O dia que eu tive aulas particulares de natação com o maior peixe do mundo.

As Filipinas não estavam no meu roteiro de viagem. Muito pelo contrário: era um daqueles países que eu nunca sequer tinha pensado em visitar. “Filipinas? Aonde fica isso?” Pois bem, mudei de ideia quando vi as fotos de um amigo mergulhando com tubarões baleia. Está lá no topo da minha bucket list (num caderninho da Capricho que eu ganhei aos 14 anos):  ver tubarões baleia no México. Dei uma pesquisada e, vejam só que sorte, eu poderia chegar lá – nas Filipinas, não no México – bem na alta temporada para ver tubarões. Sim, porque os bichos são migratórios e você corre o risco de não ver nada se for na época errada. Aviso então desde já: nas Filipinas, a alta temporada de tubarões baleia é entre dezembro e maio, com chances ainda melhores entre fevereiro e abril. Eu fui em abril. Agora vou ter que arrumar outra desculpa para ir pro México, paciência.

O melhor lugar para se ver tubarões baleia nas Filipinas é Donsol. Guarde esse nome! Donsol é uma pequena vila de pesquisadores próxima a Legazpi, no sul da ilha de Luzón, a principal do país. Existem vários vôos para Legazpi a partir de Manila e Cebu, também tem como chegar de ônibus. De lá, você pode pegar ônibus, vans ou jeepneys para Donsol – demoram entre 1h30 e 2hrs. Recomendo o jeepney: não custa quase nada (uns R$3) e é um bom jeito de se misturar com os locais. Se você não está em Luzón e quer chegar em Donsol pelas ilhas do sul, pode ir de barco até Pilar e de lá pegar um triciclo. Foi o que eu fiz, mas essa é outra aventura para outro post.

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Olá, eu sou um jeepney! (fonte: flickr.com/photos/insmu74)

Em teoria, os tubarões podem ser encontrados em várias partes do país, mas em Donsol existe um projeto de conservação do próprio governo que regulamenta a interação com os animais de forma que ela seja menos prejudicial, ao mesmo tempo em que converte a renda gerada para promover o eco-turismo na região. Lindo né? Chama The Donsol Whale Shark Interaction. Sem contar que, como eu disse, as chances de se ver os tubarões durante a alta temporada são muito boas.

Uma outra vila, ao sul da ilha de Cebu, também oferece passeios de interação com os tubarões. Por favor, evitem esse lugar! Conheci várias pessoas que foram lá e odiaram. Os moradores alimentam os tubarões (que ainda são filhotes) para garantir que eles venham todos os dias. Eles são cercados por barcos e dezenas de pessoas entram na água ao mesmo tempo. Deve ser no mínimo estressante para os animais, que estão desaprendendo a se comportar naturalmente e perdendo seus ciclos migratórios. A gente quer ver tubarão saudável, né galera? O bicho já tá em perigo de extinção, nada de apoiar esse tipo de turismo exploratório.

Enfim, cheguei a Donsol. Achei um resort baratíssimo (anota aí: Woodland Beach Resort) e fui ao centro de turismo marcar meu passeio. Além da taxa ambiental, você paga 3500 pesos filipinos pelo barco – não se preocupe, eles arrumam mais pessoas para dividir o barco com você – de forma que o total fica em torno de 700 pesos (aproximadamente R$60). Acrescente entre 150 e 300 pesos (R$12 e R$23) se quiser alugar máscara, snorkel e nadadeiras lá. São três saídas por dia: 7hrs, 10hrs e 13hrs. Tente ir o mais cedo possível.

Marquei a minha para o dia seguinte de manhã: fomos eu, dois casais franceses e um senhor alemão. Mais o guia, Ori. Além de achar os tubarões pra gente, Ori explica como interagir com eles e dá uma aulinha básica de educação ambiental e biologia do tubarão baleia. O meu lado professora de ciências estava adorando! Entramos no barco, colocamos nossos equipamentos, e nos sentamos para aguardar o que eu esperava ser uma longa viagem até o local onde os tubarões vêm se alimentar.

Me enganei. Em cinco minutos Ori  anuncia:

“Preparem-se para entrar na água”.

“O que? Mas já? Eu podia ter nadado até aqui!”

“Pois é, os tubarões chegam bem perto da costa”.

Muito perto da costa MESMO! A gente não deve ter se afastado sequer 300 metros. Ori agarrou meu braço, me puxou e pulou na água. O resto do pessoal vem atrás. Não vejo absolutamente nada, a visibilidade é desgraçada de ruim. Vagamos um pouco sem rumo até que ele aponta a frente: uma mancha cinza com bolinhas brancas, deslizando pela superfície. Um monstro, sequer dá pra ver ele inteiro, assim tão de perto. Macho, adulto, uns 10 metros de comprimento (ser bióloga as vezes seve pra alguma coisa). Nadando na maior calma do mundo, filtrando lá seu plâncton, nem se dá conta dos turistas frenéticos atrás dele.

Outro barco se aproxima, despeja sua safra de turistas frenéticos, depois se afasta. Agora somos 12 em volta dele. Não, somos 9… 5? 3? Sou eu, sozinha. As pessoas se cansaram, se perderam, voltaram para os barcos. Olho em volta, não tem ninguém, nada. Eu, o tubarão e o mar. Tenho um ligeiro momento de pânico: “E se acontece alguma coisa? Não consigo ver os barcos! E se aparece um tubarão branco e me engole inteira?”* . Foda-se.  Continuo batendo pernas e braços, vamos fazer valer todas as horas que passei nas piscinas do Minas. Quando tempo passou? Perdi a conta. Qual distância eu nadei? Não faço a mínima. Eventualmente ele mergulhou para as profundezas, devagar, e desapareceu.

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Um butanding, como são chamados os tubarões baleia nas Filipinas, seguido por sua horda de turistas malucos (fonte: flickr.com/photos/cs-jay)

O barco vem me buscar. Ori me diz que eu fiquei 40 minutos atrás dele – e que não teve perigo nenhum, eles me acompanharam de longe o tempo todo. Na volta, encontramos outros tubarões (inclusive um filhote!) mas só ficamos com eles por poucos minutos: eu já tinha gasto todo nosso tempo e estávamos cansados. De volta ao centro, ganhamos certificados de interação com os “butanding” e saímos todos juntos para almoçar, trocar figurinhas e afins. Antes de ir embora, peço pra um dos franceses me mandar as fotos que tirou da gente (um viva para essas pessoas maravilhosas que tem GoPro).

Infelizmente, as fotos nunca vieram. Talvez ele tenha perdido meu contato, talvez ele tenha esquecido, mas a verdade é que não importa. Eu não preciso de fotos para me lembrar do dia que tive aulas particulares de natação com o maior peixe do mundo.

 

*Nota: gente, NÃO TEM TUBARÃO BRANCO NAS FILIPINAS! Eu que sou uma marmota, tenho medo de tubarão branco até no chuveiro…