Se ficar doente já é chato, ficar doente longe da nossa mãe então é o inferno.

Depois de um dia cruzando a ilha de Lombok e mais dois dias de barco através de Sumbawa e Komodo, eu cheguei à Flores. Mais precisamente, à cidade de Labuanbajo. Por enquanto eu só tinha passado algumas horas na cidade – o suficiente pra arrumar uma pousadinha e pra perceber que esse lugar respira mergulho: a cada três lojas, uma é de mergulho. Maravilha, estou em casa. Voltando da festa de despedida no barco eu fui direto pra cama, esperando conhecer a cidade melhor no dia seguinte.

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Labuanbajo, a cidade do mergulho, vista de cima – basicamente um porto e montes de barcos (fonte: flickr.com/photos/banditvskronik)

Só teve um pequeno probleminha. Lembra que na noite anterior eu resolvi dormir no convés do barco? À céu aberto, no vento? Pois então, agora é hora de pagar. Acordo no meio da noite e meu corpo dói, minha cabeça dói, minha garganta dói. Por favor, universo, que eu não tenha amigdalite amanhã. Eu sou a rainha da amigdalite, só ano passado tive três – e feias! Mas o universo não me ouviu. Na manhã seguinte mal consigo me levantar: tenho febre e meu pescoço está inchado, sinto dor ao tentar engolir minha própria saliva… vou ao espelho e lá estão elas: as plaquinhas cinzas e nojentas de bactéria, cobrindo minhas tonsilas palatinas (sim, é esse o nome, a amídala de verdade fica no cérebro. Viu? O blog é de viagem mas também dá aprender um pouquinho de ciências).

Imediatamente mando uma mensagem para minha irmã, que é médica: pelamordedeus, me ajuda, estou morrendo sozinha no meio da Indonésia! Por sorte o fuso horário está do meu lado e ela responde imediatamente com uma lista de remedinhos e montes de recomendações de irmã preocupada. Beba muito líquido, descanse bastante, blá blá blá. Lá vou então, na velocidade de uma lesma idosa, tomar o que eu consigo do café da manhã e procurar uma farmácia. Minha sorte é que aqui, como em outros países do sudeste asiático, remédios não são controlados. Se eu tivesse que ativar meu seguro, procurar um médico e conseguir receitas, eu desistia. Por favor, não me leve a mal, eu sei que essa falta de regulamentação de remédios é péssima pra população e não devia ser prática em lugar nenhum do mundo, mas hoje ela me é muito conveniente.

Volto me arrastando para a pousada com meu punhadinho de antibióticos e passo o dia por lá mesmo, estatelada na cama, oscilando entre frio e calor à medida que a febre vem e vai. Tenho como companhia um livro chato, lagartixas barulhentas e muitos vídeos aleatórios do youtube. Praticamente perdi meu primeiro dia em flores e não estou disposta a perder outros, então no final da tarde parto em busca da escola de mergulho que o pessoal do barco tinha me indicado: Manta Rhei. Por sorte ela é só alguns quarteirões da minha pousada e fácil de encontrar.

Além de funcionários super simpáticos e prestativos, equipamentos novinhos e um dos melhores preços na cidade, eles tem um cachorro! E ainda conferem minhas credencias de mergulho antes de me aceitarem no grupo, coisa rara na Ásia. Me ganharam de primeira. Sim, estou fazendo propaganda: se você for mergulhar no Parque Nacional de Komodo, procure o pessoal da Manta Rhei.

Recebo um pequeno briefing dos mergulhos do dia seguinte, experimento minha roupinha de neoprene e nadadeiras, assino a papelada de sempre – tudo com a maravilhosa atenção de um pé de alface. Tenho que estar de volta aqui amanhã as sete da manhã pois são duas horas e meia até o primeiro ponto de mergulho. Sim, estarei aqui na hora certa, não se preocupem. Não, não quero marcar mais dias de mergulho – tenho que sobreviver ao primeiro, depois a gente vê.

Volto para o hotel para jantar (duas horas no restaurante, o garçom errou meu pedido), tomar um banho e me esparramar na cama de novo. Vou dormir torcendo pra estar bem no seguinte, bem o suficiente para aguentar cinco horas de barco e três mergulhos de nível avançado. Amém.