Como eu sabotei minha própria viagem em menos de três dias.

Ao contrário das Filipinas, a Indonésia sempre foi um sonho. E o pior é que continua sendo porque o visto turístico que se recebe ao entrar no país é de 30 dias, ou seja, não dá pra nada. Sério mesmo, vai lá no Google Maps e olha o tamanho do país. São 17 mil ilhas! 30 dias não dá pra nada. Então o que a maioria das pessoas faz é ir direto pra Bali e ficar por lá mesmo. Um desperdício: Bali é a ilha mais overrated do planeta. Já sabendo disso, eu resolvi começar minha aventura indonésia em Java.

Além de nome de software, Java é também uma ilha. Já foi parte de um império hindu, já foi sede da Cia. das Índias Orientais, e agora é a mais populosa ilha do mundo – e a mais importante da Indonésia. Vale alguns dias da sua viagem. Não pelas cidades enormes e lotadas, mas pelos inúmeros vulcões espalhados pela região leste da ilha. E por Yogyakarta.

Apesar de Yogyakarta ser sim uma cidade enorme e lotada, não parece. É espaçosa, agradável, cheia de cafés, lojinhas e galerias de arte. Um chuchu! Além disso, Yogyakarta é o ponto de partida para se explorar alguns dos maiores e mais famosos templos do sudeste asiático: Borobudur e Prambanan. Infelizmente, depois de cinco meses e cinco países budistas (sem contar as little indias e china towns em todas as cidades da Malásia e em Cingapura), eu estava um pouco cansada de templos. Enfim, tá na chuva é pra se molhar né?

O tour para os templos começa cedo. Muito cedo. De madrugada! Esse povo é completamente obcecado com o nascer do sol e foi inútil tentar achar uma agência que fizesse o passeio mais tarde. Existem vários mirantes em torno da cidade onde se pode começar o tour, inclusive nos próprios templos; eu escolhi as Menoreh Hills. Então lá fui, acordar 3:30 da manhã, pegar as outras pessoas em seus hotéis (lei de Murphy: é claro que eu fui a primeira), pra escalar as Menoreh Hills e ver o sol nascendo. Tá, eu admito: a subida era minúscula e a paisagem era maravilhosa. Mas eu preferia ter ficado na cama dormindo…

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Nascer do sol em Menoreh Hills com Monte Merapi fumegando ao fundo

O dia então já esquentando, é hora de ir para Borobudur,  o maior templo budista do mundo (que fica em um país de maioria muçulmana, irônico não?). Admito que fiquei ligeiramente desapontada. Como eu disse, eu já tinha visto templo pra dar, vender e jogar fora; mas foram outras coisas que me desagradaram. Em primeiro lugar, achei a estrutura fraca considerando a quantidade de turistas que visitam o lugar todos os dias e o preço que se paga pela entrada. Em segundo lugar, o assédio das pessoas tentando te vender badulaques é dos piores que eu já vi. E por último – e aí a culpa é minha mesmo – eu estava com expectativas muito altas. O maior templo budista do mundo! Deve ser realmente enorme! Deve ser super diferente! Que nada… Mas apesar de todos os problemas, Borobudur é sim um lugar bonito e vale a visita. Só não espere demais.

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Detalhes esculpidos nas paredes de Borobudur

O templo é formado por níveis, a princípio de base quadrada (estes cercados por estátuas do Buda) e em cima de base redonda (estes cercados por pequenos domos que parecem sinos), com uma cúpula principal no topo. Teria sido uma visita rápida se não fosse por um detalhe: era fim de semana e o templo estava lotado de excursões de colégio. Grupos enormes de crianças e adolescentes infestavam o lugar, fazendo barulho, tirando selfies, rindo de tudo. Uma festa.

Quando eu estava quase terminando minha visita, um grupo de meninas se aproximou de mim. Umas oito ou dez, todas usando seus hijabs e com pastas na mão. “Você fala inglês? Pode conversar com a gente?”, me pergunta uma delas, menos tímida, enquanto as outras me encaram com olhos arregalados. Eu concordo e ela me explica que estão em uma excursão com o professor de inglês. A tarefa é me ensinar mais sobre Java e aprender sobre o meu país (“Você é do Brasil? É o país do Neymar!” Vê se eu aguento).

Nos sentamos no chão (sim, no meio do templo) e elas vão abrindo suas pastas para mostrar receitas de pratos típicos e pontos turísticos de Java. Outros alunos se juntam a nós. Eles me ensinam a cantar músicas folclóricas e a falar palavras em bahasa. Querem saber do meu trabalho, da minha viagem, do meu namorado. Não são meus alunos, mas poderiam muito bem ser: adolescentes são adolescentes em qualquer lugar do mundo. No final, eles me apresentam ao tal professor de inglês e terminamos com uma nada curta sessão de fotos.

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Meus pequenos professores: me ensinaram mais sobre a Indonésia e seu povo do que qualquer guia turístico jamais poderia ensinar

De volta a Yogyakarta eu fui empacotar minhas coisas e deitar cedo já que tinha outro tour saindo de manhã no dia seguinte: o tour dos vulcões. É um pacote que te leva para o leste de Java para explorar os dois mais famosos vulcões da ilha – Bromo e Ijen. Eu recomendo muito. O passeio é barato, as paisagens são lindíssimas e essa região do país ainda não tem uma estrutura muito boa para turismo, de forma que ir por conta própria é complicado.

Sem contar que é sempre bom compartilhar o ônibus com outros viajantes como você, trocar experiências, ouvir dicas. Ainda mais quando se tem 14 horas de viagem pela frente, num calor insuportável e em assentos apertados. É uma verdadeira surra mas repito: VALE A PENA!

Lá pela décima hora de viagem, o sol já descendo no horizonte, todos cansados e ansiosos por chegar, um holandês me chama: “Ei, isso aqui caiu da sua mochila”. Me entrega uma chave. Que desgraça de chave é essa? Eu não trouxe chave nenhuma.

Não mesmo, por que essa chave não é minha. É do hostel. É a chave do armário onde eu guardei meu passaporte, meu dinheiro, meus cartões… Tudo. Tudo que era importante e eu tranquei pra não perder, e que ficou pra trás, lá em Yogyakarta.

Acho que meu coração parou por alguns segundos. Corro para o motorista, tento explicar que preciso voltar. Ele não entende. Quero saber quando vamos chegar, ele não entende. Quero que ele me deixe na cidade mais próxima, ele não entende. Aqui, no meio do nada, a noite, não posso fazer nada. O telefone está sem sinal.Tento respirar fundo e me acalmar, mas não consigo. Só consigo pensar em uma coisa: a essa hora um funcionário do hostel já achou minhas coisas, e se não entrou em contato – eles tem todos os meus dados, poderiam ter no mínimo mandado uma mensagem – é porque não tem a intenção de me devolvê-las.

Acabou. Não posso continuar sem passaporte, sem dinheiro e sem cartão. Vou perder minha passagem para a Suécia, vou perder minha viagem pra Inglaterra. Sem contar que mal cheguei à Indonésia! Estou cansada, quero sentar no chão e chorar. Sem documento e sem dinheiro, minha única opção é ir para Jacarta, procurar o consulado brasileiro, esperar que eles me ajudem a voltar pra casa. É isso.

Desisto.

Vou voltar pra casa.