Quando eu era pequena, as férias de janeiro eram sagradas. Todo ano a mesma coisa: acordávamos às 5 da manhã, empacotávamos o carro, nos espremíamos no banco de trás e lá íamos nós – eu, meus pais, minhas irmãs e um ocasional “extra” (meu avô, uma tia, um primo…) – em direção à praia da vez. Santa Mônica, Rio das Ostras, Macaé, Cabo Frio, Guarapari, Iriri, Búzios, Gruçaí, São Pedro da Aldeia. Que viagens longas! Eram engarrafamentos, estradas horríveis, eu e minhas irmãs brigando no banco de trás. Às vezes pegávamos muita chuva, sempre pegávamos muito sol. Um dia inteiro penando no carro para chegar à tão sonhada praia.

Meu pai odiava. Ou pelo menos era essa a impressão que eu tinha. Ele suava muito e xingava muito (à maneira dele, que não envolvia nenhum palavrão de verdade. “Filho de uma égua”, por exemplo, é um que ele gostava). Ele reclamava com a minha mãe que “ela tinha cada ideia” – afinal era ela que fazia questão de viajar todo ano – e estapeava de leve nossas pernas do banco de trás quando a gente fazia muita bagunça. Acho que se fosse escolha dele, a gente ficava em casa. Mas ele ia, todo ano. Ia reclamando, mas ia.

Chegando ao nosso destino, não importa aonde fosse, ele relaxava um pouco. Mas não muito. Tinha que passar protetor solar, tinha que colocar boias nos bracinhos, tinha que carregar cadeira/guarda-sol/esteira. Fazer café da manhã, almoço e jantar pra todo mundo. E lanches! E lá ia ele, desajeitado, suando, reclamando um pouco. Espanava areia dos nossos pezinhos pra não sujar o carro, lambuzava hipoglós nos nossos narizes pra não queimar no sol.

Não acho que meu pai fazia nada disso com má vontade – muito pelo contrário, tenho certeza que ele apreciava com carinho o tempo que tinha com a gente -, só acho que ele estava um pouco fora do próprio elemento e tinha dificuldade em se adaptar. Me parecia que, apesar de estarmos de férias, ele passava grande parte do tempo estressado. Meu pai era uma pessoa de ordem e rotina. Férias era o caos.

Com o tempo, meus pais passaram a ganhar melhor e nossas férias também deram uma aprimorada. Na minha adolescência, viajávamos de avião e ficávamos em hotéis – daqueles pacotes estilo CVC -, mas sempre por iniciativa da minha mãe. Ela era (e ainda é) a viajadeira. Papai ia aonde ela escolhesse, e nós também.

Numa dessas viagens fomos parar em Porto Seguro; eu tinha 16 anos. Eu e minha irmã, Dani, queríamos fazer um daqueles passeios em que você vai no paraquedas e o barco te puxa. Papai foi com a gente de acompanhante. É um passeio super tranquilo, gostoso, e na época ainda era barato. Depois dos nossos 10 minutos de gaivota lá em cima, já no caminho de volta, meu pai comentou que devia ser divertido subir no paraquedas.

– Bom, pai, então porque você não vai?

– Ah não, eu não paguei.

– E daí? O moço te deixa pagar na volta, não é moço? Aí, viu!

– Não não, estou velho, essas coisas não são pra mim.

– Deixa de ser bobo, anda lá!

– Não, esquece, bobagem. Não quero.

E ficou por isso mesmo.

Meu pai tinha 52 anos. Ele não era velho pra nada.

Ele morreu com 58 e nunca andou no paraquedas.

E isso me magoa até hoje. Me dói que meu pai tenha se privado de uma alegria tão fácil. Me dói que ele não vai ter outra chance. Eu queria poder voltar no tempo e fazer ele subir no paraquedas. Ser uma filha melhor, ajudar ele a relaxar, curtir mais a vida, se permitir mais. Porque no final das contas, esse era o problema: papai não se permitia muito. Eu queria que ele tivesse tido coragem de fazer tudo que quisesse, por mais boba que fosse a coisa. Mas na época eu era muito nova, não sabia ser muito mais do que uma menina mimada. E agora é tarde.

Não pense que eu era uma fedelha chata ou que o papai era um monstro mal-humorado. Não, de jeito nenhum! Eu tenho muito mais memórias boas com ele do que ruins: dos parques de diversão (ele andava em todos os brinquedos!), dos cinemas com pipoca no fim de semana, das vezes que minha mãe viajava e ele levava a gente pra comer bobagem a semana toda, das músicas que ele cantava pela casa sem perceber…

Sim, muitas memórias alegres. Mas eu queria mais uma. Queria a memória dele, feliz, voando de paraquedas.

 

Feliz dia dos pais.