Um passeio cansativo pelo maravilhoso Monte Bromo.

(Antes de ler a parte 2, que tal começar pela parte 1? Aqui ó!)

Calma calma, não criemos pânico. O tour tá pago. Eu já cheguei até aqui. Não posso ir pra Jacarta ou qualquer outro lugar a essa hora. Vamos continuar a viagem, entrar em contato com o hostel e ver o que acontece. Se voltar pra casa for mesmo minha única opção, eu volto. Mas não agora, agora eu quero ir ver os vulcões.

O ônibus nos deixou em uma pequena agência de turismo na cidade de Probolinggo. Algumas pessoas ainda tinham que acertar detalhes de seus pacotes, outras que chegaram até aqui por conta própria se juntaram a nós, e nisso mais ou menos uma hora se passou até que outro ônibus veio para nos levar até nossos hotéis. E aí foi mais uma hora subindo em ziguezague até Comoro Lawang, uma pequena vila pertinho do nosso primeiro destino: o Monte Bromo.

O Bromo é um vulcão colapsado, mas ainda ativo, que fica no Parque Nacional Bromo-Tengger-Semuru (entrada de 220.000 rúpias indonésias (R$56), 320.000 (R$81) aos fins de semana). Seu nome é uma homenagem ao deus hindu Bhrama, força criadora do universo. Lindo, né? Com 2.329 metros de altura, ele é o menor vulcão do complexo (e o único que dá pra escalar), mas o parque tem ainda vários outros vulcões – inclusive o Semuru, a maior montanha da Indonésia -, além de cachoeiras e rios. Pra quem estiver com tempo, vale a pena ficar na região uns dias e explorar melhor. Infelizmente, eu estava com pressa. A última erupção do Bromo foi em 2011, então se você pretende visitá-lo é importante checar a atividade dos vulcões com antecedência pois o parque pode estar fechado.

O ônibus me largou no meu hotel e percebi que ia ter uma noite difícil: o wifi não funcionava, o chuveiro era gelado, o chão era imundo, as paredes estavam manchadas; o lugar inteiro parecia que ia desabar a qualquer momento. Nenhum funcionário falava uma palavra de inglês. Antes que eu pudesse abrir minha mala, a eletricidade caiu. Em cinco meses de viagem, esse era o pior lugar em que já tinha ficado: a cereja em cima do bolo que tinha sido esse dia horroroso! Conversando depois com meus colegas de viagem descobri que todos os hotéis eram mais ou menos péssimos, então se você é mais exigente com acomodação, melhor ficar na cidade de Ketapang ou mesmo em Probolinggo, onde tem opções melhores. Isso significa acordar um pouco mais cedo no dia seguinte pra fazer a subida ao vulcão, fica a seu critério.

Eram 11 da noite. Tentei desesperadamente telefonar para o hostel de Yogyakarta, mas ninguém atendia – em nenhum dos três números. Mandei então um e-mail explicando a situação e fui dormir. Ou não. Acho que só pisquei. Sim, eu pisquei e o despertador já começou a tocar. Eram 3:30 da manhã e tive que correr para não perder o jipe que estava vindo nos levar pra ver o nascer do sol. Falei que esse povo era obcecado com nascer do sol! Eu escolhi ir de jipe porque sou preguiçosa e estava com o tempo apertado – é perfeitamente possível subir a pé (uns 40 minutos, se você estiver em forma) e economizar um dinheirinho. Mas recomendo ir cedo de manhã ou no final da tarde: se o Monte Bromo é gelado durante a noite, de dia ele esquenta muito – e rápido.

Então lá fomos nós, subindo mais uma vez. O parque estava completamente lotado e rolou até um pequeno engarrafamento de jipes até chegar na colina de onde se pode observar os vulcões de cima (e, não se esqueça, ver o nascer do sol). A escalada é íngreme, mas rápida; em poucos minutos estávamos todos empoleirados lá no topo, tiritando de frio, no escuro, esperando alguma coisa acontecer. Quando você viaja para o sudeste asiático, não imagina que vai pegar temperaturas abaixo de zero, mas é o que acontece nos vulcões da Indonésia. Seja mais esperto que eu e traga roupas apropriadas.

Depois de um tempo que me pareceu infinitamente longo, o dia começou a clarear e eu finalmente pude ter uma noção de onde estávamos. Apesar de alguns trechos esporádicos de vegetação, a paisagem era quase desértica, parecia algo saído de um filme de ficção científica. Um platô de areia escura se estendia até onde a vista alcançava; vulcões nos cercavam por todos os lados. O tal do nascer do sol deixou a desejar porque nuvens cobriam o céu, mas não importa. Esse lugar é lindo!

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À frente, o cone perfeito do pequeno Batok; o gigante Semuru ao fundo.
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A paisagem lunar do Parque Nacional Bromo-Tengger-Semeru (fonte: flickr.com/photos/azwegers)

Muitas fotos depois, era hora de escalar o vulcão propriamente dito. O jipe nos pegou mais uma vez e nos levou para um estacionamento improvisado logo na base do Bromo. Vários moradores locais se aproximaram oferecendo cavalos para ajudar na subida mas, por milagre, eu recusei. Quem me conhece sabe eu que eu AMO andar a cavalo, mas o trajeto aqui é curto (3km, a maior parte em terreno plano como se pode ver pela foto aí em cima) e os donos não me deixariam ir sozinha a galope. Aí não tem graça, vamos a pé mesmo!

Cansada com a falta de sono e o calor que começava a incomodar, eu demorei para chegar ao topo. A primeira parte da escalada é em areia e escorrega muito, mas alguns lances de escada ajudam no final. Lá de cima, é possível ver a caldeira enorme do vulcão, soltando fumaça. Uma multidão de turistas se amontoa nas balaustradas da caldeira, então caminhei em torno do Bromo até uma região mais vazia e com uma vista melhor.

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A caldeira do Monte Bromo, enchendo nossos pulmõezinhos de fumaça

Depois de uma enrolada básica lá em cima, a descida é mais fácil. De volta ao jipe, fomos todos devolvidos aos nossos hotéis onde tivemos alguns minutos para tomar café (ruim, mas o que mais eu esperava?), tomar um banho e arrumar nossas coisas. Outro ônibus veio nos buscar as 9:30 e íamos continuar em direção ao próximo vulcão, o Ijen, ainda mais ao leste de Java. Enquanto esperava, dei uma checada no meu telefone e vi que o hostel tinha me respondido. Abri o e-mail com o coração aos pulos.

E não é que existe gente tão toupeira quanto eu? De acordo com o mocinho da recepção, eles não podiam abrir o tal do armário porque só existe uma cópia da chave. E ela estava comigo! Então seja lá o que for que eu tinha deixado pra trás ainda estava lá, trancadinho, me esperando. Uns 547 quilos se levantaram das minhas costas. Respondi ao hostel pedindo mil desculpas, falei que ia pagar uma taxa pelo inconveniente, mas que agora estava no meio de uma excursão e só ia conseguir voltar em 2 dias.

E ainda bem que eu resolvi continuar, porque se eu tinha achado o Bromo bonito, eu não fazia ideia do que me esperava mais a frente.