O que acontece quando uma pessoa desastrada tenta subir numa prancha.

Chegando de dois dias de viagem de barco, parei em Sengiggi apenas para dormir; cedo no dia seguinte uma van já veio me buscar para me levar ao píer para pegar o barco de volta para Bali. Aqui você tem três opções: pode pegar o barco “rápido” (que demora uma tarde inteira, com sorte), a balsa comum (que demora um dia inteiro, com sorte), ou um barco particular (vai na cara de pau e tenta encontrar um pescador que te faça um bom preço). A balsa e o pescador não vão ser muito seguros ou confortáveis, mas pra falar a verdade o barco rápido também não é. Sem contar que é caro.

Ainda assim foi ele que escolhi porque estava com pressa. Meu plano inicial era voltar direto para Ubud e fazer um retiro de ioga pra fechar com chave de ouro essa temporada na Ásia – a essa altura me restavam menos de 10 dias. Mas mudei de ideia. Eu já tinha passado um bom tempo praticando ioga na Tailândia e Bali é internacionalmente famosa pelo surf – eu tinha visto várias escolinhas para iniciantes lá e me pareceu divertido. Pronto, está decidido: eu vou aprender a surfar.

Quando em Bali... faça como todos os outros turistas e suba numa prancha! (fonte: www. flickr.com/photos/markomikkonen/)
Quando em Bali… faça como todos os outros turistas e suba numa prancha! (fonte: flickr.com/photos/markomikkonen)

Então ao invés de Ubud, fui parar em Kuta, a praia mais famosa de Bali. Não, ela não é bonita. Não, ela não é interessante. Muito pelo contrário: ela é lotada, cheia de lojas, com um trânsito do inferno e adolescentes festeiros fazendo barulho a noite inteira. É também dos lugares mais caros da ilha; mas tudo bem. Tudo por uma experiência nova. Sem contar que a Carol ia chegar lá um dia depois de mim e eu estava animada com a perspectiva de ver ela de novo.

Que tal Kuta? Nada de mais, né? (fonte: www.flickr.com/photos/wondereye/)
Que tal Kuta? Nada de mais, né? (fonte: flickr.com/photos/wondereye)

Gastei praticamente um dia inteiro para ir de Lombok à Kuta. Foram horas de espera no píer, foram mais horas ainda no barco desconfortável, e pra variar, fui deixada pra trás pelo ônibus que ia me levar até meu hostel. Então, como de costume, só consegui chegar tarde da noite. A conta de tomar banho, jantar e pular na cama. Minha primeira aula de surf seria no dia seguinte às nove da manhã.

E lá fui eu, super ansiosa, aprender a ficar de pé numa prancha em movimento. Eu, que mal consigo andar em linha reta sem perder o equilíbrio. Eu que caio no caminho entre a sala e a cozinha. Meus supostos coleguinhas não apareceram, então acabo ganhando uma aula particular – não sei se isso é bom ou ruim. Por um lado aprendo mais rápido, por outro o instrutor não larga do meu pé por um segundo.

Pra começar tenho uma aula teórica no hostel mesmo. Essa é a prancha: muito prazer, dona prancha, por favor não me mate. Presta atenção, Patrícia! É assim que se rema, é assim que se fica em pé, é assim que se equilibra, blá blá blá. A aula teórica em breve passa pra areia e quando me dou conta já estamos na água. As ondas estão pequenas (o que não é bom nem pra uma iniciante, eu fui descobrir depois) mas ainda assim o mar está lotado de surfistas, de todos os níveis e idades. Pelo menos não me sinto constrangida por ser a única deslocada aqui.

Quem sabe daqui a pouco eu vou estar que nem esse aí da prancha amarela? (fonte: www.flickr.com/photos/likeyesterday/)
Quem sabe daqui a pouco eu vou estar que nem esse aí da prancha amarela? (fonte: flickr.com/photos/likeyesterday)

Uma tentativa. Duas, três, dez. Não sei quantas vezes subi e caí daquela desgraça de prancha até que, finalmente, consegui ficar em pé e surfar até a areia. Uhu, viva eu! A essa altura já estou exausta, desidratada e queimada de sol, então ganho um intervalinho de 15 minutos. E de volta pra água.

Foram três horas de sobe, desce, surfa, cai, rema, anda, nada… pra no final eu perceber que não gostei. Ficar em pé na prancha e deslizar pelas ondas só me deu uma sensação de “olha, eu consigo”, mas não me diverti nem senti prazer algum. Era só o que me faltava! Eu tinha planejado fazer pelo menos mais duas aulas antes de ir embora; aliás, eu só vim pra essa praia péssima pra isso!

Fui almoçar cansada e frustrada – a essa altura, eu podia estar feliz e contente no meu retiro de ioga. Mas agora, com o hostel já pago e com poucos dias em Bali, não há muito mais que eu possa fazer. Calma, calma, nem tudo está perdido. Depois do almoço recebo uma mensagem: vamos fazer alguma coisa? É o Félix, que veio comigo no barco de Komodo à Lombok, e também está Kuta. Sim, por favor, vamos fazer alguma coisa e salvar esse dia horroroso.

Fica aqui então o meu conselho pra você que não é de surf: ao invés de gastar seu tempo (e dinheiro!) se esborrachando na areia uma vez após da outra, estende uma canga na areia, chama um amigo, compra umas cervejas e passa a tarde observando os outros pobres iniciantes se esborrachando na areia. Sério mesmo, muito mais legal!

E pra salvar o dia de vez, à noite eu e Carol saímos pra um dos nossos tradicionais jantares à luz de vela. Ela me conta suas aventuras escalando o Rinjani, eu conto minhas aventuras mergulhando em Komodo. Felicidade é ter amigos tão bons, mesmo quando se está tão longe de casa.

Até que Kuta não é tããããão ruim assim (fonte: www.flickr.com/photos/mattharvey1/)
Até que Kuta não é tããããão ruim assim (fonte: flickr.com/photos/mattharvey1)

Mas no dia seguinte o Félix vai embora. A Carol segue logo depois. E eu passo dois dias enrolando entre a praia e a piscina do hostel, até que chega a minha vez também.