Dessas coincidências que só acontecem em filme de Hollywood.

Em janeiro eu perdi meu Kindle na Malásia. Meu amado tablet de leitura, cheio de livros novinhos. Perdi mesmo: larguei dentro de um ônibus em Kuala Lumpur. Voltei correndo em 20 minutos, tenho certeza absoluta que nenhum outro passageiro o pegou porque fui a última a descer, até ofereci para comprar meu próprio Kindle de volta.

“Moça, por favor! É só um Kindle velho, eu mesma já comprei ele usado, anos atrás. Ele não é touch screen, ele não tem wifi, os livros estão todos em português. Assim que eu sair daqui, vou entrar em contato com a Amazon e eles vão bloquear esse aparelho – ninguém vai sequer poder usar ele mais. Por favooooooooor!”

“Não, senhora, sinto muito; ninguém achou nada”.

Paciência. Respira fundo e desapega. Passei os seis meses seguintes revirando lojinhas de livros usados, procurando alguma coisa barata em inglês ou em francês, carregando peso a mais na mochila. Li muita bobagem, mas li algumas coisas boas também. Troquei livros com outros viajantes, “roubei” livros em hostels (sempre deixava outro no lugar, juro!), presenteei estranhos na rua com livros que não podia mais levar… E então um belo dia eu ganhei um Kindle novo, graciosamente oferecido por um amigo inglês que viajou comigo por uns tempos e que, por coincidência, tinha dois.

Sim, tem gente no mundo com dois Kindles. No caso dele, um moderninho e um velhaco. Esse último ele tinha encontrado em um hostel em Washington, em abril de 2014. Todos os arquivos e informações pessoais estavam em espanhol, ele não encontrou o dono, foi mochilar pela Ásia e largou o pobre do Kindle esquecido no interior da Inglaterra.

Em junho, quando eventualmente cheguei à Inglaterra e fui visitar o moço, recebi meu Kindle novo. Assim de graça, sem nenhum esforço – com capinha e tudo! E com um monte de livros já incluídos: Isabel Allende, George Orwell, Júlio Cortazar. O caçador de pipas. O guia do mochileiro das galáxias. A coleção inteira do Harry Potter. Essa pessoa até que tem um gosto parecido com o meu! Continuo fuçando e chego a uma parte de artigos científicos: botânica, entomologia, filogenia, evolução… era só o que me faltava: um biólogo.

Tiro o Kindle da capinha e encontro dois papéis escondidos: uma passagem de avião para a Venezuela (dois passageiros, um homem e uma mulher) e um envelope com um bilhete escrito em espanhol – é uma carta de agradecimento por um presente de casamento, tem fotos da cerimônia e tudo. O passageiro do voo, a assinatura na carta e o registro do Kindle têm o mesmo nome. Vou chamar ele de Benício. Benício Biólogo.

Na passagem encontro o sobrenome do Benício e começo a procurá-lo no Google. É um nome comum e nem usando as fotos do casamento consigo achá-lo: nada no Facebook, nada no LinkedIn, nada em nada… Também, eu sou uma negação em redes sociais (Snapchat? Quem é esse?). Depois de mais de uma  hora procurando, encontro um artigo científico com as inicias dele. É sobre botânica, é de uma universidade em Nova York – se não for o Benício Biólogo, eu desisto. Mando um e-mail: estou com seu Kindle, quer ele de volta?

Ele me responde alguns dias depois. Agradece a oferta, já recuperou todos os livros e arquivos, não esperava ver o Kindle nunca mais… mas sim, adoraria tê-lo de volta, se não for dar muito trabalho. Aliás, meu e-mail é do Brasil. Eu sou brasileira?

Sim, sou! Você conhece o Brasil?

Conhece. Ele é colombiano mas fez a graduação – biologia, há! – no Rio de Janeiro. Morou aqui por anos, é fluente em português. De qual cidade eu sou?

Belo Horizonte.

Ah, mas ele já veio a BH e tem vários amigos aqui, todos biólogos, estudando e trabalhando na UFMG. Aliás, ele vai pedir pra um deles buscar o Kindle comigo, pode ser? Aí em outubro, quando ele vier ao Brasil para um congresso, pode pegar o Kindle de volta.

Maravilha! Mais fácil impossível. Aliás, eu quase espero que os amigos dele sejam meus amigos também. Biólogos, da UFMG, da minha idade. Se bobear, fomos colegas de faculdade. Quais eram as chances? Esse mundo é mesmo um ovinho!

Infelizmente, eu nunca descobri se o Benício e eu estamos de fato a apenas um grau de separação. Assim que voltei ao Brasil escrevi pra ele, mas nunca obtive resposta. O Benício sumiu, o Kindle ficou pra mim – pelo menos por enquanto.

Obrigada pelo ótimo presente, Benício Biólogo. Estou adorando seus livros!