Felicidade é estar debaixo d´água, eu devia ter nascido foca.

Dessa vez, o universo me ouviu e eu acordei bem. Ainda não 100%, mas bem. Ainda com dor e muitas bactérias, mas sem febre. E um bônus: as picadas de mosquito que cobriam minhas pernas e já começavam a inflamar (sério, estavam um nojo) estão melhorando graças ao antibiótico. Pronto, pra mim é mais que o suficiente: pego meu nariz de bolso (o que as pessoas normais chamam de Sorine), tomo café correndo, e vou para a Mantha Rhei.

Ainda é muito cedo e todos estamos meio dormindo, mal presto atenção no resto da turma que vai mergulhar comigo. Saímos da loja, damos a volta pelos fundos e fazemos uma curta caminhada até o porto, onde vamos pegar nosso barco. E que barco! Minha teoria é a de que, como o tempo de viagem entre Labuanbajo e cada ponto de mergulho é muito longo, o pessoal arruma barcos super confortáveis pra gente não morrer de tédio. Nunca vi nada igual.

O deck de baixo é normal, com os tanques e demais equipamentos, longos bancos pra gente sentar, banheiros, chuveiros e tudo mais. O básico. Mas tem também o deck de cima, metade coberto e metade ao sol, cheio de pufes fofos e colchõezinhos pra gente se esparramar enquanto espera o longo trajeto até o primeiro mergulho. Além disso ganhamos donuts de café da manhã! Me deram comida, estou feliz.

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Que tal um cochilo? (fonte: facebook.com/mantarhei/photos)

Mais ou menos duas horas de barco pelas lindas ilhas e praias do Parque Nacional de Komodo até que somos chamados para receber o briefing do nosso primeiro mergulho. Minha Divemaster é uma mocinha magrela de vinte e poucos anos chamada Michelle, filha do dono da escola. Além da Michelle, no meu grupo tem uma francesa mau humorada (me fiz o favor de esquecer o nome dela) e o Paul, um senhor americano fofíssimo que mora na Malásia com a esposa. Outro Divemaster, Patrick, vai acompanhar um grupo como o nosso – de mergulho recreativo – e o Oliver, que é instrutor, está com dois alunos do curso de mergulho avançado. Fechando a trupe tem um alemão gatíssimo que faz mergulho livre, ou seja, sem tanque de oxigênio.

E só pra lembrar: a grande maioria dos pontos de mergulho em Komodo não é adequada para mergulhadores de nível básico – a profundidade é alta e rola muita correnteza. Então é melhor ir com o certificado de mergulho avançado, pra aproveitar direito.

Terminado o briefing, descemos para nos preparar. Essa é a parte em que eu sempre me pergunto porque diabos escolhi esse hobbie maluco de mergulhar. Em primeiro lugar, é caro. Em segundo lugar, é longe (pra quem mora em Belo Horizonte, é sempre longe). Mas o pior de tudo é que dá um trabalho danado! Eu absolutamente odeio ter que me espremer naquelas roupas apertadas de neoprene, que sempre machucam meus dedos. Não gosto de montar octopus, tanque, BCD; colocar botinha, nadadeiras, máscara, cinco quilos de lastro em volta da cintura… E ficar lá no barco, parecendo um monstro alienígena, esperando a hora de entrar na água – o equipamento pesado nas costas, coberta dos pés à cabeça, morrendo de calor, desconfortável até a alma…

E o pior é que, pra mim, entrar na água não ajuda muito. Cair no mar (quase sempre) frio, tentando ajustar o equipamento e acostumar com os movimentos limitados; às vezes o mar está batido e você apanha do barco, às vezes as ondas te levam pra longe do grupo, às vezes tem corrente e você fica lá que nem um pato, batendo as pernas sem sequer sair do lugar. Eu, que sou ansiosa, começo a hiperventilar – o que me deixa mais ansiosa ainda: e se eu me perder da minha dupla? Ou meu ar acabar? Ou encontrar um kraken lá embaixo?

“Porque então você mergulha, criatura?”, você deve estar se perguntando. Por que, caro coleguinha, assim que consigo afundar e minha cabeça submerge, eu estou em casa. Eu esqueço todas as dificuldades e chatices que passei até chegar aqui, e todas elas já valeram à pena. Pra mim não existe som mais relaxante do que o daquela respiração de Darth Vader, o ar entrando pelo regulador, as bolhinhas saindo… O equipamento fica leve, os movimentos ficam fáceis, os sons desaparecem – você flutua voando entre os peixinhos, um mundo completamente diferente à sua volta. Sim, mergulho devia ser religião.

Acho que nasci no ecossistema errado porque, pra mim, felicidade é estar debaixo d´água (fonte: www.flickr.com/photos/tchami/)
Acho que nasci no ecossistema errado porque, pra mim, felicidade é estar debaixo d´água (fonte: flickr.com/photos/tchami)

Nosso primeiro mergulho do dia é em Batu Balong, considerado um dos melhores em Komodo. E com motivo, o lugar é absolutamente deslumbrante! A visibilidade é ótima, a paisagem de corais é linda, pra qualquer lado que você olha tem um personagem de Procurando Nemo. Mal vejo o tempo passar mas ele passa, e rápido: nossos 60 minutos acabaram (já?) e é hora de voltar para o barco.

Fazemos uma hora de intervalo de superfície enquanto rumamos para Pengah Kecil, o segundo ponto. Pra felicidade geral da nação, não precisamos mais montar nosso equipamento: agora que já comprovamos que não somos um bando de picaretas e sabemos o que estamos fazendo, é a equipe que arruma tudo pra nós.

Uma sépia linda (fonte: www.flickr.com/photos/wwarby/)
Uma sépia linda (fonte: flickr.com/photos/wwarby)

Almoçamos à caminho da ilha de Rinca, (um almoço ótimo, coisa rara em barco de mergulho), onde parte do grupo vai procurar dragões de Komodo. Como já vi minha cota de lagartos gordos, eu vou para Wainilu fazer um último mergulho com o outro Divemaster, Patrick, e o casal que está fazendo curso. Não sei se foi azar ou se esse ponto de fato não vale à pena, mas fiquei bem decepcionada com Wainilu: a visibilidade é ruim e a paisagem é cinza, a água está gelada; achamos poucos bichinhos interessantes. Vinte minutos e eu já queria ir embora, podia ter passado sem essa. Para meu consolo, ganhamos waffles de lanche na volta. Das vantagens de se mergulhar com uma família belga…

É quase noite quando chegamos, cansados e felizes, em Labuanbajo. Com os dois primeiros mergulhos em mente, coloco meu nome na lista para a saída do dia seguinte. A essa altura já até me esqueci que, ainda ontem, eu estava morrendo de amigdalite! Mas ainda não é hora de relaxar: remédios, banho, jantar e cama, que amanhã é dia de ver as raias manta.