Me despedindo do Parque Nacional de Komodo em grande estilo.

Mergulhar pode até ser um esporte fácil (e é mesmo), mas é extremamente cansativo. É muito sol e sal. É muito tira e põe de equipamento pesado. É muito tempo de navegação. Dois mergulhos longos num dia são o suficiente para me mandar pra cama mais cedo. Três então, é praticamente um nocaute. O ideal seria, depois de seis mergulhos em dois dias, saindo as sete da manhã e voltando às cinco da tarde, tirar uma folga. É o que as outras pessoas decidiram fazer – nem minha Divemaster vai me acompanhar hoje. Mas é meu último dia em Labuanbajo, é minha última chance de mergulhar no Parque Nacional de Komodo, então lá vou eu mais uma vez. Descanso é para os fracos.

Sem a Michelle, meu novo guia é o Oliver. Estou tão frustrada por estar com um grupo completamente estranho que não me dou ao trabalho de fazer amizade com ninguém. Ainda. Mas meu momento de introversão não dura muito porque lá vem o briefing. Nosso primeiro mergulho é em um lugar chamado The Cauldron (o caldeirão) e meu novo grupo é composto por duas americanas, Sarah e Jenny, e um zimbabuense, Shannon. Os três estão viajando juntos e o Shannon vai ser minha dupla.

Entramos na água, descemos até o fundo e… tem algo errado. Chegamos em um cânion, com paredes de coral dos dois lados e um corredor de areia no meio. Oliver nos guia de um lado pro outro, meio sem rumo; o que está acontecendo? O outro grupo, que tinha descido antes de nós, sumiu de vista. Oliver nos reúne em torno dele, fazendo um sinal de X com os braços, e indica: mergulho cancelado, vamos embora.

Voltamos ao barco, aonde o outro grupo já nos aguarda, e ele explica: a correnteza mudou de direção. Eu sequer sabia que isso podia acontecer! Já gastamos um bocado de oxigênio, mas nem tudo está perdido – o barco vai nos levar para o outro lado e vamos fazer o mergulho de trás pra frente.

Nessa segunda descida, a paisagem é outra. Mais uma vez, os típicos recifes de coral mega coloridos. Montes de tartarugas por todos os lados, barracudas, raias, até um tubarãozinho de recife! Mas não podemos ficar, o oxigênio já está baixo e a correnteza está empurrando. Muito! Eu fico colada no Oliver e chegamos a um banco de areia, mas agora estamos sozinhos. Os outros ficaram pra trás. Oliver me deixa agarrada numa pedra e volta para chamá-los. Sem luvas, meus dedos começam a sangrar.

Era só o que me faltava!

Mas lá vem eles. Oliver me aponta a direção e eu me solto, em queda livre novamente. Depois do banco de areia vem uma descida brusca e estamos no meio do “caldeirão” que dá o nome a esse ponto de mergulho. Continuando chegamos aos cânions onde havíamos começado na primeira descida, voando na corrente com os peixinhos.

Bluspotted ray - ou a raia de bolinhas azuis, em tradução minha. Alguém por favor sabe o nome oficial desse bicho lindo? (fonte: www.flickr.com/photos/dkeats/
Bluspotted ray – ou a raia de bolinhas azuis, em tradução minha. Alguém por favor sabe o nome oficial dessa coisa linda? (fonte: flickr.com/photos/dkeats)
Um cardume de barracudas. Eu não gosto delas desde que uma comeu a mãe do Nemo... mas aqui em Komodo tem montes (fonte: www.flickr.com/photos/barrypeters/)
Barracudas. Eu acho elas medonhas – ainda mais depois que uma comeu a mãe do Nemo… mas aqui em Komodo tem demais (fonte: flickr.com/photos/barrypeters)

É hora de ir pro próximo ponto. Agora, com tempo e calma, posso conversar com meu grupo direito. Os três são instrutores e moram em Koh Tao – uma ilhazinha na Tailândia, a meca do mergulho no sudeste asiático. Eu mesma fiz meu curso avançado e morei lá por um mês, sempre ia comer pizza no restaurante do resort onde eles trabalham. A gente já deve ter se cruzado várias vezes sem saber! Esse mundo é mesmo muito ovo.

E agora que já fiz amizade com esses três, aproveito para conhecer também as pessoas do outro grupo: um canadense fofíssimo que já foi a Belo Horizonte por conta da Copa do Mundo, um casal que não interage com ninguém (nem sei de onde são) e um sueco. Tem também a René, que é Divemaster mas está só acompanhando.

Todos felizes e amigos então, vamos para o próximo mergulho: Castle Rock. É uma rochona completamente submersa, alta e curta; uma correnteza atinge a pedra de frente e se divide para os lados, trazendo plâncton. Bichinhos pequenos vem comer plâncton. Peixões vem comer os bichinhos pequenos. São eles que viemos ver.

O barco nos solta um pouco à frente do ponto e, mais uma vez levados pela água, chegamos até a rocha. Como os animais preferem ficar na bifurcação da correnteza, temos que nos agarrar aos corais pra ter uma visão boa. O ideal seria ter ganchos ou pelo menos luvas, mas na falta dos dois vai na mão mesmo. Cuidado pra não agarrar um peixe escorpião!

Onde está o peixe? Pensa rápido porque se você encostar nele, sua viagem já era (fonte: www.flickr.com/photos/bladeflyer)
Onde está o peixe? Pensa rápido porque se você encostar nele, sua viagem já era (fonte: flickr.com/photos/bladeflyer)

E lá vem eles. Os peixões. Garoupas, atuns, napoleões. Cardumes enormes de triggerfish. E as estrelas do show, os tubarões. Tubarões cinzentos, galhas branca de recife, tubarões de ponta preta. Montes e montes, deslizando na maior paz; sem dar a mínima pro punhadinho de mergulhadores boquiabertos (modo de dizer, né gente, ninguém cuspiu o regulador não), se agarrando às custas nos corais.

Garoupa pode ser gostoso, mas ô bicho feio (fonte: fonte: www.flickr.com/photos/mal-b)
Garoupa pode ser gostoso, mas ô bicho feio (fonte: flickr.com/photos/mal-b)
Já o napoleão é lindo, pena que não dá pra ver as cores nessa foto (fonte: www.flickr.com/photos/silkebaron/)
Já o napoleão é lindo, pena que não dá pra ver as cores nessa foto (fonte: flickr.com/photos/silkebaron)
Um galha branca de recife - olha a pontinha branca na barbatana dele! (fonte: www.flickr.com/photos/berniedup/)
Um galha branca de recife – olha a pontinha branca na barbatana dele! (fonte: flickr.com/photos/berniedup)
Um ponta de negra de recife, esse não é muito comum (fonte: www.flickr.com/photos/briangratwicke/)
O mais raro ponta de negra de recife (fonte: flickr.com/photos/briangratwicke)

Bom, depois dessa não tem jeito. O terceiro mergulho, em Tatawa Besar, é sim bonito e interessante – mas não pode competir com os outros dois.

De volta à loja eu aproveito para tomar banho e trocar de roupa, já que não tenho mais quarto de hotel e toda minha bagagem está na Perama – a agência de turismo que me trouxe à Flores e que, hoje mesmo, vai me levar de volta à Lombok. Ao sair do banho me deparo com uma festa. O povo de ontem, que veio pra trocar fotos, já se misturou com o de hoje, e mais gente continua chegando pra marcar a saída de amanhã. Todo mundo rindo e falando alto, alguns já com uma cerveja na mão, pessoas de todas as idades, vindas do mundo todo. Se eu pudesse, ficava aqui mergulhando pra sempre.

Mas não posso; tenho que estar no barco da Perama às sete da noite. É com um nó na garganta que me despeço dos meus companheiros de mergulho – sei que nunca mais vou vê-los. Mas é parte da viagem: fazer um novo grupo de amigos a cada dia, perdê-los no dia seguinte. Despedida atrás de despedida. De vez em quando, se você tiver sorte, uma dessas pessoas vai com você. De vez em quando, se você tiver sorte, você faz um amigo de verdade.

E eu tinha feito um hoje, só não sabia ainda.