Porque toda saga tem seus dramas, mas tem também um final feliz.

(Caiu aqui de paraquedas? Não está entendendo bulhufas? Melhor ler a Parte 1 e a Parte 2 antes!)

Então lá fomos nós outra vez, sacolejando dentro de um mini-ônibus apertado por mais 10 horas, atravessando floresta nativa, campos de arroz e plantações de café (sim, a estrada é lindíssima), rumo ao nosso próximo destino: a cratera do Ijen. Essa região é bem mais inóspita que o Bromo, chegar aqui requere mesmo um tour a não ser que você queira alugar um carro/moto. Transporte público não existe nesse lugar. Mas pelo menos a entrada é um pouco mais barata: 150.000 rúpias (R$40,00).

Andando de ônibus por Java? Tenta sentar na janela porque a paisagem vale à pena!
Andando de ônibus por Java? Tenta sentar na janela porque a paisagem vale à pena! (fonte: http://www.flickr.com/photos/jen_lipp/)

Chegamos ao hotel já a noite. Esse era ligeiramente melhor que o último, mas ainda parecia que ia cair aos pedaços. Não descansei nada na viagem (sou dessas chatas que não conseguem dormir sentadas) e não ia descansar naquela noite porque, das duas opções que o tour oferece, eu escolhi a mais puxada: ou você sai às 2 da manhã para ver o fogo azul (já já explico) ou você sai às 4 da manhã para ver – adivinha só? – o nascer do sol. A essa altura, minha metamorfose em zumbi já estava quase completa, mas eu queria ver o fogo azul. Dormir é para os fracos.

Banho, jantar, 3 horas de sono e estamos de pé novamente. O pessoal do hotel, super prestativo, empacotou nosso café da manhã para viagem. Já levamos as malas conosco. Alguns minutos de ônibus até o estacionamento na base do vulcão, onde fomos apresentados aos nossos guias (não se pode usar veículos ou ir por conta própria), e a subida começou: três quilômetros até o topo da cratera.

Apesar de curta, essa subida não é nada fácil. A noite estava gelada e o ar frio machucava meus pulmões. A escalada é muito íngreme e machucava meus joelhos. Quase ninguém tinha levado lanternas, então não conseguíamos ver um palmo à frente do nariz. Se você, como eu, estiver pensando: “que programa de índio, meu Deus! O que é que eu vim fazer aqui?”, então é hora de parar, respirar fundo, e olhar para cima. Para o céu. Tente imaginar como é o céu em um lugar desses – no meio do nada, completamente isolado. Centenas, milhares, milhões de estrelas! Eu nunca tinha visto a via láctea com tanta clareza na minha vida. Reanima o fôlego de qualquer um.

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É um documentário do Discovery Channel? Não, é o céu claro que cobre a Indonésia (fonte: flickr.com/photos/skyseeker)

Chegamos ao topo mas a caminhada ainda não tinha acabado. Era hora de descer a cratera para ver o fogo azul. Agora sim eu explico: fogo azul é um fenômeno químico que acontece quando o gás sulfúrico, vindo de fissuras da cratera a 600 graus celsius, entra em combustão ao contato com o oxigênio. Science, bitch! Mas pra ver ele direito tem que chegar perto. Então é mais um quilômetro de descida, ainda no escuro, mas dessa vez sem estrada pra seguir – é pra descer na raça mesmo. Não precisa nem falar que eu, com toda minha destreza, quase caí umas cinco vezes e tive que ser acompanhada pelo guia de perto. Maravilha.

Lá em baixo, nos sentamos nas pedras e observamos o fogo queimando. Muito bonito, mas absolutamente impossível de fotografar. Existe uma distância de segurança que se deve manter por causa da toxicidade do enxofre, esse mesmo que causa o belo fogo azul. Mas isso não impede que dezenas de mineiros venham aqui todos os dias, logo de madrugada, para retirar as pedras amarelas de enxofre que são utilizadas na indústria de químicos, na agricultura e no artesanato local. Os mineiros fazem exatamente o mesmo caminho que nós, turistas, só que várias vezes ao dia e carregando até 20 quilos de pedras nas costas. Tudo isso enquanto respiram as fumaças tóxicas do vulcão. Lembre-se deles da próxima vez que for reclamar do seu emprego!

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O fogo azul (fonte: flickr.com/photos/dhodie)
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Um mineiro carregando sua preciosa carga de pedras de enxofre (fonte: flickr.com/photos/mattpaish)

O dia começou a clarear e era hora de subir. Meu grupo era muito animado: chegando lá em cima ninguém se contentou em tirar umas fotos e fazer o caminho de volta; queríamos continuar subindo por uma pequena trilha de terra que circunda parte da cratera. Levamos mais ou menos meia hora até que a trilha terminou em um penhasco de pedra. Lá em cima não tem mais ninguém. Nos sentamos, pegamos nosso café da manhã, e esperamos enquanto o nascer do sol revela a vista mais bonita que vi em toda minha viagem pela Ásia.

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Olha esse lugar! Nem minhas inabilidades fotográficas nem a câmera horrível do meu telefone conseguiram estragar a paisagem do Ijen.

Agora podíamos ver a cratera com clareza. Dentro, um lago azul claro lindíssimo (não, não pode nadar – é tóxico e super quente). O fogo azul, que é só é visível a noite, desapareceu. Vimos outros turistas lá em baixo, como formiguinhas, e vulcões enormes ao fundo. É mesmo de tirar de tirar o fôlego! Se for pra escolher apenas um vulcão em Java, vá ao Ijen. Se for fazer mais de um, deixe ele por último. Começando pelo Ijen vai ser difícil se impressionar com outra coisa depois!

Todos de barriga cheia, era hora de fazer o caminho de volta. Agora, com a claridade, podíamos pelo menos apreciar a paisagem; mas estávamos cansados e a estrada é tão íngreme que deixava nossas pernas tremendo. No estacionamento, ainda tivemos que esperar uma hora por um grupo de malaios que ficou para trás tirando fotos (não seja essa pessoa) e enfim o ônibus fez uma última viagem até Banyuwangi, no extremo leste de Java, onde o resto do pessoal foi pegar a balsa para Bali.

Eu não. Eu tinha que voltar a Yogyakarta e pegar meus documentos. Com um aperto no coração e uma invejinha boa, vi meus amigos irem embora e esperei pelo ônibus que ia me levar de volta à Probolinggo. Éramos apenas duas: eu e uma lituana. Voltamos à mesma agência de viagem de dois dias atrás, onde me sentei e olhei outros turistas indo e vindo até que meu próprio transporte chegasse para me levar para Yogyakarta. Uma chuva torrencial criava rios nas ruas lá fora. Não tínhamos eletricidade. É mais uma espera longa e entediante, sozinha, até que lá pras dez da noite finalmente chegou uma van.

E olha só que beleza: meu assento estava solto! Sim, o banco da van não estava preso ao chão, então tive que passar a noite acordada me segurando no banco da frente para que o delicado motorista não me jogasse longe. Pedi para sentar na frente ao lado dele, o único lugar ainda vago; ele se fazia de desentendido. Pedi várias vezes pra ele fazer uma parada em um banheiro, ele fingia que não escutava. Os outros passageiros dormem tranquilos. Que inferno! Às vezes essa coisa de mochilão deixa a gente muito cansada.

Chegamos a Yogyakarta cedo de manhã. O querido motorista picareta tentou nos deixar em um lugar qualquer da cidade. Quando ninguém aceitou, ele tentou nos empurrar alguns hotéis (devia estar ganhando uma comissão, no mínimo). Depois de muito bater o pé, consegui que ele me deixasse no meu antigo hostel. Entrei correndo. Nem precisei me explicar: o recepcionista já me reconheceu, me acompanhou até meu antigo quarto e destrancou a porta pra mim. Ali está o armário, e ali está meu envelopinho tosco de plástico com tudo que importa na vida. Eu podia explodir de alívio!

Ofereci um dinheiro pelo inconveniente, mas ele recusou. Eu insisti, ele recusou mais ainda. Agradeci a todas as gerações passadas, presentes e futuras da família dele, animais de estimação incluídos. Por um momento, eu considerei pegar uma cama só por hoje, afinal já são praticamente três dias sem dormir, mas logo mudei de ideia. Se eu corresse, ainda dava tempo! Pulei num táxi e em questão de minutos cheguei ao aeroporto, achei o guichê da AirAsia e comprei um voo por R$115,00. Saía em três horas. Eu estava indo para Bali.