Quer uma lembrancinha da sua viagem pela Tailândia? Eu tenho uma sugestão…

A Tailândia foi o primeiro e último país que visitei – entre idas e vindas, devo ter passado quase a metade do meu tempo de viagem lá. E mesmo para quem não está procurando (e eu não estava, a princípio), é impossível ignorar a quantidade absurda de estúdios de tatuagem que tem no país. Parece que todo mundo faz uma tatuagem quando vai lá! E não é por menos: são baratas, estão por todos os lados, são diferentes…

Então não demorou muito até eu mesma ser contagiada pela febre das tatuagens. Mas eu não queria escolher algo só pra ter uma tatuagem a mais. Não. Eu queria algo significativo – e eu tinha certeza que um dia, ao longo da viagem, ia dar de cara com o desenho perfeito.

Mas isso não me impediu de pesquisar, conversar com tatuadores e tatuados, visitar estúdios… foi assim que me deparei com a estória dos monges budistas que faziam tatuagens de graça. Hein? Sim, isso mesmo. Você vai ao templo e ganha uma tatuagem de graça, feita por um monge budista. Mas com uma condição: o monge escolhe o desenho e local da sua tatuagem. Bom, e se ele fizer um elefante na sua testa? Problema é seu, agora já era.

Ainda assim, eu gostaria de pelo menos dar uma olhada. Aonde é? Não sei. Como chama o templo? Não sei. Sabe de alguém que já fez? Não. Tem certeza que essa estória é verdade? Não. Mas assim não dá! Aposto que alguém inventou essa bobagem de monge tatuador só pra pegar uns bestas como eu, que acreditam em qualquer coisa. Lenda urbana, isso é o que.

Só que não.

Os meses passaram e a tatuagem ficou pra trás – eu não tinha me deparado com o desenho perfeito; não tinha encontrado aquela inspiração que, eu tinha certeza, viria eventualmente ao longo do caminho. Quando faltavam poucos dias para o fim da minha viagem, eu conheci o Félix. E ele tinha uma tatuagem  da Tailândia. Uma tatuagem linda, no alto das costas, diferente de qualquer coisa coisa que eu já tinha visto. Aonde você fez? Em um templo perto de Bangkok, com os monges. E é de graça ainda por cima!

Então era verdade. Eu devia ter pesquisado direito. Mas não tem problema, ainda me restavam quatro dias em Bangkok. Dava tempo. Então com as informações que o Félix me deu e uma ajudinha do sr. Google, lá fui eu em busca dos tais monges tatuadores.

Mas antes, um pouquinho de história! As Sak Yant existem a milhares de anos. Os soldados do império Khmer (Camboja) cobriam o corpo com tatuagens que lhes davam proteção durante as batalhas, e com o tempo o hábito se espalhou também para o Laos e a Tailândia. Hoje em dia, as Sak Yant só podem ser feitas por monges budistas treinados especificamente para isso – e o treinamento chega a durar anos.

Existem várias Sak Yant diferentes e cada uma tem seu nome, significado e função. Pelo que eu entendi, você não pode escolher sua tatuagem. O monge, olhando pra você e sentindo sua aura, vai escolher a que você precisa e o local onde fazê-la. Até aí os boatos eram verdade. O que ninguém tinha me falado é que as tatuagens são sempre feitas na região do tronco e braços, então nada de elefantes na testa pra mim. Ainda bem.

Só pra terminar, as Sak Yant são tradicionalmente feitas com uma longa vara de bambu, afilada na ponta. O monge molha a ponta numa tinta especial (feita, dentre outras coisas, de veneno de cobra) e vai fazendo o desenho pontinho por pontinho. Vários estúdios no sudeste asiático fazem tatuagens de bambu; em teoria elas doem menos, cicatrizam mais rápido e não precisam de tantos cuidados quanto as tatuagens feitas com máquina. Inclusive, se você quiser só o desenho da Sak Yank, sem toda essa firula de monge, pode fazer a tatuagem em um estúdio normal e pagar por ela. Uma tatuagem como qualquer outra. Mas fala sério, aí não tem graça nenhuma…

Vamos lá então. O templo mais famoso para se fazer uma Sak Yant na Tailândia é o Wat Bang Phra, que fica a pouco menos de 60km de Bangkok. O jeito rápido e caro de se chegar lá é pegando um táxi. O jeito barato e lento é pegando um ônibus na rodoviária e depois um moto-táxi que te leva até o templo.

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Wat Bang Phra, o mais famoso templo para se fazer uma Sak Yant (flickr.com/photos/126715913@N03/)

De qualquer forma, o ideal é chegar cedo. O mais cedo possível. Pensou cedo? Não, tem que ser antes disso. Em primeiro lugar porque gente da Tailândia inteira vem a esse templo pra fazer sua Sak Yant – você corre o risco de passar o dia inteiro esperando ou pior, ficar sem tatuagem nenhuma. Em segundo lugar, por causa da higiene. Apesar de os monges terem trocado a agulha de bambu por uma de metal, que é muito mais fácil de limpar, permanece o costume de se utilizar apenas uma agulha pra todo mundo. No tempo entre uma tatuagem e outra, o monge deixa a agulha mergulhada em álcool, mas desde quando álcool mata vírus da AIDS – ou um monte de outras coisas? 

O melhor que você faz então é tentar ser o primeiro da fila, porque a noite a agulha é propriamente esterilizada e aí sua tatuagem é feita com uma agulha limpinha de verdade. Pra garantir, é bom chegar antes das seis da manhã. Eu acordei às 5:00 e já estava atrasada. Saí correndo atrás de um táxi que me levasse à rodoviária, mas quando contei pro motorista que ia ao Wat Bang Phra ele me fez uma proposta: ida e volta por 1000 Baht. Na época isso não era nem R$80,00 – muito menos do que eu gastaria com uma tatuagem no Brasil. Aceitei e lá fomos nós, pela cidade vazia (era domingo, ainda por cima) até o enorme templo.

Ainda bem que eu tinha o taxista comigo porque chegando lá eu não tinha ideia do que fazer – e nenhuma das poucas pessoas no templo falava inglês. Procurei o local onde se fazem as tatuagens, estava fechado. E onde é que posso comprar as oferendas? Fechado também. Por essa eu não esperava: cheguei cedo demais! O jeito é esperar.

Aos poucos, outras pessoas foram chegando – inclusive um argentino – e fomos nos preparando para ganhar nossa Sak Yant. O primeiro passo é comprar as oferendas para dar ao “seu” monge: flores, incenso e cigarros (sim, cigarros). Também é bom adicionar um dinheirinho, uma gorjeta simbólica de agradecimento. Depois é só sentar e esperar sua vez. Sei que normalmente as tatuagens são feitas dentro de uma sala, mas talvez por causa do calor, ou porque era domingo, ficamos do lado de fora.

Oferendas
Oferendas

E lá vem o monge, todo tatuado, em suas vestes laranjas. Ele se senta numa poltrona de frente para nós e prepara seu material: as tatuagens são feitas assim, pra todo mundo ver. Tudo pronto e o primeiro tatuado do dia se adianta; ele já tem várias Sak Yant pelo corpo, não deve estar sentindo a metade do nervosismo que estou sentindo.

Porque sim, estou nervosa. Meu estômago revira e minhas mãos tremem. Estou com medo de ganhar um desenho tosco, estou com medo de doer demais. Mas tatuagens dão frio na barriga mesmo, vamos em frente. Em pouco tempo outro monge chega e começa a se preparar – esse está vestido de branco e é bem mais novinho. Uma moça sentada ao meu lado, que veio acompanhar a irmã (e talvez fazer uma também, ela ainda não decidiu) parece ler meus pensamentos e me pergunta: você tem preferência por algum desenho?

Sim, eu tenho. A essa altura já vi muitas Sak Yant e tenho uma preferida. Ela se chama Yant Paed Tidt e geralmente é desenhada na parte superior das costas, bem no meio. Não sei o que ela significa, mas é minha favorita.

Essa seria minha tatuagem de escolha (fonte: www.thetattobank.com)
Yant Paed Tidt, minha tatuagem de escolha (thetattobank.com)

“Espera. Eu posso escolher? Não é o monge que decide baseado na minha aura?”

“Ah, em teoria sim. Mas se você quiser muito alguma, a gente pode falar com ele”.

Tenho um momento de indecisão. Posso escolher!

Mas não é assim que funciona.

Mas eu posso escolher!

Mas não foi pra isso que você veio. Você veio pela experiência completa de ter uma tatuagem feita por um monge budista, e isso significa que ele escolhe. Ele sabe o que está fazendo, você não. Torce aí e fica quieta.

Decisão feita bem à tempo, porque é minha vez. Vou ser a primeira do monge de branco. Me ajoelho em frente a ele e faço minha oferenda, que ele aceita enquanto reza, nós dois segurando a cestinha ao mesmo tempo. Ele indica que devo me sentar de costas pra ele e, como sou mulher e o monge não pode me tocar, chama o argentino e um senhor tailandês para esticarem minha pele e segurarem minha blusa, que a essa altura já foi puxada pro alto até a nuca.

Confortável? Nem um pouco... foto do Félix, que teve a cara de pau de tirar uma foto com flash na cara de um dos monges mais famosos da Tailândia.
Confortável? Nem um pouco… a foto é do Félix, que teve a cara de pau de tirar uma foto com flash de um dos monges mais famosos da Tailândia.

A primeira picada e eu penso “olha, até que não é tão ruim”. Ao contrario da máquina, que rasga a pele, a sensação da tatuagem de bambu é de pancadinhas ardidas – muito rápidas e às vezes mais fortes do que eu gostaria. Mas com o tempo, vai piorando. Não vou mentir: dói sim. E bastante. Mas não é pior do que qualquer outra tatuagem que eu já tenha feito (o que não é grandes coisas, considerando que eu sempre me pergunto porque diabos estou naquela cadeira sendo torturada por um estranho).

O argentino tenta me distrair enquanto eu me faço de corajosa, com todos aqueles tailandeses me olhando. O monge está cutucando o alto das minhas costas, quase na nuca, e eu já sei qual tatuagem ele está fazendo: Gao Yord, uma das mais tradicionais e a mesma do Félix. Ganhei um tattoo buddy sem querer.

Gao Yord, ou os Nove Picos, representa uma montanha sagrada hindu de onde vieram todos os deuses. Ela trás proteção e boa sorte.

Minha tatuagem
Minha tatuagem. No começo os pontinhos descontínuos me incomodavam, mas agora acho que eles fazem parte do charme.

Em mais ou menos vinte minutos terminamos. O monge faz mais uma reza enquanto sopra minha tatuagem, assim ela ganha vida e começa a “funcionar”. Lindo! Mas para a tatuagem funcionar mesmo, você tem que seguir umas regrinhas – que variam de acordo com o mestre de cada templo. As regras de conduta do Wat Bang Phra são as seguintes:

  • Não coma carambola, abóbora ou qualquer vegetal semelhante.
  • Não seja amante de uma pessoa casada.
  • Nunca, sob hipótese alguma, diga calúnias sobre a mãe de alguém.
  • Não prove comida em um casamento, nem em um funeral.
  • Não coma restos.
  • Não passe por baixo de um varal.
  • Não passe por baixo de uma bananeira do tipo Thaanii.
  • Não se sente em uma urna de cerâmica.
  • Não deixe uma mulher se deitar ou se sentar em cima de você.
  • Não permita que um homem encoste na blusa ou na saia de uma mulher quando ela estiver menstruada.

É, senhores monges, vou ficar devendo! Espero que a tatuagem funcione por conta própria porque não dá pra fazer metade dessas coisas aí. Como vou saber qual é a bananeira do tipo Thaanii? Muito difícil…

Bom, tatuagem terminada e é hora de ir embora. Mas não antes de ver o que o argentino vai ganhar. Ele já tem as costas completamente tatuadas, então a dele acaba sendo na frente do ombro. É muito menor e mais rápida que a minha: uma esfinge com cara de ave, bem esquisita.

É, não reclamo mais, estou feliz com a minha montanha de nove picos.