarto, tomei um banho, e saí para almoçar.

Foi na metade do caminho de volta que eu ouvi. No meio de uma rua poeirenta, embaixo do sol escaldante. Aquele barulhinho tão familiar pra mim, agudo e desesperado: miu, miu, miu. Ai meu Deus, não faz isso comigo (miu, miu, miu), tem um gatinho chorando (miu, miu, miu), espero que esteja dentro da casa de alguém (miu, miu, miu), está vindo ali daquele lado (miu, miu, miu) e ali está ele, sozinho, estatelado atrás de um poste.

Miu?

Minúsculo, cabia na palma da minha mão. Barriga branca, costas rajadas de cinza e preto, os olhinhos azuis cobertos de remelas. Idêntico ao Jolie, meu gato*, quando chegou lá em casa ainda filhote. I-D-Ê-N-T-I-C-O. Peguei o gatinho, achei uma loja aberta e fui perguntar aos empregados se sabiam alguma coisa. Vocês viram se alguém largou ele aqui?  Viram alguma gata, ou outros filhotes? Será que ele fugiu de alguma casa?

Não, não, não; ninguém sabia de nada. E agora, o que eu faço? Preciso de ajuda. Com o coração apertado, coloquei o gatinho de volta atrás do poste e saí correndo para o hostel – e por sorte dei logo de cara com o Eldrich. Eldrich, eu achei um gatinho bebê no meio da rua, não sei o que fazer. Você conhece um veterinário? Uma ONG? Aqui tem Sociedade Protetora dos Animais? Qualquer lugar onde eu possa levar o bichinho, senão ele vai morrer!

Bom, tem um canil. Mas se você levar ele lá, vão só te cobrar uma taxa e sacrificar ele. Aqui nas Filipinas as pessoas não gostam de gatos, sabe; não é à toa que você achou um na rua. Porque você não trás ele pra cá? Outras meninas já trouxeram gatinhos uma vez e o casal de ucranianos que trabalha aqui gosta muito de gatos, eles podem te ajudar.

Nossa, sério mesmo? Posso trazer ele pro hostel?

Pode.

Saí correndo de volta, quatro andares de escada, três quarteirões rua abaixo, agora à esquerda, mas dois quarteirões… era por aqui. Ele vai estar aqui me esperando. Ninguém vai ter levado ele embora, nenhum carro vai ter atropelado ele, aimeudeuscadêogato: miu, miu, miu! Ufa. Ali no poste, bem onde eu deixei. O desgraçadinho sequer consegue andar, coitado. As pessoas da loja me observam enquanto eu pego o gatinho e dou meia volta pra ir embora. Devem pensar que sou doida.

Ele é pequenininho mas é atrevido: morde meus dedos e me ameaça com barulhos engraçados durante todo o caminho de volta. Chegando no hostel subo pro último andar, onde tem uma área aberta;  é aqui que ele vai morar por enquanto. Não demora até que uma pequeno grupo se junte em torno do gatinho, ninguém está entendendo nada. Como assim, você pegou um gato aleatório no meio da rua? Mas estou com sorte: além do casal de ucranianos, tem também um moço turco, o Ermet, que tem três gatos. Pelo menos não preciso cuidar desse pivete sozinha.

Arrumamos uma caixinha de papelão, onde eu coloco um vestido velho pra ele dormir, e uma tigelinha de água. Depois limpamos os olhinhos dele com chá morno – essa foi a ucraniana que me ensinou! Ainda preciso comprar comida e algodão pro bumbum – gatinhos pequenos não sabem fazer xixi sozinhos. Normalmente seria função da mãe lamber o bumbum dele pra estimular o xixi, mas eu não estou disposta a ir tão longe. Um algodão ou gaze devem dar conta do recado.

Vamos eu e o Ivan, um americano que está visitando amigos nas Filipinas – e eu juro, as pessoas dessa cidade não sabem o que é algodão! Foram dois mercados e três farmácias até a gente conseguir um pacote de lenços, uma seringa e comida de gato.

Mas o gatinho não come. O Ermet ajuda ele a fazer xixi e consegue empurrar uma seringa de leite na garganta dele, mas é só isso. Ele “xinga” todo mundo que tentar chegar perto, deve estar muito assustado. E ainda precisa de um nome! O Ivan pega o gatinho com uma mão e segura ele no alto, inspecionando a carinha dele. Tom. Ele tem cara de Tom.

Mas o gatinho não gostou. Na mesma hora ele solta um miado estridente e morde a mão do Ivan. Ah, mas agora é que você vai chamar Tom mesmo! Está decidido.

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Oi, eu sou o Tom!
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Olha minha carinha amassada.

Estou estressada com essa coisa de gato, então os meninos me convencem a deixar o Tom no hostel e sair com eles pra explorar a cidade. É uma aventura por um mar de barraquinhas de comida (que fazem meu estômago embrulhar) e produtos falsificados. O sistema de transporte é de dar  dó – em parte porque não funciona, em parte porque é tão ridiculamente barato que eu me pergunto como alguém pode viver com esse dinheiro.

Fazemos um tour pelo bairro muçulmano, onde obviamente não somos bem vindos, e depois passamos pela Igreja de San Sebastian. Nossa, a quanto tempo eu sequer via uma igreja…

Já é noite quando voltamos ao hostel, carregados de sorvete (a única coisa que tenho vontade de comer nesse calor infernal). Mas enquanto eu encho a cara de sorvete de flocos, o Tom continua sem comer e começo a ficar preocupada. Ele é muito quietinho e arisco: morde e arranha todo mundo, não quer colo, não quer brincar, fica enroladinho sozinho na caixa, respirando devagar. Será que ele está morrendo? Tenho que levar ele num veterinário urgentemente! Devia ter pensado nisso antes…

Mas agora não dá mais tempo. Amanhã, sem falta.

*Sim, eu tenho um gato macho que se chama Jolie. A gente achou que ele era menina e quando percebemos o erro já era tarde demais. Agora paciência.