Pra fechar com chave de ouro a minha aventura nestas ilhas incríveis.

Eu bem que gostaria de ficar em Labuanbajo, mas é hora de ir embora. Minha excursão de volta já está marcada e paga, então lá vou eu pro barco que me trouxe até aqui, vindo de Lombok, quatro dias atrás. Quando chego ao pier, outras pessoas já esperam o guia que vai nos levar até nossa embarcação, atracada mais à frente. E que embarcação: esse barco é muito maior que o da vinda! E tem muito mais gente também.

Nosso barco casa. Foto da amiga Leila, obrigada!
Nosso barco casa visto da proa. Foto da amiga Leila, obrigada!

Lição aprendida, logo que entro já procuro o lugar onde vamos dormir: quero pegar um colchãozinho mais bem localizado que o da última vez. Mas esse povo aqui não está nem pensando em dormir: o deck de cima está sendo preparado pro jantar, o deck de baixo é onde vai ter a festa de despedida. Não tem nem sinal de colchão, ou de travesseiro, ou de qualquer coisa do gênero. Sem ter mais o que fazer, saio pelo barco observando meus novos companheiros de viagem. São tantos! Um grupo de dinamarqueses que mal deve ter saído da adolescência, alguns ingleses, a tradicional panelinha de franceses… Mas péra. Eu conheço aqueles franceses. São o Morgan e a Roxanne, que fizeram a viagem de vinda comigo! Bom, pelo menos sei que não vou ficar sobrando completamente.

Mas acho que não ficaria, mesmo sem Morgan e Roxanne. Ao contrário da vinda, tem muitas outras pessoas viajando sozinhas dessa vez. Tem uma alemã, um indonésio, uma senhora do Sri Lanka e outra dos Estados Unidos; acho que aqueles dois ali são canadenses e… e… e estou ouvindo português? Sim, sim, é português! Aliás, é um inconfundível carioquês, vindo das três moças ali no canto. Não demoro a me aproximar e pular no meio da conversa: há quanto tempo eu não encontrava brasileiros!

As três carioquinhas simpaticíssimas, Leila, Fernanda e Juliana, estão passando algumas semanas de férias entre Cingapura e Indonésia. Enquanto falamos pelos cotovelos vem o jantar, alguns avisos do guia, e quando me dou conta já é hora da festa. A festa de boas vindas para os novatos e de despedida para quem fica em Flores.

E esse pessoal aqui é animado! Logo já tem cerveja rolando, começa a música e lá vai todo mundo pro outro deck. Eu fico ali, sentada aonde me deixaram, ainda com o prato na mão, ouvindo a conversa e as risadas lá em baixo. Esperando que alguém apareça com um colchão e um travesseiro. Nossa, como o dia foi longo. Nossa, como estou cansada. Por favor, me deixem dormir! Não estou com o menor clima pra festa – mal conheço as pessoas aqui…

“Ei, eu conheço você!”

Oi? Alguém falou comigo? Olho pra frente e tem uma criatura muito loira sentada no banco do outro lado. “O que é que você fez hoje?” ele pergunta, com um sorriso sarcástico porque já sabe a resposta. Fico aliviada por ter achado mais uma pessoa aqui que não quer saber de festa e vou me sentar ao lado dele. Me desculpe, mas qual é seu nome mesmo? Félix. Sim, claro! Você mergulhou no grupo do Patrick…

A noite avança, a tripulação monta nossas caminhas, a festa acaba e as pessoas aos poucos vão se deitando. Só tem um problema: mergulhador, quando começa a contar estória, não cala a boca nunca mais; então lá estamos nós dois, acordados, trocando figurinhas. Ele também está na Ásia a seis meses, visitou os mesmos países que eu. É muita figurinha pra trocar. A sorte é que ficamos num cantinho no fundo e eu consegui pegar o colchão mais isolado de todos. Quero ver alguém me pisar agora!

O barco só sai do porto às 5 da manhã – fica aí a dica pra quem quiser passar a noite na cidade – e o nascer do sol é fenomenal! Nossa primeira parada é na ilha de Rinca, onde o pessoal vai procurar mais dragões de Komodo. Eu não desço. Já vi todos os dragões que queria – prefiro aproveitar um pouquinho a calma vazia do barco. Só lembrando que Rinca tem mais dragões do que a própria ilha de Komodo, então a chance de vê-los é maior. Mas aqui eles são menores. Na dúvida, tente as duas!

Depois do almoço nosso destino é a ilha de Gili Laba (favor não confundir com as famosas Gili de Lombok, metade das ilhas nesse país se chama Gili alguma coisa), onde fazemos uma parada para nadar e fazer snorkel. Depois disso não tem mais nada pra fazer, a não ser bodar no barco. Aliás, bodar do barco é algo que se faz muito em uma viagem como essa. Traga livros, um baralho, um tabuleiro de xadrez… Eletrônicos também funcionam (há tomadas no barco) mas não conte com seu pacote de dados – internet raramente funciona nesse meio do nada. Faz download de um Candy Crush aí e vai feliz.

Uma noite inteira de navegação e, no dia seguinte, chegamos ao nosso próximo destino, a ilha Moyo, onde passamos a manhã em uma pequena cachoeira. Devo admitir que minha parte preferida foi atravessar a vilazinha onde vivem os poucos locais da ilha, mas infelizmente não dava tempo pra explorar mais.

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A pequena Labuan Haji, na ilha de Moyo. Foto da Ju.

 

E a cachoerinha pra refrescar depois da caminhada. Mais uma da Leila!
E uma cachoerinha pra refrescar depois da caminhada. Mais uma da Leila!

Depois do almoço fazemos nossa última parada da viagem, na ilha de Keramat. Esse lugar é tão minúsculo que sequer consigo achar ele num mapa! É literalmente um punhadinho de areia no meio do mar, com algumas palmeiras, uma cabaninha e uma rede. Imagino que seja pra aluguel, caso alguém queira ter sua própria ilha por um dia, porque é literalmente impossível morar aqui. Em cinco minutos termino minha volta pela ilha e fico cozinhando na água até a hora de ir embora.

Retornando ao barco, é hora de empacotar as malas – Lombok está logo à frente, estamos chegando ao nosso destino final. Sério mesmo que já se passaram dois dias inteiros? O pôr do sol é de tirar o fôlego e enormes vulcões nos cercam pelas ilhas ao redor, um desfecho incrível para uma viagem incrível.

Lombok no horizonte e um pôr do sol rosa - finalmente, uma foto minha!
Lombok no horizonte e um pôr do sol rosa. Finalmente, uma foto minha! Completamente fora de foco, né? Foi mal.

Em terra, dois ônibus nos aguardam: um vai levar metade do pessoal à Mataram, a capital da ilha, enquanto o outro vai levar o resto de nós à Sengiggi. Mais uma despedida sofrida, três horas e meia de ônibus cruzando Lombok (fui a última a ser deixada, é claro), uma caminhada sozinha no escuro para encontrar o hotel, e já passam de meia noite quando finalmente consigo tomar um banho e me esparramar na cama.

Ufa. Deixa eu dormir aqui que amanhã é dia de voltar para Bali.