Um dia de barcos, praias e lagartos gigantes. Quem não quer?

(Nada de pular na frente, dá uma olhada na Parte 1 e na Parte 2 antes!)

Já são umas nove da noite quando finalmente chegamos ao barco – nosso transporte até Labuanbajo e nossa casa pelos próximos dois dias. As malas já foram na frente; ao entrar, o guia nos apresenta toda a tripulação e nos explica o itinerário. O barco é bem grande e parece confortável: tem muitos banheiros (com chuveiros bons e quentes, quem diria!), um deck aberto pra tomar sol, cofres pessoais para guardar documentos… sim, estou impressionada!

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Eu sou péssima com fotos, não tenho nenhuma do barco. Que tal esse mastro?

Algumas pessoas tem cabines mas a maioria de nós queria economizar e ficou no deck de cima. Está lotado! Mas e se chover? É coberto – e tem lonas dos lados, basicamente uma cabaninha gigante. Eu, que lerdei pra pegar um colchão, acabei ficando com o pior de todos: num cantinho exprimido perto do compartimento das malas e logo na “entrada” do deck. Ou seja, todo mundo tinha passar por cima de mim pra chegar nos seus colchões. Muito bem, alguém tinha que sobrar de qualquer forma. Por que não eu?

O colchão em si não é a pior coisa do mundo, é fino mas dá pro gasto. Temos lençóis, travesseiros e um cobertor, mas na primeira noite eles não são o suficiente: está fazendo frio e tenho que me empacotar com casacos e meias e tudo mais que encontro pela frente. O barco balança, o Louis (que está do meu lado) ronca alto, demoro pra dormir… só pra acordar poucas horas depois com um susto: está trovejando.

Muito. E chovendo. Muito. E o barco está pulando. Muito. Eu e uma das espanholas, que está no cantinho do outro lado, logo ficamos encharcadas porque a lona que protege as laterais do barco não vai além dos nossos colchões. Minha roupa de cama está molhada, minha mochila está molhada. Todo mundo acorda, ninguém sabe o que fazer. Nossa, o barco pula muito mesmo!

Já estive em mares batidos antes – eu costumo ser a pessoa que grita “uhuuu!” enquanto o resto dos passageiros vomita nas balaustradas – mas isso aqui é demais até pra mim. Começo a ficar assustada. Ninguém da tripulação aparece pra explicar nada ou tentar melhorar a situação. Já começo a pensar no pior: e se esse barco bate em uma rocha e afunda? Eu até que sou boa nadadora, a ilha de Sumbawa não está longe… mas vou ter que deixar minhas coisas. Meu passaporte, meu telefone. Droga, vai ser muito inconveniente se a gente naufragar aqui no meio do nada.

Mas nada de naufrágios por hoje. A chuva diminui, o barco acalma, o pessoal que está sequinho no outro lado do deck volta a dormir. Até quem ficou molhado como eu se conforma em continuar molhado e adormece em sua pocinha gelada. Ah não, aí não! Pego meu travesseiro, que foi poupado, e vou para o deck inferior. Estou atrapalhando a tripulação, que está lá em baixo ouvindo música e falando pelos cotovelos, mas não me importa – em teoria, esse deck é pros passageiros também. Me deito em um dos bancos (que são acolchoados) e, lá prás 4 da manhã, consigo dormir.

Vozes me acordam um pouco antes das oito. É hora do café da manhã e estou dormindo na frente da cozinha. Quase todo mundo já está aqui. Nada como acordar depois de uma noite muito mal dormida com um monte de estranhos te olhando! O tempo também não está dos melhores, mas pelo menos parou de chover e está quente. Depois do café, nos aprontamos e é hora da primeira parada: a ilha de Satonda.

Um pequeno bote nos leva até a praia, e de lá caminhamos até chegar a uma lagoa de água salgada. O guia nos explica que estamos dentro da cratera de um vulcão (por isso a água é quente) e que a lagoa foi formada a muitos anos atrás por um tsunami (por isso a água é salgada). A borda do vulcão é coberta de floresta. Que paz, esse lugar; por mim eu ficava aqui o dia inteiro…

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A linda lagoa salgada de Satonda (fonte: flickr.com/photos/j3ffm4n)

Mas não podemos, é hora de continuar. Almoço e uma tarde inteira navegando até chegar à praia de Donggo, onde assistimos ao pôr do sol. Essa noite estou com mais sorte: o ar está quente e o céu limpo; decido dormir no deck aberto, sozinha, sem o ronco e as pisadas dos outros passageiros. Foi um bom plano.

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Foto de pôr do sol sempre funciona

Entramos então no terceiro dia, o mais importante de todos: o dia de ver os dragões! Logo cedo, o bote nos leva para a ilha de Komodo. O parque possui três trilhas, que só podem ser visitadas com guias treinados; nós vamos fazer a trilha média, que dura aproximadamente duas horas – se você for uma tartaruga. Já ouvi dizer que a trilha longa, de cinco horas, vale muito à pena, mas não temos essa opção. Nosso grupo é dividido em dois, cada um com dois guias, e lá vamos nós.

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Bem vindo ao Parque Naciona de Komodo!

Temos que andar em silêncio para não assustar os bichos. No caminho vemos cervos, porcos selvagens, macacos… montes de aves barulhentas. Mas nada de dragões. E quanto mais tempo passa, menores são nossas chances porque os dragões não gostam do calor e se escondem durante o dia. Encontramos ovos de dragão, pegadas de dragão, cocô de dragão. O guia explica: eles estão por aqui, mas descansando. Infelizmente essa ilha não tem tantos dragões assim (a ilha de Rinca tem mais, mas lá eles são menores) e sair da trilha para procurá-los é fora de cogitação: os bichos são perigosos.

Quando já estamos quase desistindo, já fazendo o caminho de volta, encontramos um. Finalmente! Um macho gordo esparramado na lama. Como ele é grande, eu não esperava por isso. Parece um dinossauro, um lagarto que parou no tempo, uma lagartixa enorme. Mal dá pra acreditar que essa coisa gorda e preguiçosa consegue caçar pessoas. Atrás dele vem outro, uma fêmea. Bem menor, linda linda, rebolando pela vegetação.

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Meu primeiro dragão de Komodo. Olha que coisa gorda e linda!

Estamos todos encantados. Tiramos montes de fotos, queremos chegar cada vez mais perto… mas temos que continuar porque o outro grupo está nos alcançando – e não dá pra manejar 20 turistas felizes em volta de um único dragão. No caminho de volta vemos mais dois dragões na praia. E mais três na porta da cozinha, esperanto um lanche – em teoria eles não recebem comida, mas reconhecem o cheiro e vem aqui tentar a sorte.

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É uma pedra? Não, é um dragão preguiçando na praia.

Sorte é a nossa, diz o guia: tem grupos que vem até aqui e não avistam um dragãozinho sequer. Cansados e contentes, fazemos uma pequena parada numa lanchonete para esperar o outro grupo e depois voltamos para o barco. Daqui vamos à pink beach, uma praia ridiculamente bonita que de fato tem areia rosa. Ótima pra fazer snorkel. Ótima pra estender na areia e ficar torrando ao sol.

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Não sei se gosto mais da cor da areia ou da cor da água.

Da pink beach partimos direto para nosso destino final – o meu, pelo menos: Labuanbajo, na ilha de Flores. Aqui nosso grupo se separa: alguns ficam, alguns voltam para o barco, alguns vão embora para explorar a ilha. Mas não sem antes fazer uma despedida. Tenho algumas horas para encontrar um hotel, tomar banho e tirar um cochilo; a noite nos encontramos de novo no barco para um último jantar e uma “festa”. Digo “festa” porque esse pessoal não é muito animado – enquanto a tripulação bebe e dança, nós estamos lá fora conversando. Pessoas novas estão se juntando à excursão para fazer o trajeto de volta e eu percebo que realmente dei azar com meus companheiros de viagem: me dou muito melhor com o grupo novo. Eles me dão dicas de escolas de mergulho e de outros passeios.

Tenho quatro dias em Labuanbajo antes de pegar o próximo barco de volta para Lombok. Quero conhecer a cidade. Quero conhecer a ilha. E, é claro, quero mergulhar.